Festa do Lego mostra força da robótica na sala de aula - PORVIR

Inovações em Educação

Festa do Lego mostra força da robótica na sala de aula

Escola de Uberlândia leva o grande prêmio do Festival Internacional de Robótica First Lego League com projeto de rede de monitoramento

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 5 de setembro de 2014

Foram meses de jornada dupla e dedicação total até aos finais de semana. O que à primeira vista era diversão, para a equipe Legosos e Furiosos, formada por alunos do Sesi Guiomar de Freitas Costa, de Uberlândia (MG), foi um projeto levado às últimas consequências. Nesta quinta-feira (4), o time conquistou o troféu de campeão do Festival Internacional de Robótica First Lego League (FLL), que aconteceu durante a Olimpíada do Conhecimento, evento promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) realizado em Belo Horizonte, Minas Gerais. O caminho até a consagração foi longo e começou com a chegada das aulas de robótica em 2013 após um ano de treinamento dos professores das mais diversas disciplinas, como física, matemática e química.

“Antes os alunos tinham uma visão sobre física que não era a que a gente queria passar. Com o uso dos robôs, eles podem fortalecer a imaginação e jogar para o concreto. Isso traz um poder de abstração e entendimento muito melhor”, conta Wesley Costa, mentor do time e professor de física. Apesar de a disciplina concentrar as atividades de robótica no ensino médio, Costa afirma que existe espaço na grade para a interdisciplinaridade. “Quando vou montar uma aula que envolve geografia e biologia,  convido professores dessas matérias e elaboro uma atividade a mais”, diz.

Festa do Lego mostra força da robótica na sala de aulaDivulgação

 

Para participar do torneio, 18 equipes brasileiras e cinco estrangeiras (Áustria, Chile, Canadá, Estados Unidos e Estônia) tinham o desafio de executar missões usando robôs construídos e programados por eles seguindo o tema Fúria da Natureza. Além disso, era preciso expor projetos de pesquisa científica sobre o mesmo assunto. Giovana Saraiva Melo, estudante do 9º ano, diz que para conseguir realizar o projeto teórico das redes de monitoramento, foi necessário recorrer a uma rede de especialistas e representantes do governo. “Ligamos para 13 cidades, conversamos com o Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais, com o Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação e com muitos profissionais, o que nos deu experiência”.

Na parte prática, a exibição ao som de DJ que levantava a plateia da Olimpíada do Conhecimento era baseada em microchips sobre uma mesa que desenhavam uma malha controlada via satélite por meio de software. Qualquer movimentação da malha acionava equipes dos Bombeiros e da Defesa Civil para fazer retirada da população. “Começamos com um robô bem simples na etapa regional, que foi aprimorado para a nacional. Hoje estava perfeito, do jeito que a gente queria. No último evento, não tinha ganhado nenhum troféu, e aqui o sucesso veio em dobro”, diz Giovana.

Escolhido o melhor técnico, Hélio Igor, da equipe TechCoe, da Coesi, de Aracaju (SE), diz que a entrada dos robôs na grade curricular traz grandes benefícios ao aluno. “Quando ele se torna coautor e construtor, vê o que não conseguia na teoria. Na sala de aula, ele aprende todo o processo e, no laboratório de robótica, constrói com todos os componentes de maneira lúdica”.

A realidade local também foi levada em conta na escolha do tema. “Pesquisamos sobre incêndios na Serra Itabaiana, lugar com características de floresta na nossa localidade. Os alunos estudaram como criar uma reserva subterrânea de água e como usar um sistema de sensores para ajudar os bombeiros. Tudo isso, trouxemos para o Lego”, diz. Atual campeã do Nordeste, a TechCoe leva para casa o terceiro lugar na FLL de Belo Horizonte.

Festa do Lego mostra força da robótica na sala de aulaDivulgação

 

Na equipe, o exercício de diversão/programação já conquistou fãs como Samira Mendes, 14 (mas na robótica desde os 11, como salienta), aluna do 1º ano do Ensino Médio. “A gente aprende de forma separada das outras matérias, duas horas e meia por semana. Os robôs abrangem outras áreas como matemática, porque a gente pode aprender média, biologia, onde a gente já fez coração, pulmão. Em outras matérias como física, química, eles tornam as coisas mais dinâmicas para a gente aprender”, explica.

O que no começo era só um bloco que ia para frente e para trás, com o passar das aulas começou a virar e, depois, a fazer tudo isso junto. Hoje, segundo Samira, o mais difícil é lidar com sensores e a matemática na programação, converter dados e medidas. “Pode parecer simples, mas é um grande desafio. E na questão da engenharia você fica muito fascinado por ver o resultado. Se dá errado, muda. Aí vê que deu certo e fica muito satisfeito”. O futuro? Samira já escolheu: vai fazer carreira em engenharia da computação.

Diferentes realidades

Um dos trunfos do festival FLL de Belo Horizonte foi reunir estudantes de diferentes realidades se divertindo às custas dos robôs. O time americano ROFL, sigla para Robots on the Floor Laughing (corruptela para o internetês “Rolling On the Floor Laughing” que, em português, significa algo como “rolando no chão de tanto rir”), conta com apoio dos pais para ter robôs, com os quais também têm contato na escola desde cedo.

“Na quinta-série, a disciplina é obrigatória e passa ser opcional a partir do ensino médio”, conta Elizabeth Decker. “A robótica fez com que a gente melhorasse nos trabalhos com outras pessoas”, diz.

Festa do Lego mostra força da robótica na sala de aulaDivulgação

 

Do outro lado está a equipe chilena The Mainstream, com alunos da cidade de Talca, localizada a 240 km de Santiago. A cidade foi destruída em 2010 após um forte terremoto e isso inspirou o professor de ciências Jorge Soto Bravo, do Colégio San Jorge, a criar um projeto que servisse para ajudar os moradores durante um hipotético terremoto numa noite de Natal.

“O caos causaria insegurança, que levaria a acidentes. Naquele ano, o tremor deixou a cidade sem luz, o que também causou falta de água potável, porque bombas não funcionavam”, lembra. A solução engenhosa proposta pelo grupo de Bravo foi criar uma zona de segurança, com coletores de água e painéis solares, além de pensar num sistema de alerta para a população.

Segundo o professor, não existe qualquer apoio para a compra dos robôs (custam cerca de US$ 500), que são obtidos com rifas e atividades paralelas no colégio. A disciplina é ensinada por meio de workshops.

O esforço foi recompensado e, com o mesmo grito “Chi-chi-chi le-le-le. Viva Chile”, que ficou famoso durante a Copa do Mundo no Brasil, a equipe The Mainstream ergueu a taça Core Value, dada a quem melhor representa os valores do FLL para competição amigável, cooperação e trabalho coletivo. “Digo a meus meninos que todos temos qualidades e temos que uni-las para conseguir os resultados, que virão com responsabilidade e respeito. Numa competição como essa, você aprende para a vida, e não apenas se divertir. E esse prêmio mostra que estamos fazendo um bom trabalho, apesar da falta de tempo e de recursos”.

* O repórter viajou a Belo Horizonte a convite do Senai 


TAGS

aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, competências para o século 21, ensino médio, programação, robótica, tecnologia

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