De um lado da mesa, as preocupações técnicas: senhas, estabilidade da rede, velocidade da internet e leis de proteção de dados. Do outro, entram em cena as prioridades pedagógicas: metodologias ativas, engajamento dos estudantes e indicadores de aprendizagem. Muitas escolas se perdem nessa lacuna de comunicação. Para evitar que a inovação educacional pare na barreira técnica, a comunidade TE e TI Partners atua para integrar esses dois universos.
“Percebemos que as escolas têm departamentos tentando implementar ferramentas de forma isolada, sem saber como agir em conjunto”, diz Grace Gonçalves, idealizadora e presidente da Associação TE e TI Partners e diretora de tecnologia educacional.
Fundada em 2012, a partir de uma comunidade no Orkut, o grupo hoje é uma associação sem fins lucrativos, gerida pela Grace em conjunto com as também educadoras Renata Martinez e Myrta Biondo, de forma voluntária. São cerca de 5.000 especialistas no Brasil e no exterior dedicados a estruturar o uso da tecnologia nas unidades de ensino.
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Proposta do grupo
O objetivo da iniciativa é garantir a intencionalidade pedagógica, independentemente do porte da instituição. Em um grupo privado de WhatsApp, representantes de colégios trocam experiências e anunciam vagas. Segundo Grace, a troca gratuita acelera validações que antes eram feitas individualmente: “Ganhamos tempo. Hoje sou eu quem ensina, no próximo mês serei eu quem vai aprender”.
As demandas mais comuns pautam encontros em escolas parceiras ou eventos como a Bett Brasil. “Afunilamos os temas, visitamos as escolas e analisamos casos de sucesso para encurtar o caminho dos outros membros. A iniciativa tornou-se uma rede de confiança, pesquisa e trabalho”, conclui a fundadora. As demandas mais comuns pautam encontros em escolas parceiras ou em eventos como a Bett Brasil, evento de tecnologia realizado em São Paulo (SP).

“Afunilamos os temas, visitamos as escolas e analisamos casos de sucesso para encurtar o caminho dos outros membros. A iniciativa tornou-se uma rede de confiança, pesquisa e trabalho”, conclui a fundadora.
Para Doug Alvoroçado, professor da rede municipal do Rio de Janeiro (RJ), a comunidade é vital para a atualização docente. Ele destaca que dilemas como o desinteresse dos estudantes e o uso limitado de dispositivos são pontos de convergência entre o ensino público e o privado. “Estar na rede me fez descobrir que os desafios são iguais, independentemente do volume de recursos”, conta.
Ele cita o exemplo de um projeto de livro que idealizou. Ao compartilhar a ideia, descobriu uma colega que já havia validado um trajeto semelhante. “A interação evita que a gente comece do zero”. Além do ganho pedagógico, o valor é administrativo: o acesso a especialistas em gamificação, inteligência artificial ou Libras substitui consultorias externas de alto custo. No balanço final, diz o educador, o engajamento das equipes técnica e pedagógica nesse ecossistema de troca garante um custo-benefício superior para a instituição, convertendo colaboração em eficiência prática.
Onde a gestão escolar se inclui
Além do ganho pedagógico, o valor da iniciativa é mensurável para a gestão escolar. O acesso direto a especialistas em gamificação, inteligência artificial e Libras substitui consultorias externas de alto custo, avalia Doug. E para quem acha que redes privadas e públicas não compartilham questões semelhantes, o especialista considera que também existem sim pontos de convergência, onde os dois lados podem evoluir quando compartilham o mesmo espaço. “O desinteresse dos alunos e o uso errado da tecnologia são realidades nas duas esferas. Estar na rede me fez descobrir que existem pessoas com desafios iguais aos meus, seja com muitos ou poucos recursos.”
A aproximação entre o que é “E” (Tecnologia Educacional) e o que é “I” (Tecnologia da Informação) nos processos escolares é uma meta urgente. Segundo Valdenice Minatel, diretora institucional e de tecnologia do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP), essa integração é fundamental. Ela compara a entrada da tecnologia nas escolas a um “Cavalo de Troia”: ao ser adotada, ela obriga a instituição a rever processos, impactando metodologias de ensino e avaliações que não podem mais ser ignoradas.

“Você só consegue ter esse termômetro quando estabelece um diálogo horizontal. A comunidade funciona como um microcosmo do que deve acontecer na escola”, afirma. Recentemente, em busca de formação sobre o ECA Digital — legislação que tem dominado as atenções dos gestores no país —, Valdenice encontrou na rede de parceiros o curso de que precisava. “Se eu não estivesse na comunidade, não teria esse acesso”, diz.
Hardware e Software
Para a diretora, o debate não se restringe a hardware e software, mas ao impacto sobre pessoas. O desafio de quem atua na fronteira entre o TE e o TI é saber o momento de avançar e, sobretudo, o de recuar. Afinal, a melhor tecnologia do mundo é inútil sem uma rede de implementação adequada.
Diante do ECA Digital, Valdenice vê as escolas confrontadas por questões que sempre existiram, mas que agora ganharam prioridade. “Qual é a nossa responsabilidade diante das plataformas que contratamos? É preciso estar alinhado à governança da instituição. Isso diz respeito ao TI, que valida as ferramentas, mas é vital para o TE, que as utiliza pedagogicamente”.
Como participar
Para fazer parte da comunidade TE e TI Partners, acesse o acesse o site da organização.
Além dos encontros, a rede publica materiais de apoio, como o guia Segurança em Espaços Maker, gratuitamente. O portal também reúne um acervo de ferramentas recomendadas para educadores, selecionadas após moderação técnica e pedagógica, e divulga eventos interescolares, como o HackEdu Partners, circuito voltado para estudantes dos Anos Finais do ensino fundamental e do ensino médio. A iniciativa integra a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), o currículo de computação, o de cultura maker e o de design, promovendo desafios para que alunas e alunos possam colocar em prática suas habilidades tecnológicas.

