'O medo de errar é talvez o maior dos constrangimentos que nos foram impostos' - PORVIR
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Inovações em Educação

‘O medo de errar é talvez o maior dos constrangimentos que nos foram impostos’

Escritor moçambicano Mia Couto conversa sobre infância, sentimentos e a importância da literatura na construção das relações

Parceria com LIV

por Redação ilustração relógio 30 de outubro de 2020

O escritor e pensador Mia Couto esteve presente na trilha socioemocional do Festival Nova E-ducação, promovida pela Plataforma de Ensino Eleva com apoio do LIV. No evento, conversou com Joana London, gerente pedagógica do LIV – Laboratório Inteligência de Vida sobre arte e literatura como ferramenta social e emocional.

O autor concedeu também uma entrevista exclusiva ao LIV, na qual falou sobre infância, sentimentos e sobre como entende o lugar da literatura e da contação de histórias na construção das relações. Contou também sobre seu processo de escrita e como esse ato pode contribuir para organização e acolhimento emocional.

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Confira alguns destaques:

Sobre o papel da arte e literatura no aprendizado
“[…] A literatura e a arte podem ajudar a escola como um modo de aprendermos idiomas, línguas e lógicas que nos fazem entrar em relação de equilíbrio com essas criaturas e esses universos que vivem dentro e fora de nós […]”.

“[…] O grande terapeuta que me tratou foi a poesia, em particular, Fernando Pessoa. Ao ler Fernando Pessoa, aos 14 anos, eu entendi que ninguém cabe em uma única pessoa, isso não é só absolutamente normal como absolutamente saudável e feliz. Aprendi como cada um de nós é tão plural, tão diverso, tão conflituoso, contraditório. E cada um de nós é falível e sujeito à derrota[…]”.

“[…]Um dos propósitos que me faz escrever histórias é restabelecer pontes entre a escrita e a oralidade. A palavra grafada só me interessa se eu ao ler reencontro as vozes que estão mais próximas da emoção e do sonho[…]”

O papel do erro na educação e no desenvolvimento humano
“[…] É preciso confortar as crianças e os adultos de que não vejam nessa ilusão de controle uma base para se pensarem felizes. E a escola deve entregar o gosto do saber, mas ao mesmo tempo ensinar a conviver com o não saber. Tanto na escola quanto na família, deveria se relativizar o que se entende por derrota. O erro na escola deveria nos permitir ensinar que somos o que somos, e somos feitos da maneira que somos por um erro. Digo como biólogo, toda a evolução foi feita em cima do erro, toda arte e poesia foi feita, como diria Manuel de Barros, no ato de ‘errar bonito’[…]”.

Olhares sobre a pandemia
“[…] Muita gente pensa que vai haver um pré e um pós, que depois desse drama do COVID-19 nós vamos despertar perante uma humanidade nova, perante um mundo novo. Eu não tenho essa percepção, eu acho que essa doença nos atingiu. Primeiro, nos atingiu como se fossemos um mundo único, simultâneo, uma aldeia global, mas sim temos hoje a percepção mais clara que vivemos em diferentes mundos, diferentes realidades, que são díspares e tão desigualmente distribuídas que, precisamos saber que depois desse fenômeno do COVID, mais da metade da humanidade continuará a viver na miséria, continuará a não ter água potável, mais de metade da humanidade não terá acesso à internet, que é uma coisa que a gente imagina que toda gente tem, e talvez um bilhão de pessoas continuará a morrer por causa de uma outra pandemia que tem um nome tão simples, que se chama fome […]”.

Sobre a importância da diversidade
“[…] Como biólogo considero vital que as crianças aprendam desde cedo que não existe uma identidade humana pura e que somos feitos de células humanas, mas também de vírus, bactérias e outros microrganismos. A nossa parte não-humana é tão ou mais importante que a humana. De fato não se pode ver estes nossos constituintes como “partes”. O que nos faz humanos é o diálogo invisível, mas permanente entre o “humano” e o “não-humano […]”.

“[…] Se uma criança aprende, desde cedo, que o seu corpo é feito de uma infinita pluralidade de criaturas ela percebe que a diversidade não é um conceito, não é uma realidade exterior. Ela percebe que só existe porque dentro dela não existe algo que se possa chamar de “pureza”. Ao contrário, somos feitos de mestiçagens e de trocas entre criaturas absolutamente díspares. Uma criança que seja assim informada dificilmente se torna um racista, um fascista ou embarca em qualquer cruzada em busca da pureza rácica, étnica ou religiosa[…]”.

Assista a entrevista completa:

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competências para o século 21, socioemocionais

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