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Inovações em Educação

Pesquisa ajuda a definir comunidades de aprendizagem

Niase, da UFSCar, e Instituto Natura analisam duas experiências bem sucedidas para tentar encontrar os pontos em comum entre elas

por Patrícia Gomes ilustração relógio 18 de dezembro de 2012

As comunidades de aprendizagem, um movimento crescente no mundo que envolve escolas de toda a Espanha, já cruzou o oceano e chegou ao Brasil e ao Chile, são o centro de uma pesquisa realizada numa parceria entre o Niase (Núcleo de Investigação e Ação Social e Educativa), da UFSCar, e o Instituto Natura. Durante meses, pesquisadores fizeram uma revisão teórica de termos importantes para entender o conceito, visitaram e interagiram com duas experiências brasileiras bem sucedidas, o Instituto Chapada (BA) e a escola municipal Bom Princípio (PI), na tentativa de localizar os pontos que se repetem e fazem dessas comunidades uma comudade de aprendizagem e os que as afastam desse modelo. A pesquisa, que acaba de ser concluída, ainda não tem data para publicação, mas alguns detalhes já foram revelados.

De acordo com Roseli de Mello, pesquisadora que vem desenvolvendo o conceito no Brasil desde 2003, dois pontos costumam estar sempre presentes: “as comunidades de aprendizagem são aquelas onde há diversificação de interações e atividades e intensificação dos tempos de aprendizagem”. Trocando em miúdos, por “diversificação de interações e atividades” entenda-se a participação de vários atores nos processos educativos – pais e comunidade, além de professores e alunos – em situações de troca que extrapolam as salas de aula, como em atividades e oficinas para as famílias. Já por “intensificação dos tempos de aprendizagem” leia-se o aumento das oportunidades de acesso ao conhecimento na comunidade.

Ao avaliar o Instituto Chapada, que trabalha com a capacitação de alfabetizadores e acaba trazendo, para as redes participantes, bons resultados de letramento nos anos iniciais do aprendizado, e a Bom Princípio, uma escola em área rural no Piauí com índices muito altos nas avaliações oficiais do governo, os pesquisadores encontraram pontos que se repetiam e os locais, que diferiam em cada experiência. Um ponto universal, diz Roseli, é a participação da comunidade nos processos de aprendizagem e avaliação. A forma como ela é trabalhada, no entanto, é diferente em cada uma. Por exemplo: existem escolas que não fecham no fim de semana, já outras organizam atividades para os pais no contraturno.

Paralelamente ao trabalho realizado in loco, uma equipe do Niase se dedicou a explorar o conceito de redes e comunidade, tomando emprestadas formulações das ciências sociais, econômicas e da comunicação. Com o suporte teórico, outra equipe foi a campo verificar se as duas experiências apresentavam três características que devem estar presentes em comunidades de aprendizagem: eficácia, coesão e equidade. Para tanto, colheram depoimentos de pessoas-chave em cada um dos projetos, foram provocadas discussões orientadas sobre determinados temas e a comunidade apontou atividades para serem observadas que mais bem definiam as iniciativas.

Pela lógica adotada, as escolas seriam consideradas eficazes se registrassem aprendizagem adequada dos conteúdos e das habilidades; coesa se houvesse baixo índice de conflitividade entre os atores envolvidos nos processos educativos e capacidade de estabelecer projetos comuns; já a equidade tem estreita relação com o acesso ao conhecimento independentemente da origem social.

Ao analisar o volume de dados levantados com a comunidade, os pesquisadores consideraram as duas iniciativas como bem sucedidas nos três itens. Em ambos os casos, a comunidade tinha uma visão muito positiva do trabalho do qual faziam parte e tinham sugestões para melhorar os pontos que tinham como críticos. Com esse material, a pesquisa traz como resultado pontos que o Instituto Chapada e a Bom Princípio podem apresentar de recomendação para outras escolas, como trabalho em rede e foco no aprendizado. “É preciso produzir conhecimento sobre evidências a respeito de elementos transformadores e obstáculos a serem superados, produzindo-se recomendações para mudanças de realidade. O importante é localizar o que é transformador e universal”, disseram os pesquisadores.

Passo a passo
Além da pesquisa, que teve um caráter de investigação de projetos já em andamento, o Niase também leva a proposta da comunidade de aprendizagem para outras escolas, como o que ocorreu em escolas de São Carlos, e implantam a metodologia em oito fases: sensibilização, tomada de decisão, sonhos, seleção de prioridades, planejamento, investigação, formação e avaliação.

Dependendo das circunstâncias que cada unidade escolar vive, o passo a passo de implantação pode ser adaptado, mas, no geral, os pesquisadores vão até as instituições, pesquisam o contexto local e apresentam a metodologia. Voltam cerca de um mês depois para saber se a comunidade concordou em participar. Na sequência, vem a fase dos sonhos, em que todos os atores da comunidade são ouvidos e devem dizer o que eles gostariam de mudar – aqui vale desde espaço físico, currículo ou até merenda. Depois, a partir dos recursos que se têm disponíveis, seleciona-se o que deverá ser feito primeiro a partir de um plano de transformação. Na etapa da investigação, procura-se fomentar a aceleração das aprendizagens com a ajuda, quando necessário, de voluntários. Paralelamente a tudo isso ocorre a fase de formação, em que a comunidade é capacitada a entender e trabalhar o conceito. Por fim, vem a etapa de avaliação.


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Ana Morais
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Ana Morais

Excelente a matéria sobre comunidade de aprendizagem! amei e compartilhei com coordenadores pedagógicos que estou fazendo formação.

Neiva Maria Ferreira de Oliveira
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Neiva Maria Ferreira de Oliveira

A matéria posta é relevante e possibilita novos conhecimentos, “alargando horizontes”. A troca de experiências é de suma importância em momentos tão desafiadores. A Formação de uma Comunidade de Aprendizagem é necessária.

Sanede Geraldo Teixeira
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Sanede Geraldo Teixeira

A ideia é muita interessante. Mas as escolas poderiam desburocratizar a papelada para trabalhar de fato com o processo de aprendizagem. Muitas vezes, isso não acontece.

Luciano
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Luciano

Ótimo, gostei muito da trilha e dos conteúdos

Sirlene
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Sirlene

Boa noite. Sobre o texto/tema Comunidade de Aprendizagem, achei bem interessante e até gostaria que na escola onde trabalho houvesse de fato uma comunidade de aprendizagem, mas, são muitas cabeças “pensando” e nem sempre é fácil se chegar a um consenso, mas, estamos caminhando no propósito.

Valdeida do Vale
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Valdeida do Vale

Parabéns. A matéria esclarece o conceito de comunidade de aprendizagem. Acredito que na escola em que trabalho há mais de 15 anos, já tivemos muitos momentos onde vivemos em uma comunidade de aprendizagem..

Waléria Donizetti
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Waléria Donizetti

O conteúdo sobre Comunidade de Aprendizagem é de grande importância para ser trabalhado na escola, (o material exposto é excelente) mas para isso seria preciso que todos se envolvessem de uma maneira única com o objetivo de melhorias significativas em prol a educação escolar.

MICHELE ASSUNCAO LIMA
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MICHELE ASSUNCAO LIMA

A experiência relatada é muito significativa e nos faz refletir sobre nossa escola e os desafios de formar uma comunidade de aprendizagem. No entanto, fica claro que a criação dessas comunidades possibilitará um ensino muito mais profícuo e que as transformações que queremos não virão com trabahos individuais. É desafiador, mas também é muito motivador pensar em uma escola tão participativa .

Alfredo Luiz
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Alfredo Luiz

Boa noite caros cursistas e colegas de magistério

Concordo plenamente com a capacitação do aluno concomitantemente com os conteúdos básicos formativos. A escola é um ambiente de aprendizagem, e a formação de um jovem vai além de quadro branco e pincel. A questão são os recursos, pois havendo na comunidade carpinteiros, mecânicos, padeiros, doceiras, pintores, e vários outros profissionais que estejam dispostos a implementar uma formação para o trabalho na escola, os materiais são necessários.

GISELE FRANÇA QEIROZ
Visitante
GISELE FRANÇA QEIROZ

MUITO BOM!

Zair Torres
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Zair Torres

Ótima formação!

Cleber Tavares
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Cleber Tavares

Uma ótima formação

Necivalda
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Necivalda

Excelente matéria. Estou me sentido desafiada….

Grizalda Oliveira
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Grizalda Oliveira

Parabéns, gostei muito da trilha e dos conteúdos excelente o material.

Maria Gneglauda Holanda
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Maria Gneglauda Holanda

O material oferece elementos para que possamos construir nossa comunidade de aprendizagem. Muito bom!

MARIA RODRIGUES DE OLIVEIRA
Visitante
MARIA RODRIGUES DE OLIVEIRA

Participação, diálogo interativo onde todos, pais, professores, gestores, alunos e funcionários agem como sujeitos do processo certamente haverá construção de aprendizagens. Como diz Paulo Freire “Onde quer que haja mulheres e homens, há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender.”

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