Procuramos, no cotidiano da sala, ouvir as crianças para compreender seus interesses, desejos e curiosidades. Ao percebermos que a turma do 3º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Professor Mário Bergamasco, em Jaguariúna (SP), apresentava níveis de aprendizagem bastante diversos e um número significativo de estudantes da educação especial, apostamos na aprendizagem criativa. Vimos nela um caminho para promover engajamento e, ao mesmo tempo, tornar o processo mais divertido.
Em 2025, tínhamos estudantes com TEA (Transtorno do Espectro Autista), um com altas habilidades e dois com maior necessidade de suporte, um aluno com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade), um em investigação de TOD (Transtorno Opositivo Desafiador) e uma criança com crises de ansiedade. Histórias, ritmos e formas de aprender muito diferentes conviviam no mesmo espaço.
📱Inscreva-se no canal do Porvir no WhatsApp para receber nossas novidades
Logo nos primeiros dias, percebemos que 12 das 26 crianças ainda não dominavam a hipótese alfabética, fase em que passam a compreender que é preciso ampliar o uso de letras para representar os sons da fala.
Ao escrever a palavra “robótica”, por exemplo, surgiam registros em hipótese pré-silábica, como “MHUILOAEPHJ”. Outros apresentavam hipótese silábica sem valor sonoro, como “ooia” ou “rbic”. Havia ainda produções silábico-alfabéticas, como “robika”.
Foi então que perguntamos: como criar um ambiente em que todos se sintam incluídos e motivados a aprender? Levantamos temas de interesse da turma. O oceano apareceu imediatamente: peixes, tubarões, camadas do mar, mistérios do fundo oceânico. Decidimos transformar essa curiosidade em eixo integrador.
➡️Clique aqui para conferir a sequência didática

Infraestrutura e ponto de partida
O primeiro passo foi buscar os recursos disponíveis: quatro kits LEGO SPIKE Essential, quatro kits LEGO SUBMERGED, três tablets, um notebook, acesso à internet, lousa e giz, além de cartolinas e canetinhas.
Os kits de robótica incluem peças de montar, motores, sensores e programação em blocos. Com eles, as crianças constroem protótipos, programam movimentos, testam comandos e ajustam estratégias. As ideias passam a ganhar forma.
O encantamento surgiu quando o primeiro motor funcionou. Parecia mágica. Logo vieram novas propostas. Um aluno decidiu sincronizar as voltas de sua “máquina de purificar o oceano” com um sensor de luz e música. Foi muito interessante observarmos outros colegas se aproximando para pensar, juntos, qual sequência de comandos e quais valores numéricos poderiam colaborar para que o projeto funcionasse.
Em outro momento, os grupos criaram bondinhos que atravessariam o mar. Dois funcionaram rapidamente. Outros dois demoraram mais. Haviam trocado os motores; os comandos respondiam ao “play” do grupo vizinho.
Aproximamo-nos e perguntamos:
“Será que vocês criaram uma inteligência artificial que só funciona quando quer?”
Após verificar o pareamento, um aluno respondeu, sorrindo:
“Professoras, eles estão conectados nos motores do outro grupo!”
Rimos juntas com eles. E aprendemos: não basta conectar; é preciso observar onde estamos conectando.
| A arquitetura pedagógica: 4Ps e 4Os da aprednizagem criativa na prática |
|---|
| Os materiais nos apoiaram a incluir os principais elementos da aprendizagem criativa nesse projeto. São os chamados 4Ps e 4Os. Projeto A aprendizagem acontece por meio da construção de algo concreto e significativo. No nosso caso, os alunos construíram protótipos de animais marinhos, cenários do fundo do mar e histórias autorais em forma de fábula. Paixão O interesse genuíno da criança é o motor do processo. O tema do oceano surgiu da escuta da turma. Pares Aprender é um processo social. Organizamos grupos heterogêneos, com papéis rotativos. Pensar brincando Explorar, testar, errar, ajustar e tentar novamente. Objetos Manipulação de peças físicas e construção de protótipos. Organização Planejamento das etapas e divisão de tarefas. Observação Testar e analisar resultados. Otimização Ajustar e melhorar soluções. |
Da curiosidade ao projeto interdisciplinar
As curiosidades sobre o mundo marinho rapidamente se transformaram em investigação prática. Em grupos, os alunos construíram submarinos com os blocos, programaram movimentos, testaram comandos e criaram trajetórias, mobilizando medidas, comparações e raciocínio lógico. Ao planejar percursos pelas camadas do oceano, retomaram conteúdos de ciências sobre vertebrados, invertebrados e modos de vida marinhos.
Como o gênero fábula era foco do bimestre, articulamos ciência e escrita. Apresentamos o cartaz “Fábulas do Oceano”, analisamos personagens, conflito e moral, lemos textos-modelo e aprofundamos a organização narrativa, a construção de parágrafos e a coerência textual, incluindo atividades de reorganização de trechos.
Na criação da fábula “O peixe-lanterna e o cavalo-marinho medroso”, o grupo escolheu os animais que mais gostava de pesquisar, mas surgiu a dúvida sobre como transformá-los em personagens da história. Após um momento de chuva de ideias, um aluno disse:
“O peixe-lanterna poderia ser a luz para o cavalo-marinho não ter mais medo, assim como a gente se ajuda aqui na sala, não é mesmo?”
Todos acolheram a proposta e começaram a discutir qual seria o conflito adequado.
No diálogo, surgiram falas como “Ah, mas nem sempre a gente quer ajudar” e “É importante ajudar, porque um dia a gente ajuda e, no outro, pode ser ajudado”. A partir dessas trocas, o grupo construiu o conflito da história e definiu a moral da fábula.

Inteligência artificial: mediação, limites e autoria
Na produção autoral, os alunos criaram personagens marinhos, definiram conflitos e elaboraram morais. Com apoio do ChatGPT (ferramenta de inteligência artificial), organizaram ideias e estruturaram suas narrativas. Quando propusemos o uso da IA para gerar cartazes, surgiram perguntas como: “O que é IA?” e “A IA é aquela máquina que faz tudo pra gente, né, prô?”. Houve ainda quem quisesse “contratá-la” para fazer as tarefas.
A conversa nos levou a discutir origem, funcionamento e limites da tecnologia. Aos poucos, compreenderam que a IA pode ajudar a organizar ideias, mas não substitui criatividade nem autoria. Um aluno resumiu: “Ela pode ser assistente, mas a gente precisa revisar tudo o que faz, não é mesmo?”
Geramos imagens com erros intencionais para reforçar a importância da revisão e destacamos que o uso da IA deve ocorrer com mediação adulta, especialmente para proteger dados sensíveis. O resultado foram cartazes de ortografia inspirados no fundo do mar, que seguem expostos na sala.
Ao integrar robótica, escrita e investigação científica, os estudantes articularam ciência, matemática e linguagem. A robótica deu forma às ideias; a escrita ampliou seus sentidos.
Organizamos a turma em grupos heterogêneos, com papéis rotativos, favorecendo corresponsabilidade e protagonismo. Alunos com maior fluência leitora apoiavam na escrita, enquanto aqueles com facilidade lógica auxiliavam na programação. Cada estudante encontrava espaço para contribuir.
Para estudantes com TEA e TDAH, estruturamos rotinas visuais, instruções segmentadas e pausas planejadas. Para o aluno em investigação de TOD, ampliamos a escuta e a mediação preventiva. O fato de estarmos em duas professoras em sala permitiu intervenções mais próximas.

O que mudou na aprendizagem
O projeto foi realizado de abril à primeira semana de dezembro, com aulas integradas de robótica e ciências, matemática e língua portuguesa. Encerramos com uma apresentação para as famílias e para as demais turmas do 3º ano, possível graças ao engajamento da equipe gestora e das famílias.
As crianças apresentaram seus projetos com segurança e entusiasmo. De uma turma que começou com 12 crianças não alfabéticas, encerramos o ano com apenas uma ainda em processo, acompanhada com apoio contínuo.

O trabalho se ampliou para além da temática marinha, envolvendo construções motorizadas com LEGO, animação no Octostudio, experiências de robótica — como circuito elétrico e barco movido a energia solar — e atividades mão na massa, como catapultas, feira de alimentação saudável e uma sorveteria com cálculo de troco.
Os demais avançaram significativamente na leitura, na escrita e na matemática, além de demonstrarem maior confiança e envolvimento com a escola. Alunos que evitavam ler em voz alta passaram a apresentar mini-seminários com mais fluência e segurança. O uso da plataforma Elefante Letrado e os dados internos da escola confirmaram esse crescimento.
Guardamos um momento especial: a mãe de um aluno que começou o ano pré-silábico nos enviou um áudio emocionado. Ele passou a contar sobre as aulas em casa e a ler as atividades para ela. Ela acreditava que o filho não aprenderia. Aprendeu.
Como adaptar o projeto em outras escolas
“Um oceano de possibilidades” não depende de kits de robótica. O ponto de partida é a escuta das crianças e a escolha de um tema que faça sentido para o grupo. A partir daí, é possível integrar diferentes áreas do conhecimento em torno de um desafio comum.
Sem LEGO, pode-se trabalhar com sucata, papelão, massinha, desenho ou programação desplugada. O importante é que os estudantes construam algo concreto, testem hipóteses, revisem o que produziram e apresentem seus resultados.
Compor grupos com diferentes níveis de aprendizagem, definir papéis rotativos, tornar a rotina visível e finalizar com uma apresentação pública são estratégias possíveis em qualquer contexto. Mais do que os recursos tecnológicos, o que sustenta a proposta é a intencionalidade pedagógica e a disposição para aprender junto com os alunos.

