Crédito: Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

O que faz com que certos acontecimentos e trajetórias atravessem um século sem perder relevância? O calendário deste ano convida professores e educadores a revisitar nomes que, embora vindos de campos distintos, compartilham um traço comum: a capacidade de influenciar a produção cultural, os referenciais acadêmicos e as configurações geopolíticas do mundo.

De Milton Santos a Marilyn Monroe, de Miles Davis a Fidel Castro, os centenários de 1926 permitem debater território, desigualdades, poder, cultura de massas e resistência.

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➡️. Como era o mundo em 1926?

Mais do que celebrar o passado, as propostas a seguir ajudam a transformar o currículo em um espaço de investigação interdisciplinar. Alinhadas às competências da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), estudar essas personalidades oferece caminhos para converter efemérides em projetos de pesquisa significativos e contextualizados.

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Reunimos materiais de apoio e sugestões de percursos pedagógicos para tratar essas trajetórias como ponto de partida para investigações, debates e produções em sala de aula. Confira!

Centenários (de nascimento e morte)

Milton Santos (1926–2001)
100 anos de nascimento (3 de maio de 1926)

Milton Santos foi um dos mais importantes geógrafos do mundo e referência central da geografia crítica, dedicando sua obra a compreender como o espaço é produzido por relações de poder, economia e política. Ao analisar temas como globalização, urbanização, desigualdades e cidadania, demonstrou que cidades e territórios são construções históricas atravessadas por interesses sociais, e não simples resultados de fatores naturais, perspectiva que segue fundamental para interpretar o Brasil contemporâneo. Único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, em 1994, considerado o “Nobel da Geografia”, Milton consolidou um pensamento que contribui diretamente para a formação de estudantes capazes de analisar o território onde vivem, reconhecer problemas e potencialidades e desenvolver uma visão crítica sobre o direito à cidade e a justiça social.

Em reconhecimento à relevância internacional de sua produção intelectual, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) adotou oficialmente 2026 como o ano do centenário de seu nascimento, reforçando a projeção global de seu legado e sua importância para o campo educacional.

Atividades pedagógicas

  • Mapeamento do bairro ou da cidade 
  • Análise de fotos sobre desigualdade urbana
  • Produção de texto opinativo sobre problemas locais

Para inspirar suas aulas
Entrevista de Milton Santos ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 1997

Filme “Milton Santos – Por uma outra globalização”, de 2004, disponível no YouTube da produtora Caliban


Fidel Castro (1926–2016)
100 anos de nascimento (13 de agosto de 1926)

Líder da Revolução Cubana, Fidel Castro foi uma figura central da Guerra Fria na América Latina. Sua trajetória possibilita estudar disputas ideológicas entre capitalismo e socialismo, o papel das potências globais na região e os impactos sociais, econômicos e políticos das revoluções. Também abre espaço para discutir propaganda, censura, direitos e os limites entre autoritarismo e democracia.

Atividades pedagógicas

  • Construção de uma linha do tempo com os principais eventos da Revolução Cubana
  • Leitura comparada de fontes e perspectivas sobre Cuba
  • Debate sobre democracia, autoritarismo e liberdade

Para inspirar suas aulas
Coletânea – Guia do Estudante – Tudo sobre Fidel Castro
Documentário – “Cuba, a revolução e o mundo”, disponível no Canal Curta! (classificação indicativa: 14 anos)


Marilyn Monroe (1926–1962)
100 anos de nascimento (1 de junho de 1926)

Marilyn Monroe tornou-se um dos maiores ícones da cultura de massas do século 20, representando a força da indústria cultural na criação de mitos e padrões de beleza. Sua trajetória revela contradições entre imagem pública e vida privada, além das pressões enfrentadas por mulheres no cinema e na sociedade. A distância entre personagem pública e vida privada permite discutir estereótipos de gênero e objetificação.

Atividades pedagógicas

  • Análise de capas de revistas e cartazes
  • Debate sobre padrões de beleza
  • Criação de campanha sobre autoestima e diversidade

Para inspirar suas aulas
Reportagem – Os mistérios que ainda persistem sobre a morte de Marilyn Monroe
Documentário – “O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas”, disponível na Netflix (classificação indicativa: 16 anos)


Miles Davis (1926–1991)
100 anos de nascimento (26 de maio de 1926)

Miles Davis foi um dos músicos mais influentes do século 20 e transformou o jazz em diferentes fases de sua carreira. Sempre inovador, rompeu padrões estéticos, lançou novos talentos e criou subgêneros como cool jazz, modal jazz e jazz fusion. Sua obra mostra como a música pode ser espaço de inovação, identidade cultural e resistência, especialmente da população negra. Trabalhar sua trajetória permite abordar a arte como linguagem viva, em diálogo com transformações sociais e políticas.

Atividades pedagógicas

  • Escuta guiada de músicas de diferentes fases da carreira, com comparação entre estilos
  • Pesquisa sobre a história do jazz
  • Produção de apresentação musical ou multimídia

Para inspirar suas aulas
Site oficial – Miles Davis
Documentário – “Miles Davis, o inventor do cool”, disponível no YouTube filmes (classificação indicativa: 16 anos)


Elizabeth II (1926–2022)
100 anos de nascimento (21 de abril de 1926)

Elizabeth II foi rainha do Reino Unido por mais de 70 anos, período de grandes transformações políticas, sociais e culturais. Seu longo reinado permite discutir a monarquia em sistemas democráticos, o papel simbólico da realeza e o equilíbrio entre tradição e modernidade. A trajetória da rainha também oferece caminhos para analisar o passado colonial britânico, a geopolítica e a construção midiática da imagem do poder.

Atividades pedagógicas

  • Comparação entre sistemas de governo (monarquia e república)
  • Análise de notícias e imagens da família real
  • Produção de quadros comparativos ou infográficos sobre modelos de Estado

Para inspirar suas aulas
Materiais do Royal Collection Trust (instituição britânica que administra as coleções reais e oferece recursos educativos):

Artigo – Um olhar sobre a vida de Elizabeth II 
Documentário – “Rainha Elizabeth II – Uma Vida de Serviço”


Claude Monet (1840–1926)
100 anos de morte (5 de dezembro de 1926)

Claude Monet foi um dos fundadores do impressionismo, movimento artístico que rompeu com padrões acadêmicos ao buscar registrar impressões visuais imediatas, especialmente os efeitos da luz e da cor na paisagem. Suas pinturas convidam a observar a natureza de diferentes ângulos, horários e atmosferas, mostrando que a percepção do mundo é dinâmica e subjetiva. Trabalhar Monet em sala de aula permite articular Artes, Ciências e História, explorando a relação entre arte e ciência, percepção visual, tempo e observação do ambiente.

Atividades pedagógicas

  • Releituras artísticas inspiradas em paisagens locais
  • Para exemplificar a variação da luz, vale utilizar as séries Catedrais de Rouen ou Ninfeias. Nelas, Monet pintou o mesmo cenário em diferentes horários do dia, capturando como a mudança da posição do sol e o clima alteram completamente as cores e formas de um objeto.
  • Criação de um diário visual com registros de observação do cotidiano

Para inspirar suas aulas
Exposição virtual – Google Arts e Culture
Documentário – “Os impressionistas”, disponível no Canal Curta! (classificação indicativa: livre)
Documentário – “Monet – Magia de Luz e Água”, disponível no Prime Vídeo (classificação indicativa: 10 anos)


Outros personagens do calendário

Simone de Beauvoir (1908–1986)
40 anos da morte (14 de abril de 1986) 

Filósofa e escritora, Simone de Beauvoir é uma das principais referências do feminismo no século 20. Em obras como “O segundo sexo”, criticou a naturalização das desigualdades de gênero e mostrou como esses papéis são construções sociais. Seu pensamento inspira reflexões sobre autonomia, igualdade, liberdade e o papel da educação na transformação social.

Atividades pedagógicas

  • Leitura de trechos selecionados
  • Rodas de conversa sobre estereótipos
  • Campanhas educativas sobre igualdade de gênero

Para inspirar suas aulas
Artigo – Blog Unicamp – Enciclopédia Mulheres na Filosofia
Documentário – “Simone de Beauvoir, uma mulher atual”, disponível no Canal Curta! (classificação indicativa: livre)


Carl Sagan (1934–1996)
30 anos da morte (20 de dezembro de 1996)

Carl Sagan foi astrônomo, cientista e um dos maiores divulgadores científicos do século 20, conhecido por aproximar a ciência do grande público e defender a curiosidade, o pensamento crítico e o método científico como pilares da vida em sociedade. 

Em obras e programas como Cosmos, destacou a responsabilidade no uso do conhecimento. Seu legado fortalece a alfabetização científica e o enfrentamento à desinformação.

Atividades pedagógicas

  • Produção de podcasts ou vídeos curtos de divulgação científica
  • Organização de feira de ciências com foco em perguntas, experimentos e resultados

Para inspirar suas aulas
National Geographic – Quem foi Carl Sagan, o cientista que desvendou o cosmos e combateu a desinformação
Pacto Global da ONU: Discurso de Carl Sagan sobre as consequências do aquecimento global


Muhammad Ali (1942–2016)
10 anos da morte (3 de junho de 2016)

Considerado um dos maiores boxeadores da história, Muhammad Ali também foi um ativista pelos direitos civis nos Estados Unidos. Ao se recusar a lutar na Guerra do Vietnã, tornou-se símbolo de resistência ao racismo e de afirmação da identidade negra. Sua trajetória mostra como o esporte pode ser espaço de mobilização social e política.

Atividades pedagógicas

  • Análise de discursos e entrevistas
  • Produção de biografias
  • Debate sobre esporte, política e cidadania

Para inspirar suas aulas
Documentário – “Qual é o meu nome: Muhammad Ali”, disponível na HBO (classificação indicativa: 14 anos)

Entrevista – Muhammad Ali à BBC em 1971: ‘Mãe, por que tudo é branco?’
Livro – “O Rei do Mundo”, de David Remnick. Publicado na década de 1990, é considerado uma das melhores obras sobre a vida do pugilista.


Umberto Eco (1932–2016)
10 anos da morte (19 de fevereiro de 2016)

Filósofo e semiólogo italiano, Umberto Eco estudou linguagem, cultura de massas e circulação de informações. Antecipou discussões sobre manipulação e desinformação. Sua obra contribui para o desenvolvimento do letramento midiático e da leitura crítica.

Atividades pedagógicas

  • Análise comparativa de notícias verdadeiras e falsas, com identificação de linguagem, fontes e intenções
  • Criação de guia de checagem de informações para a escola
  • Debate sobre liberdade de expressão e responsabilidade na comunicação

Para inspirar suas aulas
Documentário – “Umberto Eco, a biblioteca do mundo”, disponível na Apple TV ou em canais do YouTube

Materiais do Guia do Estudante:  “Os múltiplos olhares de Umberto Eco” e “‘O Nome da Rosa’: saiba como utilizar o filme no vestibular”


Ferreira Gullar (1930–2016)
10 anos da morte (4 de dezembro de 2016)

Poeta e intelectual brasileiro, Ferreira Gullar teve sua obra marcada pela crítica social e pelo enfrentamento à ditadura militar, com destaque para o “Poema sujo”. Sua produção permite discutir o papel da arte em contextos de censura, a relação entre criação estética e engajamento político, além da poesia como forma de expressão de experiências individuais e coletivas. 

Trabalhar a obra de Ferreira Gullar em sala de aula ajuda os estudantes a compreender como a literatura pode ser instrumento de resistência, denúncia e reflexão sobre o país.

Atividades pedagógicas

  • Leitura e análise de poemas, com destaque para temas recorrentes e recursos de linguagem
  • Produção de poemas autorais inspirados em memórias ou questões sociais
  • Organização de sarau ou mostra literária

Para inspirar suas aulas
Documentário – “O Maranhão de Ferreira Gullar”, disponível no Canal Curta!
Companhia das Letras: Ferreira Gullar conta como escreveu “Poema sujo”

Conexões com a BNCC

As propostas deste material dialogam com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que orienta os currículos da educação básica e define as aprendizagens essenciais. Ao trabalhar centenários e marcos históricos como ponto de partida para projetos e debates, é possível desenvolver conhecimentos historicamente construídos, pensamento crítico e criativo, repertório cultural, comunicação em diferentes linguagens e reflexão sobre cidadania. Dessa forma, as efemérides deixam de ser apenas datas comemorativas e passam a integrar práticas que fortalecem a formação integral dos estudantes.

É diretor e editor do Porvir e faz parte da equipe desde 2014. Nesse tempo, já produziu séries sobre formação de professores e guias multimídia sobre temas como educação socioemocional, tecnologia, participação estudantil e aprendizagem prática....

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....

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