Publicação mapeia iniciativas inovadoras no uso de tecnologia na escola

Inovações em Educação

Publicação mapeia iniciativas inovadoras no uso de tecnologia na escola

Em entrevista ao Porvir, Luciana Allan, organizadora do livro e cofundadora do Instituto Crescer, fala sobre a escolha dos relatos pedagógicos que culminaram na publicação e o papel dos professores diante das constantes inovações na educação.

por Vinícius de Oliveira ilustração relógio 28 de maio de 2024

É comum que muitos educadores tenham excelentes ideias e maneiras de construir conhecimento junto com os estudantes. Usando ou não tecnologias digitais, a partir do próprio contexto, cada professor pode pensar e desenvolver projetos valiosos e com impactos significativos. 

O recém-lançado livro “Crescer em rede – inovação e tecnologia com propósito na educação”, uma publicação do Instituto Crescer, reuniu 15 relatos inovadores de professores em diferentes regiões do Brasil e que atuam em diversas etapas da educação básica, que apresentaram projetos – e como desenvolvê-los – nas mais diferentes áreas, desde inteligência artificial até personalização, aprendizagem criativa, criação de portfólio e mais.

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“Mesmo com todas as dificuldades estruturais, os professores estão colocando os alunos para pesquisar e materializar ideias por meio da construção de objetos e produtos, físicos e virtuais, além de levar até eles, por meio de técnicas inovadoras, elementos de seus contextos e culturas locais”, afirma Luciana Allan, diretora técnica e cofundadora do Instituto Crescer.

Luciana também é organizadora do livro, que tem download gratuito (clique aqui para baixar). Em entrevista ao Porvir, ela comenta sobre as iniciativas mapeadas e aborda os entraves e possíveis caminhos para apoiar a formação docente. Confira os principais trechos:

Porvir – Diante da diversidade dos relatos apresentados no e-book, quais características se sobressaem quando falamos de inovação dentro da educação brasileira?

Luciana Allan, diretora do Instituto Crescer. Foto: Divulgação

Luciana Allan – Como educadores, é essencial ter a sensibilidade de captar o “espírito do tempo”. Isso significa também escolher as lutas que iremos travar. Neste caso, lutar contra a implementação da tecnologia será uma batalha inglória: a inteligência artificial, por exemplo, está se popularizando em velocidade exponencial e as pessoas não vão deixar de utilizá-la. Então, em vez de proibir, por que não incorporá-la à metodologia e aprimorar o ensino com a ajuda da inteligência artificial?

Outra marca que une todos os relatos é a criatividade: a inquietude que mobiliza o desejo de mudança e a busca pelo novo, capazes de criar envolvimento e significado para educadores e seus alunos. E é essa marca que atesta a potência dos educadores-autores: a leitura sensível do contexto em que atuam e a busca incessante por soluções inovadoras.

Mesmo com todas as dificuldades estruturais, os professores estão colocando os alunos para pesquisar e materializar ideias por meio da construção de objetos e produtos, físicos e virtuais, além de levar até eles, por meio de técnicas inovadoras, elementos de seus contextos e culturas locais, proporcionando vivências e reflexões sobre a realidade em que vivem e onde podem atuar. 

Porvir – Até que ponto as atividades são obra de um professor ou fazem parte de um projeto de escola inovadora e com uma gestão com esse foco? 

Luciana Allan – Acredito que, na grande maioria dos casos mencionados no livro, as iniciativas começaram de forma independente por parte de cada professor que, proativamente, lutou pela implementação das respectivas ideias junto à gestão escolar. Independentemente da realidade, seja ela pública ou privada, em um grande centro urbano ou em uma pequena cidade do interior do Brasil, descobrimos com esse livro que existe uma infinidade de educadores dispostos a fazer diferente e, de forma incansável, buscar novos recursos e estratégias de ensino para encantar os estudantes e os envolver em momentos de aprendizagem significativa.

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Porvir – Como acontece em uma seleção, os casos publicados são um recorte dentro de redes públicas e privadas. O que falta para que mais e mais escolas se deem conta?

Luciana Allan – Nossa ideia, ao disseminar este livro de forma gratuita pela midiateca do Instituto Crescer foi colaborar exatamente para atingir esse objetivo: que mais escolas se deem conta de que, mesmo frente a todas as dificuldades estruturais, dá para inovar na Educação. Temos que reconhecer que cada um de nós, educadores, têm responsabilidade sobre a formação dos nossos alunos. Já falei isso outras vezes: a escola precisa mudar, os professores precisam se reinventar, os pais precisam estar mais presentes para que a educação faça sentido a toda uma nova geração que tem muita vontade de aprender, mas que se recusa a estudar da mesma forma que estudaram seus pais e avós.

Porvir – Como na nossa premiação, o Prêmio Professor Porvir, muitas vezes as práticas não publicadas também contam uma história. Onde vocês veem as maiores dificuldades para a chegada de atividades que propõem novas metodologias a mais salas de aula e escolas?

Luciana Allan – Acredito que há muitos fatores envolvidos: a falta de tempo para promover o registro, sem dúvida é o principal, mas também falta coragem e autoestima. Ou o professor não vê sua prática como significativa, tão interessante (que valha a pena publicar ou ele não sabe como fazer, como escrever para compartilhar.

Exatamente por conta destes aspectos é que criamos uma metodologia que colaborou para que os professores se sentissem encorajados a relatar o belo trabalho que vêm fazendo junto aos estudantes. Primeiro, eles foram convidados a fazer um breve relato, contando o que tinham feito e por que consideravam aquela prática interessante. O relato tinha que ser sucinto e trazer a ideia principal.

Recebemos mais de 250 relatos e selecionamos 50 que convidamos a detalhar o trabalho que fizeram. Produzimos um documento com toda a orientação para produção do artigo, descrevendo e exemplificando cada um dos tópicos que deveriam ser contemplados. Além do documento, disponibilizamos um profissional para fazer a mentoria e ajudá-los a registrar a prática. Foram vários feedbacks (retornos avaliativos), inclusive dados por mim, até a produção final. 

Porvir – Sempre esbarramos na questão da formação de professores, só que me parece que nunca houve tantas oportunidades de aprendizagem por parte dos educadores. Como alinhar oferta e demanda e convencer estes educadores de que inovar e buscar alternativas ao modelo de ensino é necessário? 

Luciana Allan – Concordo que existe esse entrave. A baixa qualidade da formação dos professores brasileiros, principalmente daqueles recém-saídos das universidades, é uma realidade que reflete diretamente na qualidade do ensino, seja em escolas públicas ou particulares, haja vista os resultados das últimas avaliações externas efetuadas pelo MEC (Ministério da Educação).

Não dá mais para continuarmos com uma educação bancária em pleno século 21. Para convencer os professores a repensar sua prática pedagógica, nada como bons exemplos. Quanto mais tivermos bons exemplos e, de preferência, que sejam advindos de seus pares ou profissionais que estão próximos, mais eles irão crer que é possível. O processo envolve não só conhecimento técnico, mas também um grande trabalho de sensibilização e acolhimento. Sempre haverá aqueles profissionais que se destacam, que se sentem mais encorajados a inovar. 

O que temos que pensar é como trazê-los para próximo e comprometê-los com o desenvolvimento de seus pares, como parte de um processo que envolve altruísmo, solidariedade, empatia e acolhimento, comportamentos que tanto valorizamos na formação dos estudantes, mas que também devem estar refletidos na nossa prática, como líderes de um processo educacional que deve acontecer pelo exemplo. 

Porvir – Quais seriam as possíveis razões para esse cenário entre os cursos?

Luciana Allan – É triste ver que entre os cursos com as piores notas recebidas estejam os de Pedagogia, História e Letras, principais responsáveis pela formação dos futuros professores, os mais envolvidos com a alfabetização. São muitas as razões que explicam esse resultado, dentre elas o fato de muitos cursos serem ofertados na modalidade à distância por meio de metodologias de ensino que não contribuem adequadamente para a formação e desenvolvimento dos cursistas. 

Embora a EAD (educação a distância) seja uma maneira legítima de suprir gargalos no ensino e promover a inclusão por chegar às regiões mais afastadas dos centros urbanos, não dá para fazer isso de qualquer jeito. É essencial ofertar ao estudante a melhor experiência, promovendo vivências que o engaje em momentos de aprendizagem significativa. O professor de 2024 precisa entender quem é esse estudante, quais as lacunas vindas da educação básica para buscar saná-los antes de introduzir o currículo previsto no curso superior, compreender como ele interage com a tecnologia, que tipo de acesso à internet ele geralmente dispõe, quanto tempo tem para estudar, quais as estratégias e recursos para ensinar que mais o atraem. Estas são apenas algumas das atividades que não podem ser ignoradas.


TAGS

aprendizagem baseada em projetos, educação mão na massa, ensino fundamental, tecnologia

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