A discussão sobre o uso seguro das tecnologias, educação midiática e cidadania digital já alcançou a maioria das escolas brasileiras de ensino fundamental e médio. É o que aponta a 16ª edição da pesquisa TIC Educação: entre os gestores entrevistados, a parcela que participou de reuniões sobre regras para o uso de celulares passou de 70% em 2024 para 83% em 2025.

Os dados, divulgados nesta terça-feira (4) pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), mostram como o debate sobre tecnologia nas escolas está mudando. Durante anos, o foco esteve principalmente no acesso: quem tinha computador, quem conseguia se conectar à internet e quem permanecia excluído. A infraestrutura continua importante, uma vez que as desigualdades persistem, mas novas preocupações ganharam espaço.

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Com celulares no bolso de quase todos os estudantes e plataformas digitais presentes na rotina escolar, as escolas precisam lidar com questões como uso excessivo, impactos na saúde mental, verificação de fontes, proteção de dados pessoais e capacidade de avaliar quando uma ferramenta digital contribui ou atrapalha a aprendizagem.

É nesse contexto que políticas públicas recentes, no Brasil e em outros países, buscam regular o uso das tecnologias e incentivar práticas mais seguras e responsáveis. A premissa é que ensinar atitudes e comportamentos no ambiente digital já se tornou tão importante quanto trabalhar conteúdos de matemática ou português.

No Brasil, a aprovação de leis que restringem o uso de celulares nas escolas e a implantação do ECA Digital reforçam essa tendência. Os resultados da TIC Educação indicam que essas discussões já estão mobilizando instituições públicas e privadas, tanto em áreas urbanas quanto rurais.

As informações foram coletadas entre agosto de 2025 e abril de 2026, por meio de entrevistas telefônicas com gestores escolares. A amostra reuniu 2.404 estabelecimentos selecionados a partir do Censo Escolar 2024, sendo 1.555 unidades urbanas e 849 rurais.

IA na rotina dos gestores escolares

A pesquisa mapeou, pela primeira vez, o uso de IA pelas lideranças escolares. Segundo a TIC Educação, 53% dos gestores escolares já utilizam essas ferramentas em atividades pedagógicas, administrativas ou financeiras. Entre eles, 83% recorrem à IA para criar conteúdos visuais e peças de comunicação, 80% para elaborar convites e comunicados e 71% para traduzir, revisar ou resumir textos.

Na Escola Estadual de Tempo Integral Maria Thomásia, em Fortaleza (CE), a diretora Francisca Moreira utiliza a tecnologia para reduzir o tempo dedicado a tarefas operacionais. “Uso muito na montagem de planilhas de dados. A gente compara os resultados dos alunos e também produz documentos administrativos, como ofícios e declarações. Não precisamos mais gastar tanto tempo elaborando tudo do início”, afirma.

A IA também ajuda a preparar pautas e materiais para reuniões com professores, estudantes e famílias. No planejamento pedagógico, a equipe utiliza referências selecionadas para obter respostas mais alinhadas ao currículo. “A gente entendeu que podia alimentar as ferramentas com materiais das próprias disciplinas. Assim, a pesquisa ficaria mais direcionada para aquilo de que a escola precisava”, explica Francisca.

A experiência acompanha um movimento identificado pela pesquisa: o uso avança mais rapidamente do que as orientações. A IA já é permitida em tarefas escolares em 37% das instituições, percentual que chega a 47% nas escolas públicas estaduais e a 52% naquelas que oferecem até o ensino médio. Apesar disso, apenas 22% dos gestores afirmam que suas unidades possuem um guia sobre o uso da tecnologia.

Daniela Costa, coordenadora da TIC Educação, alerta que mesmo tarefas simples podem expor informações privadas. “O que parece um simples comunicado ou convite para as famílias pode expor dados de alunos, professores e funcionários”, afirma. “Sempre que testamos uma tecnologia nova, precisamos nos perguntar: até que ponto estamos compartilhando dados? Garantimos os direitos dos estudantes ou expomos seu bem-estar e sua privacidade a riscos?”

Por isso, gestores devem retirar informações que identifiquem integrantes da comunidade escolar, verificar erros e vieses e revisar todo conteúdo produzido. A IA pode agilizar processos e liberar tempo para a análise dos resultados e a tomada de decisões, mas seu uso exige formação continuada, regras claras e responsabilidade humana.

Eficiência operacional: uso de IA em tarefas de gestão

Finalidade do uso da IA generativa Proporção de gestores que usam
Criar conteúdos audiovisuais (slides, vídeos e imagens) 83%
Criar convites, avisos e comunicados automaticamente 80%
Organizar e planejar atividades pedagógicas e de gestão 75%
Transcrever, resumir, revisar ou traduzir textos 71%
Produzir relatórios 64%
Criar cronogramas e fluxos de trabalho 63%
Analisar dados de desempenho dos alunos 51%
Fonte: Total de gestores de escolas com acesso à Internet (%) (Cetic.br/NIC.br).

Saúde mental em pauta nas escolas

Entre os gestores de escolas com acesso à internet, 80% disseram que as reuniões abordaram os impactos das tecnologias digitais sobre a saúde mental dos estudantes, ante 62% no ano anterior. A proporção dos que discutiram efeitos sobre a prática pedagógica dos professores passou de 67% para 78%.

Também aumentaram as conversas sobre situações ocorridas na internet, como cyberbullying (assédio praticado pela internet, em redes sociais, aplicativos ou jogos, nos quais agressões e humilhações se espalham rapidamente e atingem muitas pessoas ao mesmo tempo), discriminação e vazamento de imagens: o tema foi citado por 75% dos gestores em 2025, em comparação com 61% em 2024.

As escolas ouvidas trataram ainda da inclusão, no currículo, de atividades sobre o uso seguro, crítico e responsável das tecnologias. O índice cresceu de 56% para 75%. No caso da educação midiática — o ensino de como acessar, analisar e produzir informações —, a proporção avançou de 46% para 67%.

A inteligência artificial também entrou na agenda das escolas. Em 2025, 60% dos gestores relataram discussões sobre regras para o uso dessas ferramentas por estudantes ou professores. No ano anterior, eram 40%.

Os números indicam uma mudança de foco. A escola não discute apenas se permite ou proíbe o uso de um determinado dispositivo. Passa a lidar com o que os estudantes fazem nas redes, quais informações entregam às plataformas, como distinguem publicidade de conteúdo jornalístico e de que modo reagem a mensagens, imagens ou vídeos manipulados.

A própria presença dos celulares varia entre as instituições. A pesquisa aponta que 40% das escolas permitem que os estudantes levem aparelhos pessoais. Entre essas unidades, 66% autorizam algum uso pedagógico do celular nos espaços escolares.

Temas abordados por gestores escolares nas reuniões com familiares, educadores ou profissionais da escola

Tema 2024 2025
Regras para uso de celulares pelos alunos nas dependências da escola 70% 83%
Impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos alunos 62% 80%
Impactos das tecnologias digitais na prática pedagógica dos professores 67% 78%
Ações relacionadas a cyberbullying, discriminação, vazamento de imagens e outras situações ocorridas na Internet com os alunos 61% 75%
Inclusão de atividades sobre uso seguro, crítico e responsável das tecnologias digitais no currículo da escola 56% 75%
Inclusão de atividades sobre educação midiática e uso crítico das mídias no currículo da escola 46% 67%
Impactos das tecnologias digitais na saúde mental dos professores 48% 66%
Regras para uso de ferramentas de inteligência artificial por alunos ou professores 40% 60%
Fonte: TIC Educação 2025 (Cetic.br/NIC.br). Total de gestores de escolas com acesso à Internet (%)

Famílias entram no debate sobre tecnologia

Em 2025, 75% dos gestores afirmaram ter se reunido com pais, mães e responsáveis para discutir o uso das tecnologias digitais na escola, ante 60% no ano anterior. Também aumentou a proporção dos que relataram conversas com professores e outros profissionais: de 68% para 86%.

A pesquisa também mostra que a relação com as famílias não se resume às reuniões. Em 49% das escolas, pais, mães e responsáveis procuram a equipe para pedir orientações sobre como acompanhar o uso das tecnologias por crianças e adolescentes. Palestras com profissionais de educação digital, educação midiática, saúde mental e bem-estar aparecem em 48% das unidades. Já 46% distribuem materiais ou guias sobre hábitos saudáveis de uso.

A experiência do professor Otávio Neves, vencedor da terceira edição do Prêmio Professor Porvir, mostra uma maneira de aproximar as famílias do debate sobre tecnologia. Na Escola Municipal George Chalmers, em Nova Lima (MG), ele desenvolveu o projeto “Eu digital: tecnologias e identidade”, no qual estudantes do ensino fundamental compararam como se apresentam, conversam e consomem informações dentro e fora das telas. A proposta levou a turma a observar hábitos digitais, discutir a exposição de dados pessoais e analisar diferenças entre a convivência presencial e as interações mediadas por aplicativos.

Atualmente, os estudantes participam do projeto “Cultura digital verde, arte e poéticas visuais para repensar o uso da água nos data centers”. O trabalho investiga quanta água pode ser consumida por centros de processamento de dados (estruturas que armazenam e processam informações de serviços digitais e sistemas de inteligência artificial) e relaciona esse consumo aos hábitos cotidianos de uso das plataformas.

O projeto ainda está em andamento, mas a turma já produziu um curta-metragem, um protótipo de data center submerso, um site para reunir os resultados e o aplicativo Água Digital Edu, que simula o consumo de água relacionado ao uso da inteligência artificial. 

Os estudantes usam celulares, ferramentas gratuitas de edição de vídeos e criação de sites, plataformas de desenvolvimento de aplicativos e componentes simples de robótica educacional. As atividades tomam como referência relatórios da Unesco e os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas), especialmente os relacionados à água, à educação, à infraestrutura e aos impactos ambientais.

As produções também abriram espaço para conversas em casa: que dados um aplicativo coleta, quanta água pode ser necessária para manter um serviço digital e em quais situações vale reduzir o uso de uma plataforma. Para Otávio, as famílias se aproximam quando entendem o que os estudantes pesquisam e acompanham os resultados apresentados em feiras, exposições e canais da escola. “A principal dica é envolver as famílias no propósito do projeto, e não apenas no uso da tecnologia”, afirma.

Avanço desigual entre escolas urbanas e rurais

Além das reuniões, 65% das escolas ouvidas pela TIC Educação realizam projetos de educação digital, midiática e de formação para a cidadania digital. A proporção chega a 72% nas unidades urbanas e cai para 52% nas rurais.

Na maior parte das instituições, os temas entram nas aulas sem depender de uma disciplina isolada. Entre as escolas que desenvolvem iniciativas, 98% promovem conversas com os estudantes durante as aulas e 93% inserem conteúdos de forma transversal no currículo. Atividades extracurriculares, como palestras, feiras e cursos de curta duração, aparecem em 78%. Já 58% oferecem disciplinas específicas, e 43% distribuem cartilhas ou panfletos.

Tecnologia aplicada a problemas reais

Em Cuité (PB), o professor João Paulo Santos da Silva trabalha esses conhecimentos em projetos ligados a problemas observados na escola e na comunidade. Vencedor da segunda edição do Prêmio Professor Porvir na categoria ensino médio, ele mobilizou estudantes da Escola Cidadã Técnica Integral Jornalista José Itamar da Rocha Cândido para fotografar aves da Caatinga, registrar onde foram encontradas e comparar características antes de identificar as espécies.

A atividade resultou em um guia visual e levou os jovens a discutir como produzir registros confiáveis. Atualmente, em outros projetos do laboratório coordenado pelo professor, os estudantes programam sistemas, montam circuitos, testam sensores e criam aplicativos.

Um dos trabalhos é o Solos, sistema portátil que monitora umidade, temperatura, pH, luminosidade e nutrientes. Os dados são enviados a um aplicativo voltado a agricultores familiares. Antes de definir a ferramenta, a turma investiga o problema, escolhe quais informações precisa coletar e testa se o protótipo produz leituras confiáveis.

O trabalho também inclui perguntas sobre quem pode acessar os dados, quanto custa manter o equipamento, que impacto ambiental ele causa e quais pessoas podem encontrar dificuldades para utilizá-lo.

“Procuramos não tratar a tecnologia como um fim em si mesma. O objetivo não é simplesmente ensinar o estudante a usar um equipamento, um aplicativo ou uma placa, mas utilizar esses recursos para investigar, criar, testar e tentar resolver problemas reais”, afirma João Paulo.

Essa abordagem ajuda a concretizar conceitos que, fora de uma atividade, podem parecer distantes. Privacidade deixa de ser uma definição abstrata quando a turma decide quais informações um aplicativo deve guardar. Confiabilidade aparece quando um sensor fornece uma leitura errada. Acessibilidade entra no projeto quando os estudantes percebem que parte dos usuários precisa receber as informações em áudio.

Desafios enfrentados pelas escolas na realização de projetos de educação digital, midiática e para a cidadania digital

Desafio Escolas (%)
Baixa participação das famílias e dos responsáveis 75%
Falta de materiais e recursos educacionais de apoio 64%
Desafios relacionados à qualidade dos computadores e do acesso à internet na escola 58%
Falta de tempo para cumprir os conteúdos previstos no currículo escolar 55%
Falta de habilidades dos professores 53%
Falta de apoio da rede de ensino 30%
Resistência da comunidade escolar, como familiares, professores, equipes de gestão ou de coordenação 20%
Fonte: TIC Educação 2025 (Cetic.br/NIC.br). Percentual de escolas que implementam iniciativas de educação digital.

Falta de recursos limita atividades

Apesar do avanço das discussões, as escolas ainda enfrentam obstáculos para verificar fontes, tratar de privacidade, orientar o uso de celulares e produzir conteúdos digitais.

Os materiais disponíveis também dependem muito do esforço de cada unidade. Entre as escolas que desenvolvem projetos, 76% utilizam recursos produzidos pela própria equipe. Materiais fornecidos por secretarias de educação ou outros órgãos públicos aparecem em 64%. Universidades e instituições de ensino superior são citadas por apenas 19%.

A experiência de Otávio mostra o que uma turma consegue fazer com celulares, aplicativos gratuitos, plataformas de publicação e componentes simples de robótica. Mas o dado sobre materiais produzidos pelas próprias escolas expõe outro lado: quando o apoio externo não chega, professores e equipes assumem também a tarefa de localizar referências, adaptar conteúdos e preparar orientações.

Assista à apresentação dos destaques da TIC Educação 2025

É diretor e editor do Porvir e faz parte da equipe desde 2014. Nesse tempo, já produziu séries sobre formação de professores e guias multimídia sobre temas como educação socioemocional, tecnologia, participação estudantil e aprendizagem prática....

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....

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