Quais os desafios atuais e urgentes da educação? - PORVIR
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Inovações em Educação

Quais os desafios atuais e urgentes da educação?

Alguns problemas educacionais são os mesmos há, pelo menos, uma década. Como lidar com os problemas que persistem?

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 28 de dezembro de 2022

Se a pandemia de Covid-19 escancarou e aprofundou as desigualdades sociais e teve um impacto direto na educação, considerando que, no Brasil, as escolas permaneceram fechadas por mais de quase dois anos, é importante reforçar que essa interrupção não é a única responsável pelos desafios que persistem, como mostra essa segunda matéria da série sobre o panorama da educação brasileira.

Claudia Costin, diretora do Centro de Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas, explica que o Brasil demorou para universalizar, por exemplo, o acesso ao ensino fundamental. Apesar de avanços quando o assunto é acesso, em relação a aprendizagem a evolução foi mais tímida. “Usando a terminologia do Banco Mundial, a aprendizagem ainda era frágil. Somos e éramos, naquela época, um país em crise de aprendizagem e com profundas desigualdades educacionais.” 

Por isso, há um leque de desafios que precisam ser endereçados para que seja possível promover avanços reais na educação brasileira. Confira alguns exemplos:

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Desafios gerais 

  • Priorização da educação: poder público e grandes tomadores de decisão devem fazer a educação prioridade de seus governos e, com isso, requerer maior volume de investimentos e atenção ao tema;
  • Foco no estudante: crianças e jovens devem ser o centro de processos de ensino-aprendizagem, com a chance de desenvolver seu potencial criativo; 
  • Equidade: garantir que a educação chegue a todas as crianças, adolescentes e jovens que estão nas escolas; 
  • Busca ativa: resgatar estudantes que estão fora da escola e evadiram durante a pandemia; 
  • Para todos: considerar o contexto e dificuldades adicionais enfrentadas por grupos historicamente excluídos e marginalizados; 
  • Desenvolvimento integral: assegurar que a escola seja capaz de garantir aprendizado com desenvolvimento integral, com recursos, infraestrutura e professores preparados; 
  • Formação docente: importância de investir na atratividade da carreira de professor, tanto na formação inicial, como na continuada. As formações devem considerar as tendências da educação, como uso de tecnologia dentro e fora de sala de aula e as metodologias ativas, inclusive com momentos destinados à troca de experiências; 
  • Engajamento: promover o engajamento dos estudantes, apoiar e corresponsabilizá-los, quando possível, por suas escolhas e caminhos de aprendizagem, criando estratégias para que eles tenham apoio e consigam tomar decisões baseadas em seus interesses, além de diversificar as formas de engajar, propondo problemas interessantes e abrindo espaço para que os próprios estudantes busquem os problemas socioambientais que desejam trabalhar; 
  • Repensar o espaço escolar: investir em uma multiplicidade de laboratórios, com uma internet de qualidade para o acesso de todos e garantir que as atividades desenvolvidas dentro do espaço escolar ultrapassem as paredes da sala de aula; 
  • Mudança de mentalidade: muitos educadores ainda têm uma postura conteudista e mentalidade de ‘vencer o conteúdo’;
  • Parcerias: importância do desenvolvimento de parcerias e trabalhos interdisciplinares, com professores atuando juntos para promover educação e enriquecer as aulas e processos, combatendo posturas de competitividade no corpo docente;
  • Desenho estratégico de macropolíticas educacionais que contemplem a transformação e inserção digital na escola; 
  • Visão mais ampla de conteúdo, que exceda uma listagem de tópicos de conhecimento, mas que inclua o desenvolvimento de competências e habilidades como aponta a BNCC (Base Nacional Comum Curricular);
  • Formação de Comunidades de Aprendizagem: todo processo de aprendizagem deve envolver processos dialógicos que ainda são pouco exercitados. 

Desafios por etapa

  • Educação infantil: consolidar uma educação infantil que de fato nivele as diferenças de origem socioeconômica no desempenho escolar futuro e garantam um desenvolvimento integral menos desigual entre crianças, com particular atenção a crianças de famílias mais vulneráveis; 
  • Alfabetização: garantir uma alfabetização que funcione com base em evidências científicas e não mais com base em ‘achismos’; 
  • Ensino fundamental: pensar uma escola que considere e tenha atenção aos interesses dos adolescentes, com uma cultura de altas expectativas para todos; 
  • Ensino médio: depois de quase dois anos de experimentação do Novo Ensino Médio, registrar o que deu e o que não deu certo para aperfeiçoar o modelo; 
  • Ensino técnico e profissional: aumentar o acesso para que os jovens possam realizar seu potencial e, assim, garantir uma inserção melhor no mundo do trabalho, com profissionais capazes de exercer pensamento crítico e de resolução colaborativa de problemas com criatividade.

De acordo com Anna Penido, conselheira do Porvir e diretora do Centro Lemann, é preciso desnaturalizar o fracasso escolar como algo dado, para que a sociedade possa se indignar com isso e pleitear por resultados diferentes. A educação precisa ser uma prioridade da sociedade, para que todos possamos nos incomodar quando as crianças não estão aprendendo, quando estão fora da escola, quando jovens têm que abandonar a escola para buscar uma oportunidade de trabalho e renda porque não lhe são dadas as condições para que permaneçam estudando”, reforça. 

Claudia Costin também aponta o papel fundamental da formação continuada dos educadores. “É muito importante investir numa formação de professores que desenvolva neles a capacidade de ensinar a pensar, de formar pensadores autônomos, não que decorem a visão de mundo dos seus Mestres, mas que possam formular suas próprias perguntas, questionar aquilo que leem e formular também seus próprios pensamentos.” 

Já Luciano Meira, professor adjunto de psicologia na UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e cofundador e coordenador de ciência e inovação da edtech Joy Street, defende que a inovação é uma mudança comportamental. “. Não se trata da aquisição ou inserção de tecnologias, mas que essas tecnologias sejam plataformas que potencializam e dão escala a um conjunto de coisas importantes no âmbito de transformações culturais, que, do ponto de vista da inovação, são mudanças comportamentais, como tornar uma escola um ambiente de argumentação contínua”, diz.

Mas isso só é possível, segundo o especialista, a partir de comportamentos de acolhimento e confiança, porque inovação envolve o risco, lançar-se ao novo, criar possibilidades e trazer o mundo do futuro para o presente. “Nesse sentido, um ambiente de confiança e dialógico na escola promove mais inovação, porque dá sustentação às trocas e alimenta a mudança comportamental no outro.”


Como parte das atividades de celebração aos 10 anos do Porvir, a mostra interativa e multimídia “Encontro com o Porvir: trajetória de educadores que transformam o presente e constroem o futuro” acontece até 3 de fevereiro, no Museu Catavento – instituição da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, localizado na região central de São Paulo (SP). Além das 148 contribuições recebidas em uma campanha de financiamento coletivo, somam-se aos parceiros e apoiadores oficiais do projeto: Camino School, Faber-Castell, FTD Educação, Fundação Educar, Instituto Ayrton Senna e Red Balloon.

Régua de logos da exposição Encontro com o Porvir


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educação integral, ensino fundamental, ensino médio, ensino superior, formação continuada, ​​Porvir em 10 anos

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