“Sovaco do diabo”. Assim era conhecido o CEF (Centro de Ensino Fundamental) 15 do Gama quando assumi a direção, em 2007. Os grandes índices de violência e tráfico de drogas atravessavam os muros da escola localizada no Distrito Federal, em um bairro periférico de alta vulnerabilidade. A própria comunidade foi criando, em torno dela, as referências mais terríveis em relação à educação: era considerada a pior escola do Gama, com janelas quebradas, pichações nas paredes e frequentes casos de violência. O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) era 2,7 de 10, um dos piores do estado. Poucos professores aceitavam trabalhar no CEF e isso favorecia ainda mais o estigma de preconceito com os estudantes. 

Motivada pela busca constante de promover um ambiente inclusivo e acolhedor, decidi adotar uma abordagem inovadora na gestão da escola. O primeiro passo foi a aquisição de um sofá a ser instalado na sala da direção, cujas portas ficaram abertas à escuta ativa dos alunos, professores, equipe e responsáveis. Percebi que, para realmente compreender as necessidades e expectativas de todos, era crucial estabelecer um espaço físico e emocionalmente confortável, no qual todos se sentissem à vontade para compartilhar suas opiniões, preocupações e ideias. Acreditava que o engajamento e a participação efetiva dessa comunidade nos processos decisórios poderiam ser a chave para a mudança.

A compra do móvel foi possível por meio de uma doação de um amigo da escola que compartilhava do nosso objetivo de transformação. Com o sofá na sala, passamos a planejar e definir o local ideal para sua instalação, levando em consideração a privacidade e a acessibilidade.

Ana Elen, diretora do CEF 15, em Brasília
Ana Élen, diretora do CEF 15 desde 2007. Crédito: Pedro Ventura/Agência Brasília

A escuta ativa permitiu que os alunos se sentissem parte do processo de transformação. Eles perceberam que suas vozes eram valorizadas e que tinham o poder de influenciar as decisões que afetam suas trajetórias escolares, o que ampliou seu engajamento nos estudos e nas atividades.

Os professores também se beneficiaram da escuta ativa. Eles puderam compartilhar suas frustrações, desafios e ideias para melhorar o ensino e o ambiente de aprendizagem. Essa abertura ao diálogo também proporcionou um espaço para que se sentissem apoiados e encorajados a buscar soluções transformadoras para os problemas enfrentados.

Além disso, a escuta ativa permitiu que pais e responsáveis se envolvessem de maneira mais significativa na vida escolar de seus filhos. Eles foram convidados a participar de reuniões, encontros e grupos de discussão, nos quais puderam expressar suas preocupações e contribuir com ideias para a melhoria do ambiente e dos processos em si. Esse engajamento fortaleceu a parceria entre a escola e os pais, resultando em uma maior cooperação e suporte mútuo.

Com o passar do tempo, a escuta ativa se tornou uma prática enraizada na cultura da escola. As relações interpessoais melhoraram, a confiança foi restabelecida e o clima geral se tornou mais positivo e acolhedor. A escola deixou de ser conhecida como a pior do Distrito Federal e o apelido de “sovaco do diabo” se tornou apenas uma lembrança do passado.

Caminhos para a transformação

Enfrentamos desafios ao longo do processo de adoção dessa abordagem. Inicialmente, houve ceticismo por parte da comunidade escolar, que não estava acostumada a ser ouvida e não compreendia o valor de um espaço acolhedor para a escuta ativa. Para superar a resistência, compartilhamos pesquisas e estudos que demonstravam os benefícios da escuta ativa na promoção de um ambiente escolar mais saudável e propício à aprendizagem.

A capacitação e o treinamento foram essenciais para garantir o sucesso da iniciativa. Realizamos oficinas e palestras, envolvendo professores e integrantes da equipe, para transmitir a importância da escuta ativa, as habilidades necessárias e as melhores práticas para sua implementação. Dessa forma, todos estavam preparados para utilizar o sofá como uma ferramenta efetiva de engajamento e participação. O móvel se tornou um espaço sagrado para as conversas: as vozes de alunos, pais, professores e funcionários eram acolhidas e consideradas em todas as tomadas de decisão.

Como resultado dessa abordagem, a escola passou por uma transformação notável. Os índices de drogadição, evasão e fracasso escolar diminuíram drasticamente. A comunidade escolar se sentiu integrante das mudanças e passou a se envolver em projetos e iniciativas para melhorar a qualidade de vida na escola, que acabou se tornando uma referência positiva na rede do Distrito Federal. Todos esses fatos mostram que a escuta ativa melhora o clima escolar, tornando-o acolhedor, colaborativo e respeitoso, onde todos se sentem valorizados e ouvidos. 

Dicas para as escolas implementarem a escuta ativa incluem:
– ter uma liderança comprometida, 
– comunicar e divulgar a importância da escuta ativa, 
– oferecer treinamentos e capacitações, 
– criar espaços acolhedores, 
– estabelecer práticas consistentes, avaliar sua eficácia, e reconhecer os envolvidos.

Seguindo esses passos, as escolas podem melhorar a comunicação, o engajamento dos alunos, as relações interpessoais, a solução de problemas, a participação dos pais e o clima escolar.

Professora da SEEDF (Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal) há 27 anos e, desde 2007, é diretora do CEI 15 Gama. Graduada em Pedagogia e Psicologia da Educação pela UnB (Universidade de Brasília, onde também se tornou especialista...

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5 Comments

  1. No meu ponto de vista, cada escola tem sua particularidade, sua dinâmica, porém, as ações coletivas, o respeito, a empatia, uma inter-relação saudável e um ambiente acolhedor poderão fazer a diferença na transformação do ambiente escolar. Saber escutar e realizar a mediação com responsabilidade e sabedoria, para mim é de suma importância, bem como, o trabalho realizado de forma colaborativa poderá favorecer o alcance dos objetivos e metas da escola. toda a comunidade escola é importante.

  2. Existe uma particularidade em cada comunidade escolar. Infelizmente a minha realidade é outra. Não há participação dos pais, nem na criação dos filhos(alunos), sem autonomia e questionamento. Somente gritos e agressividade e brincadeiras.

  3. Presencio essa forma de gestão compartilhada com todos da escola com o diretor de onde trabalho. Acredito que essa forma democrática e responsável é a mais assertiva para que haja colaboração de todos. Apesar de ainda existirem pessoas na comunidade escolar que acha que gestor tem que ser autossuficiente, mas a turma do ‘Vamos juntos’ é maior e estamos avançando conquistando pouco a pouco com consciência o que é melhor para todos na realidade escolar.

  4. a gestão possui a responsabilidade do andamento da instituição porém, o grupo que desenvolve o trabalho deve ser responsabilidade de todos envolvidos no processo de ensino aprendizagem. caminhar juntos, acreditando no objetivo de promover a educação como base da vida individual e social pode transformar o mundo.

  5. Todos aqueles que estão no espaço são responsáveis pela formação dos cidadãos que irão compor a sociedade. O trabalho coletivo é o sucesso para esta construção.

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