A possibilidade de um El Niño de intensidade muito forte, as eleições nacionais, os riscos à presença de adolescentes em plataformas de redes sociais e a campanha de prevenção aos danos das apostas online devem colocar clima, democracia e saúde mental no centro do debate público nos próximos meses. Como esses assuntos também fazem parte do cotidiano dos estudantes, a escola precisa transformá-los em oportunidades de aprendizagem.
Os números dão dimensão a essa urgência. Enquanto 10,5% dos adolescentes afirmam ter feito apostas no último ano, 2,1 milhões de jovens de 16 e 17 anos vão votar pela primeira vez em 2026, o equivalente a apenas 36% dos brasileiros dessa faixa etária.
A agenda do semestre também inclui as preocupações com o fenômeno natural El Niño, que tem mais de 90% de probabilidade de permanecer até o início de 2027, com risco de intensificar enchentes, secas, ondas de calor e queimadas.
Somam-se a esses temas as novas medidas sobre educação política e os 18 anos da Lei nº 11.645/2008, que tornou obrigatório o ensino das histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas, além das novas políticas de educação especial e os entraves geopolíticos atuais. Confira as sugestões do Porvir para aproximar o currículo dos principais debates.
Educação antirracista
Apesar de ser um tema que deve ser trabalhado o ano inteiro, é no segundo semestre que muitas escolas dedicam ações específicas para a educação antirracista. Impulsionadas pelo dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, muitas redes de ensino concentram ações durante o mês inteiro que olham com atenção para as contribuições feitas pelos povos negros e indígenas na construção do país.

Em 2026, a lei 11.645/08, que alterou a lei 10.639/03 incluindo a obrigatoriedade do ensino de história e cultura indígena, além da africana e afro-brasileira nos currículos escolares, completa 18 anos. A maioridade da lei fortalece ainda mais sua importância, servindo como espaço de diálogo e de acompanhamento de atividades feitas nesse segmento.
O MEC (Ministério da Educação) possui ferramentas importantes de apoio ao tema. Um exemplo são os Protocolos de Identificação ao Racismo. Divididos por etapas de ensino, o material traz além de um marco legal e orientações práticas de como agir diante de casos de racismo, também diferentes medidas de promoção da equidade no ambiente escolar.
A inclusão desse tema valoriza as identidades negras e indígenas, assim como cria senso crítico nos estudantes em relação à participação dessa população.
O Porvir trata o tema com atenção e ao longo do ano produz reportagens e conteúdos de apoio para suas aulas que estão alinhadas com o objetivo pedagógico de educar para as relações étnico-raciais.
Materiais para a sua aula
- Guia de ações educativas antirracistas
- Cartilha para uma educação antirracista
- PIA – Primeira Infância Antirracista
- Tabuleiro Antirracista
- Futuro Ancestral na Escola
Eleições
Passada a Copa do Mundo, o Brasil entra no clima das Eleições 2026. Em 4 de outubro, mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores poderão escolher deputados federais, estaduais ou distritais, dois senadores, governadores e o presidente da República. Um eventual segundo turno será realizado em 25 de outubro.
O tema também vem ganhando força na esfera educacional: em 2025, o Ministério da Educação criou o Programa Educação para a Cidadania e para a Sustentabilidade, que prevê a elaboração de uma matriz nacional de saberes, materiais didáticos e cursos de formação para professores.
Em julho de 2026, a Lei nº 15.468 incluiu educação política e direitos da cidadania como componente curricular obrigatório da educação básica. A incorporação do tema à BNCC (Base Nacional Comum Curricular) ainda deverá passar pela aprovação do Conselho Nacional de Educação e pela homologação do Ministério da Educação. Depois disso, redes de ensino e escolas deverão adequar seus currículos e propostas pedagógicas para implementar a medida.
Em meio ao debate nacional, a escola tem um papel importante para que crianças e jovens compreendam o processo eleitoral e possam participar das escolhas políticas.
Materiais para a sua aula
Em Rosário da Limeira (MG), o professor Felipe Briguente Coelho Alves transformou as conversas dos estudantes sobre política em uma experiência prática de educação democrática.No projeto “Quem manda no Brasil?”, alunos do 5º ano criam partidos, participam de eleições, simulam a atuação dos Três Poderes. Com o projeto, Felipe venceu a categoria Anos Iniciais do Ensino Fundamental na 3ª edição do Prêmio Professor Porvir. Na próxima edição, o prêmio também contará com uma categoria dedicada à educação democrática.
Geopolítica e conflitos
As tensões geopolíticas que acontecem atualmente não podem passar despercebidas das aulas, sobretudo de quem está no ensino médio, prestes a ingressar no vestibular. O tema já não é mais algo específico de diplomatas ou analistas políticos e quando os estudantes são apresentados a ele, isso contribui para ampliar sua visão de mundo e criticidade.
Há atualmente diversas disputas por influência, como, por exemplo, entre Estados Unidos e China, ou as diferentes tensões que crescem em países da Europa ou até mesmo a guerra que dura mais de três anos entre Rússia e Ucrânia.

As rusgas envolvendo China e Estados Unidos, por exemplo, não se limitam a ataques físicos. Com a corrida pela supremacia na inteligência artificial, ambos os países seguem em conflitos que envolvem taxação de produtos e componentes usados para melhorar os grandes modelos de linguagem. Com a IA sendo tema dentro e fora da sala de aula, educadores podem conectar as movimentações políticas desses países com o uso cotidiano de plataformas como DeepSeek, de origem chinesa, e Claude, norte-americana.
O já longo conflito entre Israel e a Palestina também continuará no noticiário: recentemente o país ampliou as ofensivas na Cisjordânia, onde há muitos palestinos refugiados. Estima-se que a mais recente guerra, iniciada em 2023, já deixou mais de 70 mil mortos e o Ministério da Saúde Gaza afirma que o número é 35% superior ao relatado oficialmente.
Todos esses conflitos têm impacto em diferentes áreas como economia, tecnologia ou alimentação, para citar alguns exemplos, o que significa uma chance de mostrar como diferentes temas estão interligados, mesmo que não aparentem diretamente.
As disputas afetam preços de produtos e importações, até mesmo em situações cotidianas como o preço dos combustíveis, cadeia de suprimentos ou produtos necessários para construir os celulares que os estudantes usam. Ou seja, mesmo que conflitos estejam acontecendo fora do país, há impactos internos.
O noticiário é um aliado para as aulas e contribui para o desenvolvimento de outros projetos como a definição e identificação de notícias falsas, combate a desinformação e desenvolvimento de pensamento crítico.
Materiais para sua aula
- Nova Geopolítica Mundial – Fundação Fernando Henrique Cardoso
- Disputas geopolíticas: o que você precisa entender sobre o cenário global em 2026
Inclusão
Outro tema que merece atenção nesta segunda etapa do ano letivo é a inclusão. Em termos regulatórios, o país vem construindo um arcabouço legal amplo, que prioriza diferentes questões para a garantia do direito à educação para estudantes com deficiência.
Recentemente, foi promulgada a lei Lei 15.436/2026, que instituiu a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação, criando um cadastro nacional. Na educação, a Portaria MEC nº 421/2026 reforçou a rede de Educação Especial Inclusiva. Agora, a equipe pedagógica poderá observar o aluno no dia a dia, sem esperar um diagnóstico formal, o que demanda uma parceria entre professor e coordenação.
No caso das Altas Habilidades, parte também de uma observação e acompanhamento dos estudantes. Eles terminam a tarefa mais cedo? Questiona muito além do esperado? Ou se entedia facilmente? Esses são alguns sinais que a equipe docente pode ficar atenta. Esses são apenas dois exemplos de como as políticas públicas estão sendo estruturadas para observar a diversidade.

No caso da lei voltada para estudantes com superdotação ou altas habilidades, trata-se de um marco importante que amplia o conceito de inclusão, visto que estudantes superdotados também sofrem com evasão, desmotivação entre outros aspectos emocionais quando as escolas deixam de reconhecê-los ou não os acolhe corretamente.
Reconhecer as diferentes necessidades dos estudantes é um passo fundamental para que todas as pessoas acessem a educação. Neste segundo semestre, o retorno às aulas pode incluir em seu planejamento um olhar atento para as diferenças e como os estudantes podem ser ensinados sobre respeito, convivência e oportunidades.
Materiais para sua aula
- Educação inclusiva e o novo PNE
- Guia sobre inclusão escolar orienta famílias a garantir direitos
- Educação inclusiva: pesquisa reúne boas práticas de 5 países na formação de professores
- Fundação Fernando Henrique Cardoso – Pessoas com Deficiência em Foco
Mudanças climáticas e fenômenos naturais
O ano de 2025 foi classificado pela Organização Meteorológica Mundial como um dos três mais quentes já registrados, com temperatura média global cerca de 1,44 °C acima dos níveis do período pré-industrial. No recém-lançado relatório Estado do Clima Global 2025, a organização também mostra que os 11 anos entre 2015 e 2025 bateram recordes como os mais quentes da série histórica.
Esse aquecimento acumulado cria um contexto ainda mais preocupante para 2026, quando a atuação do Super El Niño poderá ampliar a intensidade de eventos extremos.
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal, alterando a circulação dos ventos, as temperaturas e a distribuição das chuvas em diferentes regiões. Embora não seja causado pelas mudanças climáticas, o fenômeno passa a atuar sobre uma atmosfera e oceanos já aquecidos, combinação que pode agravar ondas de calor, secas, chuvas intensas e incêndios.

Em julho deste ano, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) lançaram seu primeiro Apelo Conjunto de Ação Antecipatória. A iniciativa busca US$ 202 milhões para proteger cerca de 9 milhões de pessoas em 22 países de alto risco contra os impactos previsíveis de um forte fenômeno El Niño na África, Ásia, Pacífico, América Latina e Caribe.
No Brasil, o El Niño foi confirmado em junho e tem probabilidade superior a 90% de permanecer pelo menos até o início de 2027, com possibilidade de atingir intensidade muito forte. As previsões indicam chuvas acima da média e maior risco de enchentes e deslizamentos na Região Sul; períodos mais secos no Norte e no Nordeste; ondas de calor no Sudeste e no Centro-Oeste; além de maior risco de queimadas em diferentes áreas. Esses eventos podem interromper aulas e o transporte escolar, comprometer o acesso à água e à alimentação e prejudicar a saúde e a aprendizagem dos estudantes.
O tema também ganhará destaque durante a COP31, que acontecerá de 9 a 20 de novembro de 2026, em Antalya, na Turquia, e deverá discutir questões como segurança alimentar, saúde, cidades resilientes, educação e participação juvenil.
Materiais para sua aula
- Super El Niño em 2026: o que esperar e porque precisamos nos preparar
- Cadernos de Ciência Cidadã na escola
- A série “Escolas Resilientes”, do Porvir, pode apoiar professores e gestores nessa abordagem ao mostrar como a preparação para as crises climáticas envolve três dimensões: arquitetura e infraestrutura, currículo e apoio socioemocional.
Adolescentes nas redes sociais
Após leis que limitaram o uso de celulares nas escolas, diferentes países têm se dedicado a formular leis que controlem o acesso de adolescentes a plataformas de redes sociais. O uso intensivo de telas e plataformas digitais por crianças e adolescentes deixou de ser tratado apenas como uma preocupação comportamental e passou a ser encarado como uma crise de saúde pública.
Entidades médicas, como a Academy of Medical Royal Colleges no Reino Unido, comparam os impactos do tempo de tela excessivo aos riscos do tabagismo e da ausência do cinto de segurança. O consenso entre clínicos é que a exposição descontrolada a algoritmos e ambientes virtuais afeta diretamente a saúde mental e o desenvolvimento social dos jovens.
Estudos e relatórios clínicos destacam o aumento de casos de ansiedade, distúrbios de sono, isolamento social e hiperconexão, além dos perigos associados ao cyberbullying e à exposição a conteúdos inadequados.

A Austrália despontou como pioneira nessa frente ao aprovar o banimento total do uso de redes sociais para menores de 16 anos. Acompanhando essa tendência, a França aprovou uma lei que proíbe o acesso e a criação de contas por menores de 15 anos sem comprovação de idade, além de estender a proibição do uso de celulares para o ensino médio, medida que já vigorava no ensino fundamental. No Reino Unido, além da consulta pública sobre o banimento total de plataformas para menores de 16 anos, o governo também avalia a implementação de uma espécie de toque de recolher digital, visando dificultar o acesso e o uso de redes sociais por jovens de 16 e 17 anos no período entre meia-noite e 6h da manhã.
Materiais para sua aula
- Algoritmos e autoestima: projeto desafia estudantes a questionar a construção de identidade no mundo digital
- Educamídia – O que são algoritmos e como eles funcionam?
- Guia para escolas – Conscientização para o uso de celulares na escola: por que precisamos falar sobre isso?
- Guia para famílias | Celulares e escola: um diálogo que também precisa acontecer em casa
- Safernet – Ciberbullying é da minha conta?
Saúde mental e bets
Em meio ao retorno do Campeonato Brasileiro, o Ministério da Saúde acaba de lançar a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online. A iniciativa alerta para os riscos do uso problemático das plataformas conhecidas como “bets” e divulga os serviços de saúde mental oferecidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde) a apostadores e familiares. Disponíveis 24 horas por dia nos celulares, esses aplicativos utilizam notificações, bônus, apostas ao vivo e recompensas variáveis para estimular a permanência dos usuários e a repetição das apostas.
O tema merece atenção especial das escolas porque adolescentes estão cada vez mais expostos à publicidade das casas de apostas, principalmente durante partidas de futebol. Dados divulgados pelo governo federal indicam que 10,5% dos adolescentes apostaram no último ano e que parte deles acessa sites ilegais, embora as plataformas autorizadas sejam restritas a maiores de 18 anos e exijam CPF e reconhecimento facial. A facilidade de escanear um QR Code ou clicar em um anúncio pode expor os jovens a perdas financeiras, coleta de dados pessoais e comportamentos de dependência.
As apostas ao vivo ampliam esses riscos ao transformar cada gol, falta ou expulsão em uma nova oportunidade de jogar. As cotações, chamadas de odds, mudam rapidamente, incentivando decisões impulsivas e emocionais. Entre adolescentes, os efeitos podem ser ainda mais graves, já que o cérebro está em desenvolvimento e é mais sensível aos mecanismos de recompensa. Irritabilidade, ansiedade, pensamentos fixos no jogo, dificuldades financeiras e conflitos familiares estão entre os possíveis sinais de uso problemático.
Materiais para sua aula
A escola pode contribuir para a prevenção ao abordar o tema de maneira interdisciplinar, relacionando educação financeira, saúde mental, cidadania digital e matemática. No Prêmio Professor Porvir de 2026, o professor José Carlos da Silva Júnior, de Pernambuco, foi reconhecido pelo projeto Jogo do tigrinho na escola? Projeto de matemática vira antídoto para apostas online. A iniciativa utiliza conceitos de probabilidade para discutir os riscos das apostas online.

