Para nova abordagem matemática, docente deve rever hábitos e a própria história de aprendizagem - PORVIR
Por Vinícius de Oliveira

Inovações em Educação

Para nova abordagem matemática, docente deve rever hábitos e a própria história de aprendizagem

Formação em rede cria sentimento de interdependência, traz confiança para desconstruir antigas práticas e apoia novas maneiras de ensinar

Parceria com Mentalidades Matemáticas

por Ruam Oliveira ilustração relógio 20 de agosto de 2021

No filme Divertida Mente, a personagem Riley vê serem colocadas em perigo as “ilhas da memória”, que carregam lembranças mais fortemente enraizadas na mente dela. O perigo no caso é elas serem demolidas e se perderem para sempre.

Na trajetória de muitos estudantes, inclusive daqueles que se tornam educadores, há uma espécie de ilha que coloca a matemática em um lugar indesejado. E mudar o espaço, tirando-a desse local de não aceitação, é uma das propostas da abordagem de Mentalidades Matemáticas.

Para os educadores, essa mudança de mentalidade é fundamental para que eles próprios comecem a mostrar a matemática de um jeito diferente, longe desse temido território que amedronta grande parte dos estudantes.

Marina França, coordenadora do programa de Mentalidades Matemáticas e formadora de professores, afirma que o principal objetivo quando está trabalhando com os educadores é incentivar essa desconstrução de uma forma de pensar que afasta as pessoas da matemática. Ou seja, destruir essas ilhas.

“Quando a gente pensa na educação, nos deparamos com dois cenários: um com pessoas que sofreram muito ao longo dos anos escolares e decidiram se tornar professores pelo desejo de mudar essa realidade, o que é muito comum, ou pessoas que tiveram experiências muito incríveis e resolvem ir para a educação, porque a experiência foi muito positiva. Temos esses dois lados”, diz Marina.

Riley, protagonista do filme Divertida Mente. Ela usa roupa colorida e tem mochila nas mãosCrédito: Divulgação

Divertida Mente acompanha as emoções de Riley, uma menina de 11 anos que se muda com a família para São Francisco depois que seu pai consegue um novo emprego

A formação de professores e professoras passa, portanto, por uma fase de desconstrução de hábitos e formas de pensar, diz a coordenadora. Um dos direcionamentos que toma é justamente trabalhar para que os docentes não reproduzam traumas que tiveram em sua própria vida durante a educação básica.

Isso significa colocar educadores e educadoras para revisitar, como explica Claudia Siqueira, diretora do Instituto Sidarta. “Você é a coleção de memórias daquilo que viveu.”, diz. Ela lembra também que a dificuldade em ver a matemática de um jeito diferente tem origem na formação inicial. Distantes da prática, os cursos dão pouca segurança ao professor, que chega à sala de aula desamparado e com pouca expertise sobre como lidar com a turma e até mesmo como se comportar.

“A formação em serviço é muito frágil. A distância entre o que acontece na graduação, o que a gente vive no dia a dia, é um absurdo. Os professores, muitas vezes são desprovidos de conseguir ter insumos sobre questões de competências e habilidades para lidar naquele ambiente de aprendizagem”, aponta. A ausência de referências positivas no ensino da matemática, por exemplo, é o que faz com que os docentes reproduzam os mesmos moldes, o que precisa ser revisto.

“Existe uma desconexão histórica entre a graduação, não só da pedagogia, mas na história, da geografia, da física, com a dimensão da sala de aula, porque os nossos programas de estágio são extremamente frágeis”, aponta Claudia.

Os cérebros possuem padrões e na aprendizagem isso também se repete. A neurociência, que estuda como o cérebro funciona, aponta a existência de alguns modelos de aprendizagem, entre eles o explícito, que diz respeito às coisas que podem ser definidas como a fórmula de Bhaskara ou quais são os afluentes do rio Amazonas. Já o modelo implícito tem a ver em como se constrói o raciocínio sobre as coisas, afirma Carla Tieppo, doutora em Neurofarmacologia pelo Instituto de Ciências Biomédicas da USP (Universidade de São Paulo) e pioneira na aplicação da ciência do cérebro no desenvolvimento humano e organizacional.

Carla destaca que a neurociência olha de fora para dentro, enquanto a educação faz o caminho inverso e observa de dentro para fora. “Vocês [da educação] ficam olhando como é que didaticamente seria o raciocínio lógico para apresentar um contexto para alguém. A gente vai olhar qual é o recurso necessário para que o indivíduo entenda aquele processo de pensamento e não o contrário”, diz.

Nessa busca por desconstruir um modelo de pensamento, Carla destaca que o professor não deve estar preso somente a ideia de fazer uma coisa ou outra, mas com a intencionalidade de trabalhar duas coisas ao mesmo tempo. Ou seja, não significa paralisar a si mesmo em uma prática docente enquanto estrutura outra, mas fazê-las simultaneamente.


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“Existe a metodologia mais clássica, mais processual, onde você tem as operações que têm um modo mecânico de serem executadas, que vão no final, produzir uma decoreba de como fazer alguma coisa. Ela continua sendo viável, continua sendo possível. Acontece que o aluno não consegue ultrapassar determinadas barreiras da matemática, porque ele não construiu uma outra forma de se pensar o universo quantitativo, que é uma forma espacial”, afirma Carla.

Em outras palavras, enquanto se aprende sobre as Mentalidades Matemáticas, por exemplo, não é preciso abrir mão de uma vez o conhecimento prévio. Do contrário, o que se aprendeu antes em matemática tem um resultado, mas com certa limitação de possibilidades.

Saber matemática não é um dom, é um aprendizado. Nesse sentido, Marina reforça que todos os discursos de que “matemática não é para mim” e coisas do gênero precisam sair também da mente dos professores.

“Eu não posso ensinar uma coisa na sala de aula e na minha vida fazer outra. E por que estou falando isso? Porque a mentalidade vem com muita coisa junto. Se chama mentalidades matemáticas, porque a Jo [Boaler] trabalha com matemática, mas ela sabe e a gente também que se aplica a todas as áreas da vida”, afirma Marina.

Essas memórias basilares exercem um peso significativo tanto na graduação quanto na formação continuada. Claudia explica que com relação à formação de professores, existe um problema que se dá em dois momentos: na hora de ingresso dos estudantes de pedagogia e outro quando saem e precisam encarar uma sala de aula.

Ela tece uma crítica em relação aos cursos de educação, destacando o quanto por vezes eles são sucateados e desvalorizados, o que imprime diretamente no estudante algumas marcas. É preciso recorrer também à intencionalidade já nesta fase, olhando para os reais motivos que fazem com que alguém decida seguir pelo caminho da pedagogia. Em sua experiência, a diretora do Sidarta afirma que nem sempre a pessoa que escolhe essa área tem clareza na intenção de dar aulas, por exemplo.

Rede de apoios
Um contexto muito comum, levando em consideração o que Marina citou sobre o desejo dos próprios educadores em realizar essa busca por si próprios, é que eles acabem se sentindo sozinhos e não tenham com quem dividir ideias e percepções.

Como saída, a coordenadora destaca que a liderança escolar também precisa fazer parte dessa formação que pensa e planeja novas abordagens no ensino da matemática. “Se a gestão não apoia, complica o lado do professor de implementar [a nova abordagem]. Não ter resistência da própria gestão já é um bônus”, disse.

A rede de Mentalidades Matemáticas conta atualmente com mais de 200 professores de diversos locais do Brasil que se articulam para trocas de experiências, práticas e elaboração de projetos em conjunto, olhando para a abordagem.

Repensar políticas de equipe é uma maneira de que as gestões tirem dos ombros dos professores a responsabilidade de implementar um novo modelo sozinhos, destaca Claudia. Ter uma rede de apoio possibilita que o professor se sinta encorajado a pensar diferente, e olhando diretamente para os aspectos da mudança de mentalidade, a diretora afirma que essa rede pode proporcionar momentos de conversa para além da matemática, tornando a experiência mais completa e humana.

“[Criar esses espaços em rede] também gera o conceito de interdependência, entendeu? Porque se você está num ambiente seguro de aprendizagem, se as pessoas estão te apoiando, a experiência que vai levar os seus alunos é muito poderosa”, afirma.

O professor sozinho pode buscar, pesquisar e aperfeiçoar seus conhecimentos e até mesmo iniciar esse processo de desconstrução, tentando construir uma mentalidade de crescimento, mas em conjunto e com uma organização mais precisa, de rede, a situação muda de figura.

Marina aponta que a parte mais difícil de todo o processo para os professores é realmente desconstruir a forma como aprenderam e foram ensinados. É quase como uma desconstrução de identidade, pois o educador se vê no lugar de quem precisa mais uma vez aprender.

Para Cláudia, esse ato de revisitar a prática pedagógica é também um ato de coragem. Lembrando de Divertida Mente, a intenção aqui é a oposta à da personagem do filme. Propor uma nova abordagem do ensino da matemática requer que intencionalmente sejam destruídas as “ilhas de memória” que incluem a disciplina em um lugar negativo. Antes de formar estudantes interessados e engajados em matemática, é preciso que se formem educadores e educadoras interessadas e engajadas no tema.

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formação continuada, neurociência, socioemocionais

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Dilce Cardoso

Sempre é bom ler textos construtivos. Parabéns Marina, Claudia e Carla. Sempre abrindo horizontes.

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