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Inovações em Educação

Avaliação de professores precisa apoiar formação 

Experiências de outros países ajudam a encontrar caminhos para aperfeiçoar o trabalho de quem já está na sala de aula e promover o ingresso de novos profissionais na carreira

por Marina Lopes / Vinícius de Oliveira 31 de março de 2016

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Este conteúdo faz parte da
Série Formação de Professores

Bons professores provocam impactos significativos na aprendizagem dos alunos. Apesar das pesquisas já terem reconhecido a importância do papel desempenhado por esses profissionais, a maioria dos sistemas educacionais ainda têm dificuldade de encontrar uma medida justa para avaliar a qualidade docente, tanto para aperfeiçoar o trabalho de quem já está na sala de aula como para promover o ingresso de novos profissionais na carreira.

Ao fazer uma análise dos países com melhores resultados no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), promovido pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), um relatório da consultoria McKinsey & Company destacou que as experiências desses sistemas educacionais reafirmam a importância de selecionar bons profissionais e apoiar o seu desenvolvimento.

Na Coréia do Sul, um dos países que aparecem no topo dos rankings internacionais, os interessados em ingressar na carreira docente devem passar por uma avaliação minuciosa. O processo é composto por três etapas, que envolvem um teste com questões de múltipla escolha, uma prova discursiva e, por fim, a apresentação de uma aula demonstrativa para um comitê de especialistas e gestores escolares. De acordo com o estudo “Catching up: Learning from the Best School Systems in East Asia” (“Aprendendo com os Melhores Sistemas Educacionais na Ásia Oriental”, em livre tradução), publicado pelo Grattan Institute, entre 2008 e 2011, apenas 23% dos candidatos foram aprovados, o que pressiona a melhora na qualidade dos cursos ofertados pelas instituições formadoras.

“Criar exames para graduados no ensino superior antes que eles comecem a ensinar nas escolas é um medida que garante padrões específicos que precisam ser atendidos. E também representa um mecanismo importante para que tomadores de decisão influenciem e desenvolvam as faculdades de educação e os cursos que elas oferecem”, diz o texto.

Em outras palavras, assim como testes para estudantes influenciam o currículo e a pedagogia nas escolas de educação básica, exames para ingressar na carreira de professor influenciam o currículo e a pedagogia nas instituições de educação. Em diversas ocasiões, descreve o estudo, as intuições de educação sul-coreanas adaptaram seus cursos às mudanças determinadas pelo Ministério da Educação para os exames.

Para ser professor no Japão também é necessário passar por um rigoroso processo seletivo, em que os contratados são apenas os mais bem classificados. Entretanto a avaliação japonesa não é feita por meio de um exame nacional, mas é determinada entre as prefeituras. Já em países como a Finlândia, onde existe um controle muito forte sobre a formação inicial, é mais fácil avaliar potenciais professores antes do ingresso na faculdade.

“Uma avaliação de professores (que também chamamos de filtro) pode acontecer em um ponto específico deste caminho ou em diversos momentos, dependendo de como o sistema está organizado”, explicou ao Porvir Katie Roberts-Hull, consultora sênior da organização social australiana Learning First, que se dedica a melhorar sistemas de educação. Para ela, o ideal seria avaliar os professores após acompanhar as suas aulas por alguns anos. “Isso se mostra difícil em muitos sistemas porque é difícil dispensar um professor ruim uma vez que ele tenha começado a ensinar, mas é possível”, diz.

No sistema educacional australiano, as mudanças nas políticas de avaliação estão focando no acompanhamento periódico dos professores, incluindo planejamento, coleta de dados e entrevista, que servem para traçar um plano de desenvolvimento profissional.

A busca por uma medida justa
Quando o assunto é avaliação docente, um dos grandes desafios é conseguir definir uma medida justa de avaliação. Muitos profissionais e representantes sindicais demostram resistência, alegando que a estratégia responsabiliza o professor sem considerar as condições de trabalho e os problemas estruturais de um determinado sistema educacional. Por conta disso, especialistas também defendem que a qualidade docente não pode ser aferida apenas pelos resultados educacionais de avaliações dos alunos.

No Brasil, não é diferente. A ideia de avaliar professores é questionada por diversos setores. Prova disso são as polêmicas geradas pela tentativa do Ministério da Educação de fazer um exame nacional para ingresso na carreira, que desde de 2010 divide opiniões entre profissionais da área. Outras tentativas de algumas redes de oferecer bonificações para educadores com melhores resultados já enfrentaram oposição.

Para Suely da Silva Rodrigues, que é doutora em educação pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e trabalha no Centro de Avaliação da Fundação Cesgranrio, ainda estamos engatinhando nessa área, mas é importante que qualquer decisão seja acordada com os professores. “Não pode ser uma coisa imposta de cima para baixo, sem que esteja claro o que está sendo avaliado”, defende.

De acordo com ela, o importante é não limitar a avaliação docente a uma prova de conteúdo. Experiências de outros países apresentam outras estratégias para serem incorporadas no processo de avaliação, como análise do portfólio dos alunos, verificação das atividades desenvolvidas e observação de aulas. Conforme referências do pesquisador Martin Carnoy, a doutora em educação também menciona que o período pelo qual o professor concursado passa antes de se tornar efetivo, o chamado estágio probatório, deveria ser melhor acompanhado. “Não para reprovar e dizer ‘você não é bom’, mas para aprimorar o trabalho do professor”, explica.

Suely cita que o Chile pode ser um exemplo interessante para inspirar esse acompanhamento do trabalho docente. No sistema chileno, os professores são submetidos a uma avaliação a cada quatro anos, o que inclui a análise de portfólios, entrevista, observações dos gestores da escola e uma autoavaliação dos próprios educadores. Com base nesses critérios, eles são classificados em quatro níveis: destacado, competente, básico ou insatisfatório. Enquanto os que ficam nos dois primeiros níveis recebem uma bonificação no salário, os professores que estão no básico e insatisfatório recebem apoio para melhorar, passando a contar com uma espécie de coaching.

Para que o processo de avaliação seja justo,  a doutora em educação também menciona que os professores devem saber quais são as competências requeridas dele. Assim como ela, José Fernandes de Lima, presidente da comissão de formação de professores do Conselho Nacional de Educação, afirma que é preciso ter em mente quais são as competências e habilidades consideradas importantes para o exercício da profissão.

Segundo ele, as diretrizes curriculares para os cursos de formação trazem algumas pistas disso. “Ele precisa saber atuar de forma ética dentro da escola, compreender qual é o seu papel enquanto formador dos estudantes, dominar os processos de promoção de aprendizagem, ter conhecimento específico e foco nos assuntos que pretende ensinar”, menciona, ao destacar alguns dos itens citados pelo documento.

Antes de pensar sobre a definição de qualquer medida, José Fernandes diz que é preciso ter condições para fazer uma boa avaliação da própria educação básica. “O caminho para avaliar a atuação dos professores passa pela definição do que nós entendemos que é uma educação de qualidade. Existem algumas pessoas que gostariam de transformar isso em um teste. Na realidade, isso não é tão simples de fazer.”

Entre as estratégias de avaliação que ajudam a verificar o trabalho docente, ele sugere que os novos profissionais e os professores em atuação estejam envolvidos com a elaboração do Projeto Político Pedagógico das suas instituições. Nesse momento, os educadores podem estabelecer metas e ter uma noção clara do que se espera do seu trabalho ou até mesmo a sua trilha de desenvolvimento profissional.

A estratégia de criação de pactos entre professores e gestores está sendo adotada em países como Singapura, que também aparece entra as primeiras posições de rankings internacionais. No começo do ano letivo, o professor cria com um supervisor (chefe de departamento ou vice-diretor), um plano de formação e de desenvolvimento que é alinhado com o governo federal, a escola e seus departamentos. Em um segundo momento, a mentoria é oferecida até o restante do ano para ajudar o professor a atender suas metas. Na fase de avaliação, perto do final do ano, o supervisor, o professor e um outro funcionário externo realizam uma entrevista, que o demonstra como atingiu suas metas.

“Quando as escolas forem capazes de estabelecer metas e trabalhar a motivação das pessoas, aí será fácil medir o desempenho”, conclui José Fernandes.

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avaliação, formação continuada, formação inicial, série formação de professores