O que há em comum entre escolas, criatividade e musculatura? - PORVIR
Crédito: diecidodici / Fotolia.com

Inovações em Educação

O que há em comum entre escolas, criatividade e musculatura?

Projetos vencedores do prêmio Criativos da Escola de 2015 ganham força e inspiram mais transformações pelo país

por André Gravatá ilustração relógio 19 de maio de 2016

– Você é capaz de criar musculatura para sustentar a mudança que você quer?

Ouvi esta frase da educadora Lia Diskin, importante pensadora e realizadora de ações na área da educação para a paz. Essas palavras da Lia sempre me acompanham e provocam. Têm tudo a ver com os cinco projetos selecionados pelo Criativos da Escola no ano passado, que receberam nosso reconhecimento por desenvolverem ações de protagonismo juvenil e princípios como empatia e escuta.

Veja também: Como inscrever seu projeto na edição de 2016 do Criativos da Escola

Os projetos encontrados pelo Brasil que mais chamaram nossa atenção são persistentes em criar musculatura para sustentar as mudanças sonhadas. Mas o que comumente acontece em iniciativas sem musculatura? Têm vida efêmera, duram apenas o tamanho do pequeno fôlego que as geram. Ações como as que encontramos pelo Brasil e revelamos no final do ano passado, pelo contrário, vão se enraizando pouco a pouco e conquistando espaço pela insistência criativa.

Ano passado, mapeamos mais de 400 projetos pelo Brasil inteiro e selecionamos ações de Rondônia, Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Distrito Federal. Ainda no final de 2015, realizamos uma celebração que reuniu todos os grupos em São Paulo. Mais recentemente, entramos em contato com educadores e alunos para saber como têm andado os projetos. Nosso espanto foi positivo. No projeto do Rio Grande do Norte, o “Gaiolas Literárias“, cerca de 50 novos alunos se voluntariaram para participar. A proposta da ação é espalhar gaiolas com livros pela cidade, para estimular a leitura e conscientizar as pessoas sobre a importância de libertar pássaros presos. Os alunos usaram o dinheiro da premiação do Criativos da Escola para comprar celulares para o grupo registrar suas ações. Estão recebendo cada vez mais doações de gaiolas e planejando a criação de uma turma de teatro para contar histórias sobre pássaros – e estimular mais e mais narrativas sobre liberdade no imaginário local.

Na Bahia, o projeto “Grupo de Apoio e Conselho (GAC)” ganhou fama na região de Simões Filho depois da premiação do Criativos. Aumentaram as matrículas na escola e os alunos que participaram do encontro em São Paulo voltaram para suas casas com mais autoconfiança – muitas falas dos alunos reforçam que o Criativos os estimulou a valorizarem suas capacidades. Continuam se encontrando duas vezes por semana para dialogar sobre os conflitos da escola e, quando há algum problema maior, até se encontram mais.

O projeto que encontramos no Ceará, chamado “Jovem Explorador“, está quase pronto para a inauguração. Escolas da região, tanto públicas quanto particulares, procuraram o grupo para conhecer melhor a proposta. Hoje em dia, estão desenvolvendo uma ação frequente inspirados em aprendizados instigados pela viagem de celebração no fim do ano, na qual convidam especialistas para conversar com os alunos e educadores sobre temas que desejam aprofundar. Ganharam um prêmio de US$ 15 mil que está ajudando bastante na construção da parte estrutural do museu e planejam abrir suas portas em maio com uma exposição sobre a história e a natureza da região.

Já o projeto de Rondônia, “Uma combinação que dá certo”, onde os alunos inventaram um sistema que capta a água desperdiçada por centrais de ar refrigerado, continua com a implantação de mais um sistema de captação em outra central de ar na escola. Depois do Criativos, alunos foram procurados até por uma empresa que ficou curiosa sobre a tecnologia desenvolvida. Por fim, os jovens do Distrito Federal também continuam com muito fôlego – o projeto “História Construída Por Blocos”, que essencialmente promove a inserção de jogos digitais como ferramenta pedagógica nas aulas, agora tem uma sala própria na escola. Os alunos estão se organizando para levar a iniciativa a outras instituições próximas.

Observar a trajetória desses projetos é olhar de perto a criação de musculatura para sustentar mudanças. E nos impressionamos com o fato de que os jovens e educadores dos projetos seguem com uma energia vigorosa. Uma das alunas, a Amanda, do Distrito Federal, chegou a dizer que, nos momentos em São Paulo, na celebração do Criativos, “o que o jovem falava tinha importância”, deixando clara a sede por ser percebida publicamente pela sua potência. E o que o jovem falava lá na celebração tinha importância sim, claro. Tinha, tem e vai continuar tendo. Porque, para criarmos musculatura capaz de sustentar as mudanças que almejamos, é imprescindível confiarmos uns nos outros, na possibilidade de exercermos protagonismos.

Eis nosso desejo: que todos esses jovens e educadores continuem com fôlego. “Você é capaz de criar musculatura para sustentar a mudança que você quer?”, perguntou Lia Diskin para mim há algum tempo. Os jovens e educadores do Criativos da Escola têm respondido essa pergunta com um maiúsculo SIM.


TAGS

aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, competências para o século 21, educação mão na massa, escolas inovadoras, socioemocionais, sustentabilidade, uso do território

Deixe um comentário

avatar
500
  Acompanhar a discussão  
Tipo de notificação
X