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Inovações em Educação

Programas querem mais mulheres no mundo da ciência

Iniciativas buscam diminuir disparidade de gênero em cursos universitários e em projetos de pesquisa realizados no país

por Davi Lira ilustração relógio 25 de outubro de 2013

Contra o reduto histórico dos homens no mundo científico, uma presença mais marcante do feminino. Buscando atenuar a disparidade de gênero em cursos universitários dominados pelos homens, uma série de entidades veem desenvolvendo ações visando estimular a participação das meninas em cursos e em projetos de pesquisa das áreas de exatas, engenharia e computação. O objetivo prático é um só: aumentar o número de estudantes do ensino médio na universidade e de pesquisadoras na graduação e pós interessadas nessas carreiras. A mais recente iniciativa foi o edital lançado neste mês pelo (MCTI) Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação. A chamada pública seleciona propostas para concessão de bolsas e apoio financeiro a projetos que estimulem as meninas a seguirem o caminho das ciências. O edital prevê a distribuição total de R$ 11 milhões. Para cada proposta aprovada, serão repassados R$ 20 mil.

O programa de auxílios do MCTI soma-se a outras iniciativas que buscam fomentar a equidade de gênero nas ciências duras, que também incluem a física e a química. Anualmente, por exemplo, a Fundação L’Oreal em parceria com a Unesco homenageia com US$ 100 mil uma pesquisadora da América Latina no prêmio Para as Mulheres na Ciência. Neste ano, a vencedora foi a cientista brasileira Márcia Barbosa, professora do Instituto de Física da UFRGS  (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Sua pesquisa tratava da relação entre as moléculas de água e os terremotos. Além do prêmio, a fundação ainda patrocina um programa de bolsas de estudos no valor de US$ 20 mil voltados para jovens cientistas brasileiras. O resultado da premiação deste ano foi divulgado nesta semana. Sete pesquisadoras foram selecionadas.

Iniciativas desse tipo têm como objetivo principal destacar o papel da mulher nas ciências. Espera-se com projetos dessa natureza estimular um maior ingresso feminino nos “cursos masculinos”. A batalha, no entanto, não é a das mais fáceis. Só para se ter uma ideia, ao analisar os dados do Censo de Educação Superior de 2012 divulgados pelo MEC (Ministério da Educação) em setembro deste ano, percebe-se que as meninas são apenas 30% dos cerca de 130 mil estudantes matriculados em engenharia de produção – o curso de engenharia que tem o maior número de matrículas. Já em pedagogia, elas representam 92% dos 602.998 estudantes. Considerando todos os cursos de graduação, as meninas estão em maior número. Elas já representam 55,5% do total de alunos matriculados no ensino superior brasileiro.

Mas se elas são a maioria dos matriculados na graduação, em termos absolutos, no doutorado, por exemplo, elas perdem novamente para os homens. Do total de 187 mil doutores no país em 2010, 80 mil (ou 42%) são mulheres. Ou seja, um porcentual 15% menor que o dos homens. Os números, publicados neste ano, são do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, entidade ligada ao MCTI.

Então, para que sirva de estímulo ao surgimento de outras Márcias Barbosa pelo país, confira o vídeo da Márcia, a original, falando sobre seu projeto:

 

Outras iniciativas

Ciente desse abismo que separa os homens e as mulheres quando o assunto é ciências, desde de 2005, a Secretaria de Política para as Mulheres matem o Programa Mulher e Ciência. A ideia principal é estimular a produção científica sobre as relações de gênero no Brasil e promover as mulheres nas áreas dominadas pelos homens. Uma das ações é a o prêmio Construindo a Igualdade de Gênero. Todos os anos, são condecoradas redações de jovens estudantes, artigos científicos de pesquisadoras e projetos pedagógicos de educadoras que estimulam as questões de gênero. As inscrições de cada uma das edições anuais encerram-se por volta de setembro.

Além dessa iniciativa comandada pela secretaria das mulheres, uma outra ação também busca incentivar desde cedo a participação feminina no mundo da ciência. Trata-se do programa Science Camp – Elas na Ciência, um projeto criado pela Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. A ideia é estimular a curiosidade e o interesse de alunas brasileiras da educação básica para esse campo. No início do ano, cerca de 90 brasileiras de várias regiões participam de uma série de atividades práticas junto a cientistas renomados em Brasília e em Manaus. Durante uma semana, as estudantes participam de palestras, visitas guiadas e sessões de orientação para o desenvolvimento de um projeto final a ser apresentado no último dia do programa.

E não são apenas políticas governamentais e iniciativas de fundações privadas que criam ações voltadas à inserção feminina na ciência. As próprias entidades científicas que representam a classe também estão atentas a essa questão. Um exemplo de iniciativa que segue essa lógica de democratização do acesso por gênero é o livro Mulheres Cientistas das Américas. Organizado pela Rede Interamericana de Academias de Ciências (Ianas, na sigla em inglês), a obra apresenta uma coletânea de 16 depoimentos de cientistas mulheres bem sucedidas profissionalmente. O mais interessante é que em cada relato não se lê apenas a voz da cientista, como se observa a voz da mulher. Nos relatos, há espaços para que elas falem sobre sonhos, famílias e, claro, sobre um passado de obstáculos que tiveram que cruzar para seguir firmes e fortes em suas trajetórias científicas.

Do Brasil, a cientista selecionada foi a pesquisadora Mayana Zatz, coordenadora geral centro de pesquisa sobre o genoma humano e células-tronco, vinculado à USP. Ao ser questionada, no livro, a dar conselhos a jovens cientistas, Mayana lembrou do difícil embate que muitas enfrentam ao tentar conciliar a carreira com a maternidade. “Vocês [jovens cientistas mulheres] devem lutar pelo que acreditam. E tem que questionar sempre. Vocês não devem  ter medo de obter um não como resposta. Ela não deixem de lado uma ideia antes de testá-la e comprovar a sua eficácia. E não renunciem à maternidade por uma carreira científica. O ser mãe é uma experiência fabulosa, mesmo que por alguns anos o seu dia se tornará mais difícil devida a maternidade. Mas sim é possível conciliar a carreira como pesquisadora ao mesmo tempo em que se é mãe.”


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ciências, gênero

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Certa vez,na sala de espera de um consultório médico conversei com uma senhora de 84 anos, que me relatou a dificuldade que enfrentou ao ingressar no curso de engenharia civil nos anos 40. Não teve o apoio total da família, assim como foi discriminada pela sociedade por ter escolhido uma profissão que era exclusiva ao gênero masculino. Mesmo assim concluiu o curso com êxito. Exerceu com brilhantismo e sucesso a carreira. Porém ao casar-se, foi… Ler mais »

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