Projeto mostra como a matemática pode enfrentar apostas online- PORVIR
Arquivo pessoal

Diário de Inovações

Jogo do tigrinho na escola? Projeto de matemática vira antídoto para apostas online

por José Carlos da Silva Júnior ilustração relógio 6 de fevereiro de 2026

Dinheiro fácil não exige esforço, mas custa caro. Ao longo de 2024, na Escola Técnica Estadual Miguel Batista, no Recife (PE), assisti à matemática ser distorcida em conversas de corredor. O avanço das plataformas de jogos de azar entre os jovens transformou minha aula em um campo de disputa contra aplicativos desenhados para enganar, e não para ensinar.

Entre uma atividade e outra, percebi que muitos estudantes falavam com naturalidade sobre apostas online e “ganhos rápidos”. Parte da mesada familiar e até recursos do programa federal Pé-de-Meia surgiam nas conversas como dinheiro destinado a plataformas de apostas digitais, quase sempre de forma impulsiva e sem reflexão sobre riscos e consequências.

▶️Conheça os demais projetos finalistas da 3ª edição do Prêmio Professor Porvir! E acompanhe nossas redes: publicaremos os selecionados até a última semana de fevereiro!

Trabalhava com turmas compostas majoritariamente por estudantes em situação de vulnerabilidade social, muitos deles cotistas, e tive que abordar o tema de forma ética e pedagógica. O debate foi conduzido coletivamente, discutindo o papel social de programas públicos e a importância do planejamento financeiro como ferramenta de cuidado com o presente e com o futuro, sem personalizar ou constranger qualquer aluno.

Arquivo pessoal

Como surgiu o projeto contra jogos de azar na escola

Essa cena não é isolada. Ela se repete em escolas públicas e particulares de diferentes regiões do país. Adolescentes ainda passam cada vez mais tempo com o celular em mãos, atraídos por promessas de dinheiro fácil como o “jogo do tigrinho”. 

Percebi que tratar a educação financeira apenas no campo teórico, falando de porcentagem e juros de forma abstrata, era insuficiente. Era preciso desenvolver uma experiência pedagógica que colocasse os jovens diante de decisões reais, ainda que em um ambiente simulado, para compreender, na prática, como o dinheiro circula e como as escolhas geram consequências.

Foi dessa inquietação que nasceu o projeto “Para onde vai meu dinheiro?”, desenvolvido com turmas do 1º ano do ensino médio. 

Educação financeira aplicada à crise dos jogos de azar

Ancorada em metodologias ativas, a proposta se conecta à realidade dos jovens e promove uma educação financeira crítica, incentivando a reflexão sobre escolhas e o cuidado com o presente e o futuro. O projeto foi estruturado a partir da sala de aula invertida, da aprendizagem baseada em projetos e da simulação de sistemas econômicos reais.

Ao longo de oito semanas, os estudantes assumiram o protagonismo, trabalhando de forma colaborativa, tomando decisões e refletindo sobre suas consequências. O objetivo foi desenvolver educação financeira e espírito empreendedor, estimulando pensamento crítico, organização, aplicação da matemática no cotidiano e competências como autonomia, liderança e trabalho em equipe.

Arquivo pessoal

Diagnóstico da vulnerabilidade

A primeira etapa do projeto foi dedicada à sensibilização e ao diagnóstico socioeconômico. Na roda de conversa “Onde está seu dinheiro?”, falamos de mesada, benefícios estudantis, apostas digitais e consumo impulsivo.

Em seguida, apliquei um questionário diagnóstico, que permitiu mapear hábitos financeiros dos estudantes, investigando práticas como compras por impulso, busca por promoções, uso de cartão de crédito, comparação entre pagamento à vista ou parcelado, e percepção sobre gastos acima da renda disponível.

Os resultados revelaram que muitos estudantes não registravam seus gastos e associavam o dinheiro principalmente ao consumo imediato, além de apresentarem pouca compreensão sobre planejamento financeiro e reserva de emergência. Esse momento foi fundamental para gerar engajamento e sentido, pois os estudantes perceberam que o projeto dialogava diretamente com suas vivências.

Arquivo pessoal

Sala de aula invertida e a base conceitual

Na etapa seguinte, trabalhei com a sala de aula invertida. Em casa, os estudantes acessaram vídeos e materiais formativos sobre orçamento pessoal, poupança, consumo consciente, crédito e planejamento financeiro. Entre os materiais utilizados estavam conteúdos do Tesouro Direto, vídeos institucionais sobre cidadania financeira, produções educacionais disponíveis em plataformas de vídeos e materiais literários voltados à educação financeira juvenil.

Em sala, aprofundei os conteúdos por meio de debates orientados, situações-problema e análise de exemplos reais trazidos pelos próprios estudantes, como experiências familiares com pequenos negócios, prestação de serviços, endividamento doméstico e desafios relacionados ao acesso ao crédito. As discussões contemplaram diferentes realidades sociais, desde decisões de consumo cotidiano até planejamento de objetivos maiores, permitindo compreender como escolhas financeiras impactam diretamente a organização da vida pessoal e familiar.

Criação de empresas

Com a base conceitual construída, organizamos as equipes e iniciamos a criação de empresas fictícias. Ao todo, surgiram 16 empresas distribuídas entre as turmas, com média de 10 estudantes por grupo. As empresas atuaram em diferentes áreas, incluindo setores como o privado, o público, o de economia mista e o terceiro setor, além de segmentos como bancos, casas de câmbio, prestação de serviços e comercialização de produtos.

A construção das empresas envolveu etapas como o estudo do conceito e da função social das organizações, elaboração de organogramas, definição de cargos, salários e funções, planejamento do ambiente de trabalho, identificação do público-alvo e análise do contexto econômico em que cada empresa estaria inserida.

A escolha das lideranças ocorreu por meio de uma dinâmica coletiva, na qual os estudantes indicaram colegas que demonstravam características de liderança, possibilitando reflexões sobre representatividade, participação feminina e diversidade nos espaços de gestão.

Arquivo pessoal

Simulação de sistemas econômicos e tributários

Um dos momentos mais significativos do projeto foi a criação das moedas. Cada turma desenvolveu sua própria moeda simbólica, com circulação física por meio de cédulas e valores organizados em diferentes escalas, para facilitar transações comerciais, pagamento de salários e negociações entre empresas fictícias. Os nomes das moedas variaram conforme a identidade cultural e social das turmas, incluindo referências ao sertão, à valorização da mulher, à cultura afro-brasileira e à valorização da educação. Entre os grandes nomes, estavam a escritora Carolina Maria de Jesus e a cientista Ada Lovelace.

Também foram introduzidos impostos simbólicos, aplicados em operações comerciais, empréstimos bancários e transações financeiras. Os estudantes registraram receitas e despesas em planilhas, calcularam tributos, analisaram lucros e organizaram o funcionamento econômico das empresas, incluindo a atuação de sindicatos e instituições financeiras simuladas.

Arquivo pessoal

Avaliação e acompanhamento do processo

A avaliação ocorreu de forma contínua e processual, considerando a participação, a organização financeira, o trabalho em equipe e a tomada de decisões. A autoavaliação permitiu que os estudantes refletissem sobre suas aprendizagens, o desenvolvimento interpessoal e os desafios enfrentados ao longo da experiência.

Além das empresas e moedas, os grupos produziram planos de negócio, relatórios financeiros, campanhas publicitárias e apresentações. Em alguns casos, as iniciativas ultrapassaram o ambiente escolar, com estudantes montando pequenos empreendimentos reais, como venda de produtos, prestação de serviços e ações voltadas ao apoio familiar e à realização de objetivos pessoais.

Como culminância, realizamos uma prestação de contas das empresas e um balanço financeiro geral, que permitiu analisar como decisões econômicas impactam diretamente a sustentabilidade financeira e a organização coletiva.

O projeto também foi articulado à participação na OLITEF (Olimpíada de Educação Financeira), que funcionou como instrumento formativo e avaliativo. Os estudantes alcançaram resultados relevantes, com premiações nacionais que evidenciaram o desenvolvimento das competências trabalhadas. No ano seguinte, a experiência motivou a ampliação da participação para toda a escola.

Arquivo pessoal

Impacto e reconhecimento internacional

Cerca de 95% dos estudantes participaram ativamente das simulações. Observou-se mudança concreta no comportamento financeiro, com estudantes passando a registrar gastos, planejar compras e refletir criticamente sobre apostas e consumo impulsivo. Houve redução significativa das conversas sobre jogos de azar, e alguns estudantes relataram ter interrompido práticas de apostas, substituindo-as por iniciativas empreendedoras e estratégias de organização financeira.

O impacto também ultrapassou a sala de aula. O projeto foi incorporado ao Projeto Político-Pedagógico da escola, estimulando práticas interdisciplinares e inspirando outros professores a desenvolverem ações relacionadas ao empreendedorismo, à sustentabilidade e à educação financeira.

Esse percurso também ganhou reconhecimento externo. Em 2025, conquistei o 1º lugar na Olimpíada do Professor de Matemática do Ensino Médio. Como parte desse reconhecimento, participarei, em 2026, de uma imersão internacional em políticas educacionais na China, com atividades formativas em Xangai. Após o retorno, assumo o compromisso de compartilhar os aprendizados em ações formativas para professores da rede pública. Também fui convidado a atuar como embaixador do programa Toda Matemática, do governo federal, fortalecendo o diálogo sobre inovação e equidade no ensino da matemática.

Acabo de começar uma nova etapa no IFSertãoPE (Instittuto Federal do Sertão de Pernambuco), no campus Ouricuri, mas neste texto relato minha experiência anterior, há dois anos. E, ao olhar para toda essa trajetória, reafirmo a ideia que orienta minha prática docente: ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas criar experiências que façam sentido. Quando a aprendizagem parte da realidade dos estudantes e dialoga com suas escolhas de vida, a matemática deixa de ser um obstáculo e se torna instrumento de leitura do mundo e de transformação social.


José Carlos da Silva Júnior

Licenciado em matemática e especialista em educação, atuou como professor na Escola Técnica Estadual Miguel Batista, onde desenvolveu projetos interdisciplinares com foco em educação financeira, cultura maker, criatividade e no ensino de matemática por meio de metodologias inovadoras. Atualmente, é professor de matemática no IFSertãoPE (Instituto Federal do Sertão Pernambucano), campus Ouricuri.

TAGS

educação financeira, ensino médio

Cadastre-se para receber notificações
Tipo de notificação
guest

0 Comentários
Mais antigos
Mais recentes Mais votados
Comentários dentro do conteúdo
Ver todos comentários
Volta às aulas com inovação? Siga o Porvir no WhatsApp 📲Entrar no canal