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Inovações em Educação

Rede propõe aproximação entre ciência e educação

Grupo integra pesquisadores brasileiros para que as contribuições científicas tenham impacto e aplicação na educação

por Redação na Rua ilustração relógio 4 de maio de 2015

Por Ana Luiza Basílio, do Centro de Referência de Educação Integral

O pesquisador Fernando Louzada é categórico: “a escola tem que considerar espaço e tempo para a sesta”. A constatação é fruto dos mais de dez anos dedicados à pesquisa sobre a relação entre o sono e a aprendizagem. Em sua análise, a escola não só priva crianças e adolescentes do sono, como não considera as diferenças individuais que daí decorrem: “há necessidades de sono diferentes em cada etapa da vida, e a própria distância do aluno à escola, se [ele mora] mais perto ou mais longe, determina se ele pode dormir mais ou menos”.

Leia também: Escola também deve levar o sono em consideração

Louzada entende que esses postulados devem encontrar lugares empíricos. Mais do que um desejo individual, há um esforço coletivo para que as contribuições científicas – produzidas em larga escala no país – encontrem lugares propositivos e se façam inovadoras, sobretudo frente às demandas sociais referentes à educação. Essa é a proposta da Rede Nacional de Ciência para Educação que, na manhã desta segunda, 27 de abril, realizou a sua segunda reunião desde a sua efetivação, em 24 de novembro de 2014.

Via de mão dupla

O grande desafio colocado é como usar mais efetivamente os dados das ciências para substanciar as práticas e políticas educacionais e também, por outro lado, como utilizar o conhecimento e a experiência adquiridos na prática educacional para levantar questões que testem e refinem a pesquisa conduzida sobre a educação.

Atualmente, estão voltadas a essas questões, sob articulação da Rede Nacional de Ciência para Educação, 23 pesquisadores que contam com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq) e Instituto Ayrton Senna. O objetivo principal é integrar esforços dos vários laboratórios e pesquisadores do Brasil, de qualquer especialidade, cujo trabalho poderia ser aplicado à Educação, bem como de profissionais inovadores voltados à aplicação do resultado de pesquisas científicas no processo educacional.

Um trabalho de (re) conhecimento

O trabalho parte de um Censo de Pesquisa em Ciências sobre Educação no Brasil, em processo de construção. A ideia é estruturar palavras chave e, a partir delas, refinar buscas em banco de dados – como Diretório de Grupos de Pesquisa, currículos e publicações científicas – para mensurar quantos e quais pesquisadores atuam em áreas diretamente relacionadas ou potencialmente aplicáveis à educação. “Com essa etapa finalizada, vamos ter uma ideia do potencial do país, da contribuição das ciências com a educação”, explica o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Lent, um dos idealizadores da iniciativa.

Queremos atrair os pesquisadores para a ideia de que o trabalho deles pode ser aplicado, potencialmente, na educação

Como segunda etapa, vislumbra-se a criação de um sistema de edital de financiamento para estimular o desenvolvimento de pesquisas nessa perspectiva. “Queremos atrair os pesquisadores para a ideia de que o trabalho deles pode ser aplicado, potencialmente, na educação”, reforça Lent. Ele conta que, nas últimas décadas, a neurociência, sua área de pesquisa, direcionou algumas publicações para a área da saúde. “Precisamos sensibilizar para esse diálogo com a educação”, reforça.

Na análise do presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, a Rede cumpre papel importante não só ao reconhecer os trabalhos científicos em território nacional, mas também pelo seu caráter multiplicador. “Isso é fundamental para fazer a correlação entre pós-graduação, graduação e educação básica”, reflete.

Contribuição com a formação integral

Lent deixa claro que a Rede não tem a pretensão de pautar a verdade, ou dizer a professores e gestores o que deve ser feito. “A ideia é que possamos apoiá-los a partir de dados objetivos, aplicados e comprovados”, assegura. Em seu entendimento, essa é uma forma de criar processuais para a melhoria da aprendizagem dos alunos e da eficácia dos professores e, de certa forma, contribuir com o arranjo necessário para a oferta de uma educação integral.

O ponto de vista é também pactuado pelo diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, que coloca a necessidade de se “empurrar” a fronteira do conhecimento como uma maneira de apoiar a educação pública a melhorar seus indicadores, tais como os de gestão, qualidade, avaliação, formação de professores e desempenho dos alunos “Nesse sentido, há uma forte contribuição das ciências, sobretudo na década de 90, na compreensão de fenômenos que recaem também sobre a educação, como é o caso da dislexia. Isso nos fez repensar sobre as melhores práticas de aprendizagem prevendo ganhos para os alunos”.

Esse movimento, a seu ver, ganhou ainda mais expressão no século 21, com o entendimento de que para além do aspecto cognitivo é necessário considerar entre as práticas pedagógicas os aspectos socioemocionais. “Nesse sentido, vemos o apoio à Rede como uma possibilidade real de qualificar as práticas pedagógicas e fazer das escolas espaços mais acolhedores, motivadores e tomados de significado para as crianças e adolescentes”, conclui.

*Fazem parte do Redação na Rua os sites Catraca LivreCentro de Referências em Educação IntegralGuia de EmpregosPortal AprendizPorvir e VilaMundo.


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ciências, educação integral, neurociência, socioemocionais

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