Professor precisa ser ouvido antes de acolher alunos na volta às aulas - PORVIR
Crédito: damircudic/iStockPhoto

Coronavírus

Professor precisa ser ouvido antes de acolher alunos na volta às aulas

Entenda como traduzir o acolhimento em práticas consistentes a partir de recomendações de especialistas em educação

Parceria com Instituto Península

por Thiago Varella ilustração relógio 7 de julho de 2020

A sociedade, o MEC (Ministério da Educação), as secretarias e até mesmo as escolas já discutem datas, protocolos sanitários, modelo híbrido de ensino e outras medidas para o retorno presencial das aulas. Mas, diante de tanto debate, será que os professores estão preparados para acolher os estudantes depois de tanto tempo em casa?

De um lado, os estudantes vão trazer inúmeras questões emocionais para a escola. Muitos vão ter perdido parentes por causa do coronavírus (COVID-19) ou os pais ficaram desempregados, o padrão de vida pode ter sofrido uma queda brusca, enfim, os problemas são diversos.

Mas do outro lado, os professores também tem seus próprios problemas. Além da demanda do trabalho remoto para o qual não foram preparados , existe ainda a outra parte da jornada, que inclui cuidar da casa e dos filhos.

Leia mais:
Especial Competências Socioemocionais do Porvir
Pesquisa mostra o sentimento de professores em meio à pandemia do coronavírus
– Aprendendo Sempre: Plataforma para gestores, professores e famílias
6 passos para escutar estudantes da sua escola ou rede com uma ferramenta gratuita

Mariana Breim, diretora da plataforma Vivescer e de desenvolvimento integral do Instituto Península, coloca no topo da nova lista de volta às aulas a necessidade do educador desenvolver empatia. “Isso significa que o professor precisa olhar para o aluno no lugar de vulnerabilidade que ele vai chegar e se reconhecer da mesma maneira. Não existem respostas corretas, mas ele é o adulto que vai se relacionar com a criança”, disse.

Esse trabalho, segundo Marina, encontra respaldo na própria BNCC (Base Nacional comum Curricular), que coloca a empatia como uma das 10 Competências Gerais (baixe infográfico do Porvir) a serem desenvolvidas ao longo da educação básica. Mais do que uma explicação teórica, é algo que pode ser desdobrado em diversas situações no ambiente escolar.

Por que eu quero empatia e colaboração se as crianças estão o tempo todo enfileiradas, se o professor é o que está lá na frente o tempo inteiro ditando as regras

“Como é que eu crio uma escola mais empática? Por que eu quero empatia e colaboração se as crianças estão o tempo todo enfileiradas, se o professor é o que está lá na frente o tempo inteiro ditando as regras e os alunos não participam, não tomam decisões, não escolhem e não se responsabilizam por nada. É muito difícil que a cooperação seja trabalhada num ambiente desses”, avalia.

Com educadores vendo o ritmo de trabalho dobrar em casa, Mariana reconhece que o superpreparo esperado para uma situação como esta será difícil de ser realizado. Por isso, aposta na flexibilização como alternativa para enfrentar os desafios dessa volta às aulas como nenhuma outra já enfrentada pelos professores.

“É flexibilizar rotinas, tempos e espaços para incluir o lugar de acolhimento e rituais para receber as crianças. Isso tudo vai ajudando os pequenos e os próprios professores a elaborar melhor o que viveram”.

Para Telma Vinha, professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e doutora em educação, os professores não estão preparados para essa acolhida simplesmente porque ninguém está.

No primeiro momento, tem que cuidar do trauma. É preciso que a escola seja um espaço que ajude o professor a lidar com o luto, com os problemas da relação

“O professor não está preparado e está precisando de cuidado. Este está sendo um período único e estressante. A escola não pode minimizar o que está acontecendo e pensar em apenas dar conta de repor o conteúdo. No primeiro momento, tem que cuidar do trauma. É preciso que a escola seja um espaço que ajude o professor a lidar com o luto, com os problemas da relação”, afirmou.

A volta às aulas, que deve ocorrer em algumas redes públicas e privadas ainda durante a pandemia, pode ser comparada à reabertura de uma escola depois de uma tragédia local, como um terremoto ou uma enchente, só que em nível nacional. Por isso, Vinha afirma que nesta situação de trauma, de luto e de sofrimento, o papel inicial da escola é de acolher e desenvolver empatia.

Mais do que ser o responsável por repor todo o conteúdo pedagógico perdido e, digamos, correr atrás do tempo perdido, o professor vai precisar, mais do que nunca, olhar para o aluno de forma integral. Isso significa ter que dar voz aos alunos, por meio de círculos de diálogo, atividades de expressão de sentimento, produção de textos e outras ferramentas.

Outra responsabilidade será a de apoiar estudantes a reorganizar sua dinâmica de vida, com horários fixos e um ritmo de aulas que não é visto desde meados de março. Uma coisa é estudar em casa, outra, completamente diferente, vai ser voltar a assistir aulas na escola. “É importante criar uma rotina de novo na escola. (Enquanto estão em casa) os estudantes perderam isso, acordam tarde e comem qualquer coisa”, afirmou.

É evidente que o professor não tem ou precisa ter formação para ser terapeuta e, para Vinha, nem é essa a ideia. O principal, segundo a professora da Unicamp, é transformar a escola em um espaço de escuta e de apoio mútuo, que necessariamente inclui o corpo docente.

“Se esse espaço não for na escola vai ser onde? É preciso compartilhar, contar fragilidades e ser acolhido. E para isso tem que planejar. Tem que fazer um planejamento de ações para poder ter esse cuidado”, explicou.

Todo esse planejamento de ações para a acolhida aos alunos precisa partir das escolas e, preferencialmente, das secretarias de educação.

Tem que ser um projeto institucional da escola. Isso não pode ser um projeto individual

“Tem que ser um projeto institucional da escola. Isso não pode ser um projeto individual. E aí, do mesmo jeito que as secretarias se organizaram para o ensino remoto, o indicado é que as próprias secretarias cuidem para inspirar as escolas sobre qual caminho seguir”, disse.

Vinha explica que esse planejamento pode ser feito desde já, com ferramentas online. Para a professora da Unicamp, o mesmo cuidado que os professores terão com os alunos, os coordenadores já podem ter com os docentes, montando círculos de diálogo com os professores para que eles se abram e discutam os problemas.

Outra forma de engajar os professores é dando um sentimento de pertencimento a eles. Para Vinha, é importante que nada seja imposto como decreto, mas que os docentes sejam incluídos.

Professores já estão acolhendo alunos

Os professores podem não estar totalmente prontos para acolher os alunos, mas, mesmo no contexto das aulas online, eles já estão amparando seus estudantes. Essa é a opinião de Edmea Oliveira, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), doutora em educação e especialista em cibercultura.

Por meio das interfaces digitais, como os professores já estão escutando seus alunos, já que muitos trazem, mesmo para as aulas online, suas questões familiares, como a perda de pessoas queridas ou as dificuldades materiais impostas pela pandemia.

É criar dinâmicas de grupo onde esses alunos possam ouvir e falar

Oliveira concorda que, na volta à sala de aula, mais importante do que o conteúdo será a escuta aos estudantes. “Quando você fala do acolher no retorno à sala de aula presencial, aí é necessário realmente parar com toda essa discussão de conteúdo e aproveitar essas duas primeiras semanas como uma grande acolhida, um grande abraço que a escola tem que dar nesses alunos do ponto de vista simbólico. É criar dinâmicas de grupo onde esses alunos possam ouvir e falar”, afirmou.

Segundo a professora da UFRRJ, os professores já têm uma certa experiência nisso, já que se deparam com fatalidades no seu cotidiano em sala de aula, como a violência do bullying, casos eventuais de mortes ou outras fatalidades.

Para Oliveira, outra questão que precisará ser colocada na volta às aulas é o auxílio de outros profissionais na escola, o que ela chama de “interdisciplinaridade de pessoas”.

“Lamentavelmente, os sistemas públicos em geral excluíram alguns profissionais importantíssimos na escola, como, por exemplo, os orientadores educacionais, psicólogos, assistentes sociais. É momento de recuperar essas profissões. É momento de fazer gestão de competência nas escolas, porque, mesmo que você não tenha um psicólogo, você pode ter alguém formado em psicologia, um professor, um técnico que possa, nesse momento, mobilizar algumas competências”, explicou.

Escolas mais humanizadas

Para o psicoterapeuta Leo Fraiman, especialista em Psicologia Escolar e mestre em Psicologia Educacional e do Desenvolvimento Humano pela USP, a escola vai precisar ser humanizadora na volta à sala de aula. Os professores vão ter de ser tratados como gente, e não como máquina, por meio de debates, conversas e a construção de um projeto de vida.

Na escola, agora, vamos ser todos alunos, uns dos outros e da vida

“As escolas vão precisar formular estratégias para esses professores, como a formação de um comitê de saúde mental, outro de recolhimento de boas práticas de docência. Enfim, na escola, agora, vamos ser todos alunos, uns dos outros e da vida”, afirma.

Segundo Fraiman, cuidar do fator humano vai ser essencial para que o professor tenha uma volta mais suave. “Vamos todos voltar angustiados. Você sai da angústia com a fala ou o ato. Falar sobre ela, escrever sobre ela, refletir sobre ela é fundamental”, disse.

Quer saber mais sobre desenvolvimento integral do professor?
Clique e acesse

Instituto Península

TAGS

base nacional comum curricular, competências para o século 21, coronavírus, educação infantil, educação integral, ensino fundamental, ensino médio, socioemocionais, tecnologia

14
Deixe um comentário

avatar
500
11 Comentários ao conteúdo
3 Respostas a comentários
1 Seguidores
 
Comentário com mais reações
Comentário em alta
14 Autores
CelioSandraVeraCarolina FonsecaGislaine Lastoria Quem acabou de comentar
  Acompanhar a discussão  
Mais recentes Mais antigos Mais votados
Tipo de notificação
Fátima Sylvio
Visitante
Fátima Sylvio

Quem disse que os alunos obedecem ao professor não conhece uma sala de aula.

Professora
Visitante
Professora

Fátima, quando o que se espera é obediência , perde-se a conexão com o aluno.

Celio
Visitante
Celio

Não esperamos obediência e sim respeito. Só consegue aprender quem respeita e tem aceitação a discussão do que lhe é ensinado

Manoelina Pestana dos Santos
Visitante
Manoelina Pestana dos Santos

Se não houver união da categoria nada feito. Quem determina receitas são os professores que estam na teoria e prática.

Ana Gabriella
Visitante
Ana Gabriella

Voltas as aulas de modo seguro somente com vacina. Não dá pra comparar pandemia com catástrofes naturais. As condições de retorno na pandemia é uma questao de insalubridade.

luzia Moraes de Mattos
Visitante
luzia Moraes de Mattos

me chamo Luzia trabalho há 39 anos com educação infantil. creio que nossa equipe não terá problemas com a volta presencial. pois desde o inicio da pandemia não nos afastamos de nossos alunos. como são pequenos. fazemos aulas diariamente com cada um.conversamos. interagimos com eles e eles conosco. as sextas feiras fazemos lives em grupo. uma farra só! todos estão ansiosos pela volta

Leila dos Santos Moreira
Visitante
Leila dos Santos Moreira

Conteúdos bons e esclarecedores. Gostei muito.

Angelica
Visitante
Angelica

Onde está a bibliografia utilizada para o texto, gostaria de utilizá-la.

Por Vinícius de Oliveira
Admin
Por Vinícius de Oliveira

Oi, Angélica. As principais referências estão nos links ao longo do texto.
Vinicius – Porvir

Maria de Fátima Santos Sousa
Visitante
Maria de Fátima Santos Sousa

Ótimas contribuições para o retorno das aulas.

Gislaine Lastoria
Visitante
Gislaine Lastoria

Se não cuidarmos de quem cuida das nossas crianças, teremos crianças descuidadas

Carolina Fonseca
Visitante
Carolina Fonseca

Conteúdo muito bom mas esperava mais sobre a importância e como acolher o educador. Quem se interessar por este assunto sugiro conhecer também o acolhevoce.com.br projeto focado 100% no acolhimento do professor.

Vera
Visitante
Vera

Não se pode comparar pandemia com catástrofe natural, a catástrofe acontece e voltam p se reerguer a mandemia vc volta mas tem que ter todos os cuidados para não ser contaminados esta é a diferença , e como fazer com que as crianças se conscientize disso , se infectarem corre todos os riscos quem está na linha de frente com eles que são os profissionais , a suas famílias e todos os envolvidos .

Sandra
Visitante
Sandra

Muito bem!!!Professor também precisa ser acolhido e ter a liberdade e tempo para acolher….antes de se pensar e so recuperar conteúdos.