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Sem provas e com autonomia, Amorim Lima faz 10 anos

Na escola municipal paulistana, alunos de séries diferentes estudam na mesma sala, sem paredes, e de forma colaborativa

A história da escola municipal de educação fundamental Desembargador Amorim Lima, localizada na zona oeste de São Paulo, possui um marco bem definido: o ano de 2003. Mesmo tendo sido fundada no final da década de 50, foi no início dos anos 2000 que ela iniciou o maior processo de transformação da sua história. A unidade deixou de ser mais uma escola a compor a rede de educação do município, para ganhar uma identidade própria. Passou a não mais separar os alunos por série, não aplicar mais provas e ter um currículo extremamente flexível.

E as motivações para a mudança eram claras. Além do número elevado de professores que faltavam diariamente, os próprios estudantes tinham pouco interesse em frequentar a escola. O índice de ausência nas aulas de matemática, por exemplo, era superior a 50% nas turmas finais do ensino fundamental. Com esses problemas que comprometiam a aprendizagem dos alunos, membros da comunidade escolar – especialmente os pais – perceberam que precisavam agir contra esse panorama desfavorável. Era preciso mudar.

Mas para que a mudança fosse efetiva, não havia outro caminho senão repensar a proposta pedagógica, a metodologia de ensino e a própria concepção de escola. “Não sabíamos como fazer, mas sabíamos que, naquele momento, a escola que tínhamos não era a escola que queríamos”, afirma a diretora Ana Elisa Siqueira, que comandou a “revolução” na Amorim Lima.

Crédito gelpi / Fotolia.com

Assim, em agosto de 2003, uma comissão formada pela direção da escola, por pais de alunos e por alguns professores resolveu convidar a psicóloga e consultora educacional Rosely Sayão para analisar a situação da escola e propor medidas efetivas para a melhoria do quadro. Foi quando Rosely introduziu à comunidade o exemplo da Escola da Ponte, de Portugal, uma escola pública criada na década de 70 que adota práticas inovadoras de educação ao priorizar valores como solidariedade e autonomia dos estudantes.

O fato era que o modelo de inspiração era completamente diferente da realidade local. Na escola da Ponte, os alunos não estão divididos por séries, turmas, nem por idade. Eles dividem o mesmo espaço de aprendizagem com professores que funcionam como tutores. Foi esse foco voltado ao aluno que mais cativou a comunidade escolar da Amorim Lima.

Todos juntos, sem séries

“Nos dois primeiros anos de implantação do novo projeto, resolvemos arrancar as paredes do 1º e 2º anos e do 5º e 6º e agrupá-los num mesmo espaço. Para que eles trabalhassem em grupos, sempre de forma colaborativa”, explica Ana Elisa. A nova metodologia de trabalho alcançou todos os 860 alunos da escola já em 2006. Em dois salões (como é conhecido as salas de aulas que abrigam os estudantes), equipes de cinco alunos se juntam como se fosse pequenos grupos de estudo. Os grupos de estudantes, que são do 3º  ao 5º ano, ficam em um salão e os alunos do 5º ao 9º, em outro. Os alunos do 1º e 2º, que ainda estão no ciclo de alfabetização, ficam num espaço em separado.

Nos anos iniciais, a formação das equipes mescla até as séries, ou seja, no grupo de cinco alunos que ficam numa mesma bancada, é possível encontrar estudantes do 4º e 5º juntos. No ciclo final, alunos do 7º ficam apenas com estudantes da mesma série. Os cerca de 40 alunos com necessidade especiais – deficiência auditiva, motora ou intelectual – também fazem parte desses agrupamentos.

Divulgação

Currículo

“As avaliações são feitas pelos professores, a partir do monitoramento do desenvolvimento das atividades feita pelos alunos. Não fazemos provas. Além disso, deixamos de lado as aulas expositivas e esse currículo pré-formatado que a maioria das escolas segue. Flexibilizamos em 100% nossa proposta curricular”, diz Ana Elisa, se referindo aos roteiros pedagógicos propostos pelo novo projeto político pedagógico da escola.

Trabalhados durante os encontros realizados nos dois grandes salões, os alunos têm à disposição apostilas didáticas que apresentam eixos temáticos multidisciplinares ao invés de livros de matérias isoladas. No tema “biografia”, por exemplo, o aluno trabalha aspectos da língua portuguesa, história e geografia numa mesma atividade. E a ordem dos assuntos a serem estudados é sugerida pelo próprio estudante. É o aluno, com a orientação do professor-tutor, que escolhe por onde começar o roteiro de estudos para o seu respectivo nível.

“Com essa lógica, os alunos têm mais autonomia para tomar suas próprias decisões. Eles precisam aprender a ter controle de suas atividades que são sempre feitas em grupo”, diz a professora Luciana Bilhó, que ensina estudantes do 3º ao 5º ano. Além das apostilas temáticas, a presença constante de conteúdos envolvendo a cultura brasileira é outro ponto destacado pelos professores da Amorim Lima. “Enquanto que em outras escolas, a questão da cultura é trabalhada de forma isolada e comemorada em eventos eventuais, na nossa escola ela faz parte da própria lógica do ensino e não faltam festas folclóricas na Amorim”, fala a professora Mirella Araújo.

Diversidade

E para preencher parte da carga horária, os alunos têm a disposição uma série de oficinas. De capoeira, passando pela dança contemporânea e chegando até o latim. Cerca de 40% da carga horaria é trabalhada nos salões, os 60% restantes são preenchidos com essas oficinas, muitas delas oferecidas a partir de parcerias feitas pela escola com entidades voluntárias. “Fizemos uma parceria com o programa de pós-graduação em letras e com o Instituto de Física da USP. Com isso, garantimos aulas semanais de grego, latim e de experimentos em física”, diz Ana Elisa.

“Precisamos comemorar essa nossa grande vitória. Estamos provando cada vez mais que com a força da comunidade, a escola pode mudar. E mudar para melhor”

E não é difícil se deparar com alunos arriscando um “mihi nomen est…” ou “meu nome é… em latim” nos vários espaços de recreação da escola. A aluna do 4º ano Reinará Gonzalez, de 9 anos, foi uma das estudantes que praticava o idioma durante brincadeira com colegas. “Desde do primeiro dia já percebi que eu ia gostar das aulas. Os professores da USP são muito legais”, diz Reinará, que pretende ser desenhista no futuro.

A diversidade de áreas de conhecimento trabalhados na escola e a maneira como eles são colocados aos alunos foram alguns dos motivos que levaram a professora Mônica Brandão a ser professora da unidade. “Durante o meu estágio, em 2005, já descobri que queria trabalhar lá. Então, em 2008, fiz um concurso para ser professora da escola. Aqui, os alunos se tornam cada vez mais brilhantes a cada ano”, diz Mônica. “A escola tem tudo, só falta um a piscina olímpica de 50 metros”, sentencia o aluno Guilherme Oliveira, de 10 anos.

É com esse histórico positivo, que a diretoria, professores e pais já marcaram um dia para a comemoração dos 10 anos de projeto. “Estamos agendando para o dia 9 de novembro a nossa grande celebração. Precisamos comemorar essa nossa grande vitória. Estamos provando cada vez mais que com a força da comunidade, a escola pode mudar. E mudar para melhor”, diz Ana Elisa.

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