Desde que Salman Khan colocou suas videoaulas pelo YouTube e se tornou um professor assistido mais de 280 milhões de vezes, a metodologia da sala de aula invertida tem se tornado cada vez mais popular. Afinal, podia ser uma boa ideia oferecer aos alunos recursos para que tivessem contato com a teoria primeiro, de casa, e deixar para a escola os momentos de discussão e de aprendizado mais profundo. Uma pesquisa realizada na Faculdade de Educação de Stanford, no entanto, mostra que a experiência educativa pode ser muito mais efetiva se, em vez de aprender de casa, o primeiro contato com determinada disciplina pode ocorrer a partir de atividades práticas, com experiência e investigação. É a reinversão da sala de aula invertida – ou, em inglês, “flip the flipped classroom”.
“Quando se tem uma intuição na educação, é preciso fazer uma pesquisa antes de defendê-la. Foi isso que fizemos com a sala de aula invertida. Ela é uma boa ideia, mas com mais uma inversão no início do processo, ela pode ficar melhor”, disse hoje o brasileiro Paulo Blikstein, professor assistente de Stanford, durante o seminário Estratégias para superar as desigualdades educacionais brasileiras, promovido pela Fundação Lemann. Blikstein é um dos responsáveis pela pesquisa, junto de seu aluno de doutorado Bertrand Schneider.
O recém-lançado estudo Preparing for Future Learning with a Tangible User Interface: The Case of Neuroscience (Preparando-se para a aprendizagem futura com uma interface tangível para o usuário: O caso da neurociência, em livre tradução) mostra que o aprendizado iniciado com a prática pode ser 25% maior do aquele que começa com conceitos abstratos.
Participaram do estudo 28 alunos de graduação, nenhum dos quais tinha tido aula de neurociência anteriormente. Eles foram divididos em dois grupos: metade foi submetido à metodologia da sala de aula invertida e metade ao método que reinverte a sala de aula. No início, todos fizeram um teste sobre conhecimentos de neurociência. Na sequência, o primeiro grupo leu sobre o assunto, enquanto o segundo teve contato com uma ferramenta digital interativa chamada Brain Explorer, que mostra como o cérebro humano processa imagens. No fim dessa etapa, os alunos fizeram uma prova e os que tiveram acesso à atividade exploratória obtiveram nota 30% superior à dos colegas que leram sobre o assunto.
Os grupos, então, trocaram de atividade. Os que tinham lido puderam manipular o Brain Explorer e os que haviam trabalhado com a ferramenta foram ler sobre o assunto. Quando um novo teste foi aplicado, o grupo que tinha sido introduzido ao assunto com uma proposta “mão na massa” voltou a ter nota maior, dessa vez 25% superior do que os outros colegas. Para tirar a prova dos nove, os pesquisadores fizeram todo o experimento novamente usando videoaulas em vez de textos e o resultado foi similar.
De acordo com Blikstein, o estudo não testou grupos de idades diferentes e em assuntos variados. No entanto, ao considerar experimentações semelhantes que chegaram à conclusão parecida, a pesquisa mostra um “forte indício” de que a prática antes da teoria tem um efeito melhor no aprendizado. “O que defendemos é a difusão do aprendizado por projeto, a oportunidade de aprender com mão na massa, de explorar um problema”, afirma o brasileiro, que comanda os FabLabs, um programa que leva laboratórios de ciência de ponta a escolas e permite que os alunos aprendam fazendo as mais diferentes disciplinas – o chamado aprendizado baseado em projeto. “Nós estamos mostrando que experiência, investigação e resolução de problemas não são apenas ‘coisas legais’ de se ter em sala de aula. São mecanismos de aprendizado poderosos que melhoram a performance dos alunos todas as vezes que medimos”, afirmou ele.
Em um editorial assinado no The Stanford Daily, Blikstein e outros dois colegas de pesquisa, Bertrand Schneider e Roy Pea, defendem que o uso de tecnologias educacionais ajuda a oferecer melhores oportunidades de aprendizado aos alunos. “Esses resultados invertem o modelo de sala de aula invertida. Eles sugerem que os estudantes estão mais bem preparados para entender e apreciar a elegância de uma teoria ou de um princípio quando exploram inicialmente a questão por eles mesmos. Novas tecnologias, particularmente ferramentas e interfaces tangíveis, servem bem a esse propósito”, disseram.
No texto, o trio defende a sala de aula invertida, mas faz um alerta: é preciso atentar para a forma como ela é usada. “Com esse estudo, estamos mostrando que a pesquisa em educação é importante porque, às vezes, nossas intuições sobre ‘o que funciona’ estão erradas. A sala de aula invertida vai na direção certa: precisamos de menos aulas expositivas e mais experiências práticas. No entanto, ao não prestar atenção a pesquisas, estamos usando o que é uma boa ideia de um jeito errado.” E concluem com uma alfinetada: “pesquisa em educação é vital para melhorar nossas escolas. Intuição é bom, mas ciência é melhor”.


Estudo interessante.
Estudo interessante.
Muito interessante! Esta demonstração deve ser realizada em mais locais para “contaminar” mais gestores e educadores.
Se precisou mais de 100 anos para chegar nessa conclusão o sistema educacional realmente tem problemas muito sérios.
Como unschooler era inevitável eu também chegar na mesma conclusão do estudo, porém tinha 13 anos de idade na época, e não tinha phd nenhum.
Se coisas obvias estão sendo redescobertas depois de gerações, quer dizer que em algum momento escolhemos esquecelas por algum motivo. As seguintes gerações acabaram repetindo e não questionando, até porque fizemos do sistema educacional o funil que levaria a tão desejada cenoura do sucesso profissional da classe média.
Por um tempo funcionou, porque a estrutura desenhada para a sociedade era uma pirâmide, onde precisava ter uma multidão de obedientes, seguidores, não questionadores.
Agora a estrutura e a dinâmica de comunicação dá sociedade mudou, e manter a pirâmide está ficando cada vez mais difícil.
Uma sociedade com topologia de rede, complexa, dinâmica e incerta onde a riqueza não está mais somente nos átomos, agora precisa de questionadores e de pessoas que em sua infância não foram roubadas da sua natural curiosidade e nem das suas estratégias organicas e biologicas de aprendizagem.
Eu prefiro que a sociedade pareça mais com uma floresta com sua diversidade e sem fim de desafios e perigos do que uma fazenda.
Lamento só pela geração perdida que potencialmente vai sofrer porque alguém vendeu a ideia de que um mundo estável e planejado e ao invés de ensinar a aprender e a pensar, ensinaram conteúdo e tiraram o tesão de aprender. E por aquelas que perdemos como sociedade o potencial que elas teriam para dar se elas não tivessem tido a sua autoestima destruída por um sistema estruturado para filtrar e não para desenvolver.
Então que bom que estamos redescobrindo o óbvio e espero que a história não se repita. O custo de escalar sistemas que geram efeitos indesejáveis é gigantesco e vamos precisar ainda de várias gerações para nós recuperar.
Acredito em aprendizagem guiada pela curiosidade, pelo interesse, e em promover ambientes onde isso aconteça de forma natural, voluntária não compulsória e onde a definição de sucesso e progresso seja individual e não guiada por um curriculum, até porque os curriculos na maior parte dos casos estão desatualizados ou fornecem visões miopes da realidade.
Apesar do estudo ser interessante, essa não é uma metodologia nova. Lembram do mestre Miyagi do filme Karatê Kid? A metodologia chama-se ShuHaRi. https://martinfowler.com/bliki/ShuHaRi.html
Realmente, também acredito que aprendemos mais fazendo, porém, precisamos nos atentar também a quantidade de alunos que atenderíamos no projeto para que não saia do jeito inadequado.