A imagem mostra duas meninas em sala de aula, concentradas em escrever em seus cadernos. Usam uniforme azul. Ao fundo, há cartazes coloridos com temas pedagógicos, indicando um ambiente de aprendizagem acolhedor
Crédito: joasouza/Depositphotos

“Por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa.” O legado e a atualidade da pedagoga e psicóloga argentina Emilia Ferreiro (1937–2023), referência mundial no campo da alfabetização, foram celebrados no início deste mês de maio.

Entre os dias 5 e 8, a Rede Latino-Americana de Alfabetização promoveu a Semana Emilia Ferreiro. Reunindo representantes de governos, universidades e organizações da sociedade civil, mais de 9 mil pessoas de toda a América Latina participaram das 22 ações formativas online.

? Todos os debates estão disponíveis no YouTube. Confira:

“A escrita é um bem comum. Negar o acesso à cultura escrita é negar o direito de produzir sentidos sobre o mundo”, destacou Giovana Zen, presidenta da Rede. A abertura também contou com a presença de Valeria Garcia Ferreiro, filha de Emília e presidenta da Fundação Garcia Ferreiro, instituição mexicana responsável por preservar e difundir o legado da pesquisadora e de seu companheiro, o epistemólogo Rolando Garcia.

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Criada nos anos 1990 por iniciativa de Emilia Ferreiro, a Rede Latino-Americana de Alfabetização reúne profissionais que compreendem a alfabetização não como um treino de habilidades mecânicas, mas como um processo de inserção das crianças na cultura do escrito. Esse processo acontece quando elas pensam, criam, compartilham ideias e descobrem sua capacidade de aprender.

Emilia Ferreiro revolucionou a lógica tradicional de muitos educadores, que só se preocupavam com o processo de aprendizagem quando o aluno não apresentava resultados. Em vez disso, deslocou o foco da alfabetização para o sujeito que aprende. Suas conclusões influenciaram políticas públicas educacionais em diversos estados brasileiros a partir da década de 1980.

Teorias que baseiam práticas

Em torno da ideia central de que o processo de alfabetização nada tem de mecânico, do ponto de vista da criança que aprende, a semana foi marcada por trocas de práticas pedagógicas, debates sobre formação de professores e defesa do direito à alfabetização sob a perspectiva construtivista psicogenética.

Formulada por Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, a teoria da psicogênese da língua escrita estuda como as crianças organizam seu pensamento durante a aprendizagem da leitura e da escrita, colocando-as como protagonistas do processo. O evento também trouxe luz ao construtivismo, desenvolvido por Jean Piaget, que defende o conhecimento como algo construído ativamente pelo sujeito.

“É necessário primeiro entender que o construtivismo e a psicogênese não são métodos. Ao compreendê-los como tal, muitos professores passam a buscar receitas prontas de aplicação. No entanto, sem embasamento teórico, o profissional não consegue transformar, criar nem propor novas experiências para as crianças”, explica Gilmária Ribeiro da Cunha, professora e coordenadora pedagógica da Rede Municipal de Ensino de Salvador (BA).

O Porvir acompanhou a mesa “Alfabetização e Educação Infantil: desafios e possibilidades”, que contou, além de Gilmária, com a participação de Alexsandro Santos, diretor de Políticas e Diretrizes da Educação Integral Básica do MEC (Ministério da Educação) e Mônica Correia Baptista, professora e pesquisadora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Criança cidadã

A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) define que a alfabetização das crianças deve ocorrer até o 2º ano do ensino fundamental, como forma de garantir o direito de aprender a ler e escrever.

Na mesa, o questionamento “a educação infantil deve ou não alfabetizar?” foi considerado propositalmente uma armadilha para instigar o debate. “É necessário refletir qual é o papel dessa etapa em relação à alfabetização. Estamos construindo a compreensão de que a educação infantil tem um papel importante no processo de apropriação da linguagem escrita pelas crianças”, afirma Mônica Correia Baptista, coordenadora do programa LEEI (Leitura e Escrita na Educação Infantil).

Alexsandro Santos também reforçou que a educação infantil deve garantir o direito das crianças de participarem de práticas sociais de leitura e escrita desde o nascimento, por se tratar de um princípio ético e político. Contudo, esse processo deve ser conduzido com intencionalidade e respeito às especificidades da infância, evitando imposições curriculares que desrespeitam as diretrizes da etapa.

“A criança é cidadã desde o nascimento. Negar seu direito ao convívio com a linguagem escrita é negar sua cidadania”, pontuou. 

Os debatedores da Semana Emilia Ferreiro reforçam que não se trata de antecipar o aprendizado formal da leitura e escrita, mas de garantir o direito das crianças à inserção em práticas de linguagem desde os primeiros anos. Quando bem planejada e sensível às infâncias, a educação infantil tem papel decisivo nesse processo.

Brincar ao ar livre nunca foi tão urgente, dizem especialistas
Brincar é uma forma essencial de interação e integração Crédito: FatCamera/iStock

Resultados de aprendizagem e políticas públicas

Segundo os critérios do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), são consideradas alfabetizadas as crianças que atingem a nota mínima de 743. Isso significa que conseguem ler palavras, frases e pequenos textos do cotidiano, mesmo com eventuais desvios ortográficos.

Para Mônica, embora a educação infantil não tenha como finalidade principal a alfabetização formal, esse processo pode ocorrer como resultado das interações significativas no cotidiano escolar. “A apropriação da linguagem escrita se dá em um processo contínuo, e a escola tem papel fundamental nisso”, afirma.

Alexsandro Santos apresentou o Conaquei (Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade na Educação Infantil), uma nova política pública que prevê apoio técnico e financeiro a estados, municípios e ao Distrito Federal, com foco na universalização da pré-escola e na ampliação do atendimento em creches.

“Trata-se de uma política mais ampla, que vai além da formação, embora esta seja fundamental. É preciso também investir na infraestrutura das unidades, garantir materiais pedagógicos e assegurar boas condições de trabalho. A formação sozinha pode muito, mas não pode tudo”, destacou.

Literatura desde o berço

Um dos principais instrumentos do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada é o Pro-LEEI, de 2025, programa já implementado em 15 estados e no Distrito Federal. Ele oferece formação continuada a professores da educação infantil, com o objetivo de implementar e promover a formação continuada de profissionais da educação infantil para fortalecer o planejamento e a implementação de práticas pedagógicas que desenvolvam a linguagem oral, leitura e escrita das crianças.

Nesse processo, a literatura infantil ocupa um papel central. “Ela não é um apêndice, mas algo constitutivo da infância. Se ainda não é, precisa ser”, defende Mônica. Segundo ela, a literatura contribui para uma educação estética e sensível. “Como nos ensina Antônio Cândido, a literatura, como expressão do humano, nos ajuda a construir sentidos, a nos emocionar e a abrir caminhos de alteridade.”

Formação continuada

Para que bebês e crianças estejam inseridos em boas práticas de leitura, escrita e oralidade, é essencial que seus professores também sejam leitores, destaca Alexsandro. “É preciso que educadores estejam envolvidos em práticas consistentes e significativas de leitura e escrita. Olhar o professor como sujeito de linguagem ainda é um desafio que avançamos mais lentamente do que deveríamos. E isso é crucial: não é possível formar leitores distantes da leitura e da escrita; não se formam pessoas letradas sem práticas reais de letramento.”

Ele também ressaltou a importância de fortalecer o papel da literatura infantil nas creches e pré-escolas. “O LEEI parte dessa concepção, compreendendo a literatura como um campo privilegiado de interação com a linguagem. Precisamos fortalecer essa perspectiva e ampliar seu alcance com urgência.”

Gilmária concorda que não basta apenas ler para as crianças. “É preciso planejar e intervir de forma qualificada. A leitura feita pelo professor desperta nas crianças o interesse pelo livro, mesmo aquele que já estava ao alcance delas, mas ainda não havia chamado sua atenção. É nesse movimento que a criança também passa a ler, criando situações e vivendo momentos próprios de leitura.”

O brincar como linguagem da infância

Outro aspecto central no processo de aprendizagem é o brincar. Mais do que diversão, o brincar é uma forma essencial de interação, imaginação e construção de sentido. “Reconhecer a centralidade do ato de brincar, não como uma atividade com fins pragmáticos, mas como forma de apropriação e transformação do mundo, é reconhecer o direito da criança de aprender em liberdade”, afirma Mônica.

Esse direito está garantido tanto na Declaração Universal dos Direitos da Criança quanto no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que valorizam o brincar e o lazer como condições fundamentais para o desenvolvimento integral.

Gilmária complementa: “As poesias, parlendas, cantigas, trava-línguas e adivinhas tornam a palavra escrita um brinquedo. Essas experiências ajudam as crianças a explorar os sons, ritmos e sentidos da linguagem.”

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....

Jornalista e analista de mídias sociais no Porvir, atua há três anos na área da educação, com experiência em reportagem e na produção de conteúdo para redes como WhatsApp, Facebook e Instagram. Também trabalha na criação de materiais e iniciativas...

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