Sempre acreditei na educação e na arte como instrumentos de transformação. Por muitas vezes, usei recursos teatrais para contextualizar temas específicos com meus estudantes. Há um ano, quando cheguei do Rio de Janeiro para a cidade de São Roque, interior de São Paulo, para ministrar aulas de língua portuguesa na EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Professor Tibério Justo da Silva, trouxe essa ideia para a minha carga horária de projetos. Apresentei à gestão o Projeto TBT – Tibério no Teatro, que foi imediatamente aceito.
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Notei que o bullying era uma prática muito comum na escola. A fim de proporcionar a reflexão e buscar formas de prevenir novos casos ocorram, o projeto nasceu com o intuito de, entre outras coisas, libertar os estudantes do estigma de que estar na escola é somente uma obrigação. Por meio de atividades teatrais no contraturno escolar, o Tibério no Teatro proporciona senso de pertencimento aos estudantes do 7º ano ao 9º ano do ensino fundamental, investindo na educação socioemocional, na conversa sobre temas difíceis e no reconhecimento e combate às violências.
A dramatização é uma atividade de grande poder educativo e enriquecedor, por isso o projeto conta com oficinas preparatórias com noções básicas de teatro, desde a história de seu surgimento até técnicas de palco e roteiro escritos pelos alunos. Atualmente, com 53 integrantes, todos têm oportunidade de organizar, construir e integrar a sua linguagem a situações de diálogo altamente significativas. Cada um desenvolve sua criatividade, expressa talentos, faz escolhas e adquire aprendizado por meio da expressão artística.
Primeiros passos
No início, os alunos mais motivados foram selecionados, mas o objetivo era envolver também aqueles que, de alguma forma, causavam desequilíbrio ao ambiente escolar; alunos cuja participação poderia beneficiar sua aprendizagem e comportamento. As aulas englobam jogos teatrais, dinâmicas de desinibição e experimentação de conceitos, atividades em grupo, vivências e pesquisas.
Só que não tínhamos sala para desenvolver o projeto. Meu gestor tentou reorganizá-las para que tivéssemos algum espaço disponível, mas, a princípio, foi em vão. A escola tem muitas turmas, e isso era impeditivo para iniciar os encontros. Ele, então, brincou, dizendo que só poderíamos fazer as oficinas embaixo de uma árvore do estacionamento – e, quando deu por si, lá estávamos iniciando as aulas. Essa árvore se tornou um ponto de reflexão em momentos desafiadores, marcando o início do que estamos construindo.
Foi naquele local que também criamos nossas primeiras ações, e não nos deixávamos abater quando a chuva atrasava nossos planos. Nós nos reuníamos quando a chuva dava uma trégua. E assim ficamos, por uns meses, sem desistir. Aos poucos, fomos imprimindo nossa identidade, ganhando espaço (inclusive físico, com uma sala emprestada) e desenvolvendo parcerias dentro e fora da escola.
Apoio dos profissionais do Sistema de Garantia de Direitos
Sempre acreditei que ninguém faz nada sozinho e que é preciso estreitar a rede que faz parte da escola. Eu já trabalhei no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e vejo nos profissionais do SGDCA (Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente) um grande apoio. Tanto que o carro-chefe do projeto é a peça “Bullying é coisa séria”, composta de cenas que retratam diferentes tipos de bullying, como o físico, o verbal e o virtual.
Durante a criação, e mesmo depois, os estudantes têm encontros periódicos com o psicólogo do CRAS da região, a fim de conversar sobre o assunto e entender melhor os efeitos que essas violências podem causar.
O bate-papo os prepara para um debate com outros estudantes da rede: já apresentamos a peça na prefeitura de São Roque e na Câmara de Vereadores (onde recebemos moções honrosas), e devemos, agora no segundo semestre de 2024, começar a levar o espetáculo, seguido dessa proposta de conversa “de estudante para estudante”, a outras escolas do município, públicas e privadas.
Sabemos que os jovens se sentem melhor e mais acolhidos quando se expressam e são igualmente acolhidos. Tamanho é o estímulo dos estudantes que esse combo, peça e debate, ganhou o nome de “Fala sério! Bullying? Tô fora!”.
Todos os dias, durante um mês, os estudantes selecionavam frases contra o bullying e escreviam nos quadros auxiliares em cada sala de aula da escola. Paralelamente, foi criado um mural coletivo, cuja proposta era que os estudantes da escola escrevessem o que quisessem sobre o assunto ou como se sentissem a respeito.
Foi incrível e impactante testemunhar tantas frases de incentivo, motivação aos que sofrem violências e, ao mesmo tempo, ler denúncias sendo feitas. Como resultado desse trabalho, fomos reconhecidos com o prêmio Educação para a Gentileza e Generosidade, e queremos que a turma se torne propagadora da cultura de paz também fora da escola.
Clique na imagem para conferir uma galeria de fotos:








O que é preciso para realizar o projeto?
Trabalhamos com foco em acolhimento, respeito, gentileza, segurança, escuta ativa, generosidade, liberdade de expressão de ideias e pensamentos. Escutar e entender o que o outro quer e precisa é um dos fatores primordiais para o bom andamento do projeto. A valorização de como cada um é e o respeito por isso faz com que tenhamos relacionamentos sadios e sinceros dentro do “TBT – Tibério no Teatro”. Eu prezo muito por isso. Prezo muito por isso.
O projeto se descentralizou da minha figura de professora e se dividiu em muitas lideranças, que protagonizam e se responsabilizam por suas áreas afins. Vale ressaltar que as lideranças foram escolhidas pelo próprio grupo, já que primamos sempre pela autonomia dos participantes nos processos.
Com a peça, foi possível propor e desenvolver outras ações em nossa escola, sempre com intuito de conscientizar e levar à reflexão toda a comunidade escolar, tais como:
- “Um dia de batalha para muitos de guerra – ação antirracista no Tibério”, que mostrou, por meio de várias manifestações artísticas, a força e a grandeza da cultura negra e suas vertentes, como o hip hop;
- “Água – preservar para não faltar”, ação para conscientizar sobre a importância de economizar a água do planeta.
Percebemos que, além das peças que encenamos (entre elas, além de Bullying é coisa séria”, fizemos “Deus é negro”, “A corrente do bem” e “Abuso não é brincadeira”, esta última a pedido do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, o CMDCA), as outras atividades causavam impacto em nossa escola e que conseguimos, juntos, atingir outros estudantes.
Para nós, é fundamental a participação das famílias. Por isso, criamos o “Show de Talentos”, em que as famílias puderam participar e conferir os talentos de dentro e fora da escola, em clima de festa e alegria, coisa que não se vivia há alguns anos. Isso nos impulsionou a fazer o evento “Uma noite estrelada”, que reuniu mais de 150 pessoas da comunidade, em uma quinta à noite chuvosa na escola, para assistir às apresentações dos seus filhos e filhas do TBT.
São encontros como esse que mostram como o projeto atinge as famílias positivamente, por meio das transformações vistas em suas crianças. Meus alunos me ensinam, todos os dias, a amar mais e a querer um mundo melhor para todos nós.
Conexão com a BNCC
Este projeto está alinhado com as orientações curriculares, como a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) de Arte. O teatro, em particular, é utilizado como uma ferramenta pedagógica para promover a cidadania e ampliar o repertório cultural dos estudantes. De acordo com os PCNs de Arte, o teatro visa desenvolver um maior domínio corporal, tornando-o expressivo, aprimorando a verbalização, aumentando a capacidade de resposta a situações emergentes e melhorando a organização temporal.
A arte como metodologia de ensino traz diversas expectativas e possibilidades. Ela permite chamar a atenção para temas específicos, abordar questões polêmicas, incentivar a reflexão e o questionamento de padrões estabelecidos. Além disso, promove o trabalho em grupo, o respeito às diferentes formas de pensar, e o contato com diversas manifestações culturais. Ao trabalhar com a diversidade, direitos e deveres, pensamento crítico, protagonismo, lideranças positivas e o cuidado de si e do outro, a arte enriquece significativamente o processo educativo.
Assim, a proposta não só enriquece a formação artística dos estudantes, mas também contribui para o seu desenvolvimento integral, alinhando-se com as diretrizes curriculares nacionais e promovendo uma educação mais completa e inclusiva. Por meio da arte, buscamos preparar os alunos para os desafios do século 21, capacitando-os a serem cidadãos ativos, críticos e criativos em uma sociedade em construção.


Ana Paulo Belmiro uma excelente profissional projeto maravilhoso.
Ana Paula é uma professora extremamente importante para todos do teatro e para os alunos dela, com esse projeto ela mudou muitas vidas, inclusive a minha.
Ela é a melhor professora de teatro que alguém já pode e poderia ter. Além de ser uma excelente profissional.
Sei que muita gente a ama como eu amo.
GENTE, VOCÊS SABEM QUE DIA É HOJE?
DUA DE CONQUISTAR O MUNDO!!!!!
A Professora Ana Paula faz um trabalho incrível com os alunos através do teatro.
Parabéns colega, você fez a diferença em nossas escola.
Muito bom projeto maravilhoso
Fantástica a maneira como a professora Ana Paula aborda, através do teatro, os temas como bulling, racismo e outras formas de preconceito. Parabéns!!!