As crianças já falam de política. Repetem frases ouvidas em casa, comentam notícias e debatem candidatos no recreio. O que muitas vezes falta é transformar essa conversa solta em aula estruturada, com perguntas claras, registro na lousa e reflexão orientada.
O Programa de Iniciação à Democracia, PROID, nasceu dessa necessidade de ensinar democracia em encontros frequentes, com debates organizados, votação real, regras e processos de avaliação.
Em 2023, na Escola Municipal Maria Auxiliadora Guarçoni Benini Bonato, em Rosário da Limeira (MG), percebi que meus alunos do 5º ano falavam de política com desenvoltura, mas sem explicar as funções de cada autoridade. Reproduziam opiniões ouvidas em casa ou na televisão. Alguns diziam: “O presidente manda em tudo”, “Quem decide as leis é o prefeito” ou ainda “Juiz prende quem ele quiser”. Mas, quando eu perguntava quem realmente fazia as leis ou como um juiz tomava decisões, as respostas se tornavam vagas.
A seguir, detalho o percurso que utilizei nestes anos para que outros educadores possam adaptar a experiência, e também disponibilizo aqui a sequência didática em PDF.

A escuta como ponto de partida
Antes de explicar qualquer conteúdo, escrevi na lousa três perguntas:
— Quem manda no Brasil?
— Quem faz as leis?
— Quem decide quando alguém descumpre uma regra?
Informei que naquele momento não corrigiria as respostas. Queria apenas registrar o que pensavam.
Anotei exatamente as frases:
— “Quem manda no Brasil é o presidente sozinho”
— “As leis são feitas por quem ganha a eleição”
— “Quando alguém descumpre uma regra, a polícia decide o que fazer”.
Quando acrescentei a pergunta “Pode fazer tudo sozinho?”, o silêncio foi imediato. A ideia de limite institucional ainda não fazia parte do repertório deles. Guardei esse registro para retomar ao final do semestre.

Planejamento com tempo definido
O PROID é um percurso de educação democrática desenvolvido ao longo de um semestre letivo que articula estudo, prática e participação. Nesse processo, os estudantes não precisam dominar termos técnicos, mas aprendem a reconhecer conflitos, compreender a existência de regras, perceber que decisões impactam outras pessoas e aceitar que nem tudo depende da vontade individual.
O projeto se organiza em três movimentos: entender como funcionam as instituições democráticas, participar de processos de decisão e assumir responsabilidade pelas escolhas feitas. Está estruturado em 16 semanas, com dois encontros semanais de 50 minutos, sem interrupção do restante do currículo.
Ao final, os estudantes chegam ao 6º ano com base suficiente para realizar simulações dos Três Poderes em outra complexidade, sem que isso substitua o papel central do trabalho desenvolvido no 5º ano.
Ao longo do semestre, os alunos se organizam em grupos, criam partidos fictícios, elaboram propostas, planejam campanhas, participam de debates, votam, acompanham a apuração e integram instâncias de governança mirim. Vivenciam, assim, diferentes papéis e compreendem, na prática, que democracia não se resume ao ato de votar.
O percurso integra o planejamento anual e dialoga com História, ao abordar a organização do Estado brasileiro, com geografia, ao discutir a divisão política do território, e com língua portuguesa, ao trabalhar produção argumentativa e organização do discurso. A metodologia é ativa, participativa e baseada na experiência, com decisões reais que favorecem reflexões sobre consequências, responsabilidades e convivência democrática.
Entendendo os Três Poderes
Em vez de começar pela estrutura federal, tratei da realidade escolar. Perguntei quem decidia que não se podia correr no corredor, quem resolvia conflitos entre colegas e quem poderia alterar regras internas.
Desenhei três colunas na lousa com os nomes Executivo, Legislativo e Judiciário. Sob cada uma, mantive três perguntas fixas durante semanas: o que faz, quem ocupa e se tem limite.
Expliquei que o Poder Executivo é exercido pelo presidente da República no plano nacional, pelos governadores, nos estados, e pelos prefeitos, nos municípios, sendo responsável por executar as leis. O Poder Legislativo, exercido por deputados federais e senadores no Congresso Nacional, cria e modifica leis. O Poder Judiciário, composto por juízes e ministros de tribunais superiores como o Supremo Tribunal Federal, julga conflitos e garante o cumprimento da Constituição e das leis existentes.
Escrevi por extenso o significado da sigla STF, Supremo Tribunal Federal, e expliquei que se trata da instância máxima do Judiciário brasileiro.
A cada explicação, voltávamos às perguntas sobre limite. Pode decidir sozinho? Quem fiscaliza? A ideia de equilíbrio entre os Poderes foi construída gradualmente. Só avancei quando ouvi um aluno explicar para outro, com suas próprias palavras, a função de cada Poder.
➡️ Leia também: A separação dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário

Da teoria à criação de partidos
Com a base conceitual consolidada, organizei a turma em partidos políticos fictícios. Cada grupo escolheu nome, número e símbolo, apresentando propostas por escrito.
Quando os grupos começaram a elaborar propostas para seus partidos, surgiram ideias como construir uma piscina na escola ou criar um cinema para os alunos. Em vez de descartar imediatamente, aproveitei o momento para perguntar quem poderia tomar esse tipo de decisão e escrevi na lousa a pergunta “depende de quem?”.
A partir daí, conversamos sobre quais responsabilidades pertencem à escola, à prefeitura e ao governo federal. O diálogo ajudou os alunos a perceber que nem toda proposta é possível e que políticas públicas envolvem limites institucionais e recursos.
Essa mediação os levou a reformular propostas, tornando-as viáveis dentro da realidade da instituição. Surgiram ideias como a reorganização do recreio e a criação de uma comissão para mediar conflitos.
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Clique na foto para conferir a galeria de imagens dos candidatos:




Estudo do processo eleitoral
Antes da campanha eleitoral, dediquei uma aula inteira ao funcionamento da eleição. Expliquei o que é voto secreto, por que a apuração deve ser pública e o que significa maioria simples. Nesse momento, surgiram dúvidas que revelavam como os alunos compreendiam, ou ainda não compreendiam, o processo eleitoral.
Alguns perguntaram:
— “Se o voto é secreto, como o professor vai saber se alguém votou certo?”
— “Quem perder pode pedir para votar de novo até ganhar?”
— “Se eu prometer algo e depois não fizer, eu posso continuar sendo presidente?”
— “Quem conta os votos não pode mudar o resultado?”
Essas perguntas abriram espaço para discutir confiança no processo, regras coletivas e responsabilidade após a eleição.
Utilizamos um simulador de urna eletrônica projetado na televisão da sala. Organizei debates com tempo cronometrado e direito de réplica.
Quando as críticas se tornaram pessoais, com comentários como “Ele não sabe fazer nada direito” ou “Ela só está prometendo isso para ganhar voto”, interrompi o debate e retomei a regra de que a discussão deveria se concentrar nas propostas, e não nas pessoas. Aproveitei o momento para conversar sobre respeito, argumentação e a diferença entre discordar de uma ideia e desqualificar alguém.
Carreata pelas ruas
Com autorização da direção e comunicação às famílias, os candidatos apresentaram suas propostas para outros alunos e moradores do entorno da escola, que fizeram perguntas e interagiram com as campanhas. Posteriormente, uma mãe relatou que o filho explicou em casa a diferença entre propor uma ideia e ter autoridade para executá-la.
Em edições mais recentes, as ações de campanha foram ampliadas, incluindo até carreatas educativas pelas ruas da cidade.
Votação e apuração
O voto sempre ocupou lugar central no processo. Os próprios candidatos também votavam, compreendendo que, na vida em sociedade, disputar uma eleição não elimina a condição de eleitor. Essa percepção foi importante para que entendessem que a democracia envolve igualdade de participação e respeito às mesmas regras para todos.
Os estudantes do 1º ao 4º ano participaram como eleitores, ampliando o alcance da experiência dentro da escola, e a comunidade foi convidada a votar em todas as edições, reforçando o caráter público do projeto.
No dia da eleição, organizamos lista de presença para registro formal dos votantes, cabine improvisada para garantir o sigilo e apuração pública, realizada diante dos alunos. A intenção era tornar visíveis todas as etapas do processo e mostrar que transparência e organização são condições fundamentais para a legitimidade do resultado.
Nas primeiras experiências, a participação da comunidade foi menor. A escola está localizada em uma área mais distante do centro da cidade, o que dificulta o acesso, e a divulgação ainda era restrita. Na edição mais recente, ampliamos a comunicação, pela conta do Instagram do projeto e pelas redes sociais da escola, e realizamos a votação na Câmara Municipal, espaço mais central e simbólico.
O resultado foi um aumento expressivo no número de votantes externos, chegando a 634 pessoas, o que fortaleceu a dimensão cidadã da proposta.
Clique na imagem para ver a galeria de fotos:





Recontagem de votos
Durante a apuração mais recente, houve pedido de recontagem por parte de uma das candidatas, que demonstrava dificuldade em aceitar o resultado. Atendemos imediatamente, explicando que o direito à conferência faz parte de um processo eleitoral seguro.
Comentários como “Tem que contar de novo porque eu acho que ganhei” surgiram naquele momento. Após a recontagem e a confirmação do resultado, conversamos sobre confiança institucional, respeito às regras previamente combinadas e a importância de lidar com frustrações dentro de critérios democráticos. A situação, que poderia gerar conflito, transformou-se em uma das aprendizagens mais significativas do projeto.
Governança mirim e responsabilidade prática
Após a diplomação simbólica, iniciamos a governança mirim. O presidente eleito indicou três colegas para compor o Supremo Tribunal Federal Mirim (uma representação proporcional adaptada da composição de 11 ministros do STF real).
Os senadores organizaram sabatina com perguntas escritas e revisadas. Nas primeiras reuniões, surgiram apenas reclamações. Passei a exigir que cada crítica viesse acompanhada de proposta escrita, justificativa e sugestão de execução.
Nem tudo ocorreu de forma simples. Alguns alunos inicialmente confundiam autoridade com popularidade, acreditando que ser eleito significava poder decidir sozinho ou atender apenas aos amigos.
Também surgiram propostas difíceis de implementar, o que gerou frustração real quando perceberam os limites institucionais e de recursos.
Esses momentos foram trabalhados como oportunidades para aprender sobre responsabilidade e negociação. Algumas propostas avançaram, como o rodízio da quadra; outras pararam em limitações de horário ou decisão da gestão, permitindo discutir a diferença entre planejar e executar.

Avaliação comparativa
No final do semestre, retomei as perguntas iniciais da lousa e comparei com os registros do primeiro dia. As respostas deixaram de ser frases isoladas e passaram a incluir função, limite e relação entre os Poderes. No início, apareciam falas como “Quem manda no Brasil é o presidente”. Ao final, surgiram explicações como: “O presidente governa, mas precisa das leis que os deputados e senadores aprovam”, “O Supremo analisa se as decisões estão dentro da Constituição” e “Um Poder não pode fazer tudo sozinho porque existe controle entre eles”.
Alguns alunos também aprenderam a diferenciar funções específicas, dizendo, por exemplo, que “o senador representa o estado” e que “o deputado ajuda a criar leis que valem para todo mundo”.
Solicitei uma produção escrita explicando como Executivo, Legislativo e Judiciário se relacionam. A organização argumentativa também evoluiu de maneira perceptível.
Confira os resultados da apuração de 2025:



O que mudou entre as edições do projeto
A mudança não ficou apenas no discurso. Antes, em conflitos no recreio, era comum que os estudantes recorressem ao colega mais forte ou mais popular para decidir situações, associando autoridade à força ou influência. Com o avanço do projeto, começaram a perguntar qual era a regra e quem, de fato, tinha responsabilidade institucional para decidir.
Surgiram falas como: “Se é uma regra da escola, quem resolve é a direção”, “Se aconteceu dentro da sala, o professor que precisa decidir”, ou ainda “Se for algo simples entre nós, a gente pode conversar antes de chamar um adulto”. O debate entre eles se tornou mais organizado, a escuta mais respeitosa e a noção de autoridade passou a ser vinculada a função e responsabilidade, não à popularidade.
Para que essa transformação ocorra, algumas condições são importantes: alinhamento com a gestão escolar, comunicação com as famílias (incluindo autorização de participação e uso de imagem) e cronograma que não prejudique a rotina pedagógica.
Atualmente, o projeto conta também com parceria institucional da Câmara Municipal, onde parte das atividades é realizada, ampliando o contato dos estudantes com espaços reais de participação pública.
Alcance geral
O projeto se relaciona diretamente à BNCC (Base Nacional Comum Curricular) ao trabalhar conhecimento, trabalho, argumentação, empatia, cooperação e responsabilidade (competências gerais 1, 6, 7, 9 e 10), além dos componentes de história e geografia, ao abordar organização política, direitos e deveres, instituições democráticas e convivência cidadã, de forma interdisciplinar e contextualizada.
Em cinco edições desde 2023, o PROID formou 232 estudantes do 5º ano do ensino fundamental e mobilizou 1.765 votantes, incluindo alunos de outras séries, professores, equipe escolar, familiares e integrantes da comunidade local.
O caráter apartidário do programa assegura formação ética voltada à compreensão do sistema democrático, sem promoção de partidos ou ideologias. Ao envolver comunidade escolar e familiares como eleitores, o PROID conseguiu ampliar seu alcance e transformar a escola em espaço de participação pública.

