Por que vale a leitura
Conheça estratégias para melhorar o clima escolar e fortalecer os vínculos entre os estudantes
Caminhos para ampliar o protagonismo e a participação dos jovens no cotidiano escolar
Experiências que aumentaram o engajamento, a frequência e os resultados de aprendizagem
Sentir-se acolhido é um dos primeiros passos para que os estudantes desenvolvam uma boa relação com a escola. Quando percebem que são ouvidos, reconhecidos e têm espaço para participar, os alunos passam a enxergá-la como um lugar do qual também fazem parte.
Essa relação entre acolhimento e pertencimento aparece na Escuta das Adolescências, pesquisa desenvolvida pelo MEC (Ministério da Educação) e parceiros, entre eles o Porvir, como apoiador técnico. O levantamento ouviu 2,3 milhões de adolescentes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental em mais de 21 mil escolas públicas de todo o país.
📱Inscreva-se no canal do Porvir no WhatsApp para receber nossas novidades
Na dimensão “acolhimento e pertencimento”, a Escuta das Adolescências mostrou que 66% dos estudantes do 6º e 7º anos afirmam se sentir acolhidos pela escola. Entre os alunos do 8º e 9º anos, o índice foi de 54%, o que reforça o desafio de manter os vínculos e ampliar os espaços de participação ao longo da trajetória escolar.
Para aproximar os estudantes e fortalecer a participação juvenil, a EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Marieta Escobar, em Vitória (ES), encontrou no Programa Escolaí, da Fundação Otacílio Coser, uma estratégia de estímulo ao protagonismo dos alunos.
“O Escolaí motiva as crianças e nós conseguimos ver o resultado desse trabalho. As escolas e, principalmente, os diretores que participam precisam acreditar. Eu sempre estou junto com eles [nas propostas] e acredito que isso atrai os alunos, eles se sentem pertencentes”, afirma Ineida Santos, diretora da unidade.
Como funciona o Escolaí
Realizado há 20 anos pela Fundação Otacílio Coser, em parceria com secretarias estaduais e municipais de educação, o Escolaí auxilia escolas públicas no desenvolvimento de projetos de vida, com foco na formação integral dos estudantes. Em 2026, 105 escolas de três estados — Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro — participam do programa, que contempla mais de 55 mil alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. Mais de 244 mil estudantes já participaram da iniciativa.
Em formato de gincana interescolar, o programa propõe missões conduzidas por times de estudantes. As atividades trabalham diferentes dimensões do projeto de vida, como autoconhecimento e autocuidado, convivência e relação com a comunidade, além de sonhos, oportunidades de estudo e preparação para o mundo do trabalho.
Por meio de desafios colaborativos, o Escolaí envolve estudantes, professores e gestores na construção de experiências que estimulam competências socioemocionais, como trabalho em equipe, comunicação e resolução de conflitos.
Segundo Cassiane Lanzoni, gerente de programas da Fundação Otacílio Coser, a proposta é que os jovens desenvolvam habilidades que contribuam para a trajetória profissional e para a construção de seus próprios projetos de vida.
“As missões estão muito alinhadas às dimensões do projeto de vida, além de trabalhar habilidades previstas na BNCC [Base Nacional Comum Curricular]. Por isso o programa tem aderência dentro da escola, porque não foge do que está acontecendo na instituição”, explica.
Vínculos e mudanças
O fortalecimento dos vínculos também mobilizou a Escola Estadual Doutor José Gonçalves de Andrade Figueira, em São Paulo (SP). Para Ellen da Eira Barros, vice-diretora da instituição, a necessidade de repensar a convivência escolar foi um dos fatores que levaram a equipe a participar do Escolaí.
“Iniciei na vice-direção em fevereiro de 2025 e percebi que tínhamos muitos desafios relacionados à convivência. Entretanto, adotávamos ações mais pontuais, chamávamos os alunos para orientação e pedíamos parceria aos responsáveis. Decidimos usar o Escolaí como instrumento de melhoria do clima escolar porque ele envolve o aluno nesse processo. Assim, as ações não são pautadas apenas pela direção e pelo corpo docente. Os estudantes também participam dessa construção”, conta.
Participante do programa desde 2025, a escola busca fortalecer os vínculos entre estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, especialmente em um contexto no qual muitos alunos vêm de outros bairros para estudar.
“Nosso maior desafio são as microagressões. Os alunos se importunavam e se provocavam. Em alguns casos, percebemos que essas questões de convivência evoluíam para situações de agressão verbal. Buscamos investir no protagonismo, na participação e no engajamento nas tarefas, além da compreensão sobre o papel da escola”, afirma Ellen.
Uma das atividades que ajudaram a equipe a compreender melhor os sonhos dos estudantes foi o Varal dos Sonhos.
“Quando construímos um varal sobre o projeto de vida dos estudantes, eles pegaram a foto atual e colocaram ao lado a imagem deles adultos na profissão que desejam. Havia alunos com mais de uma foto, ou seja, mais de um sonho. Foi um grande avanço poder acessar essa dimensão”, comenta Ellen.
Escolaí na prática
Destinado a estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio, o Escolaí é organizado em quatro missões:
1ª missão: coletiva
É realizada por toda a escola e tem como objetivo divulgar o programa para pais, responsáveis, famílias e comunidade escolar.
Da 2ª à 4ª missão:
São escolhidas pela instituição participante a partir de um “Menu de missões”, com 10 a 12 opções de atividades que abrangem três grandes dimensões:
- dimensão pessoal do projeto de vida: reúne atividades como o Varal dos sonhos, o show de talentos “Jovens Talentos das Artes” e o Inversão de papéis, com a troca de postos de trabalho na escola;
- dimensão comunitária-social do projeto de vida: busca aproximar a comunidade da escola por meio de ações como feira cultural, café cultural e festa do livro;
- continuação dos estudos e mundo do trabalho: inclui atividades como palestras com profissionais e ex-alunos da instituição e uma feira de soluções para o futuro, realizada em conjunto com a feira de ciências da escola.
Melhoria do clima escolar
Embora cada missão tenha um grupo de alunos responsável, todos os estudantes podem participar das atividades. A proposta contribui para o desenvolvimento do protagonismo e do sentimento de pertencimento, aspectos diretamente relacionados ao clima escolar.
Para fortalecer esses elementos, o programa conta ainda com a iniciativa Guardiões das Juventudes: grupos de 6 a 12 estudantes escolhidos para comandar e organizar as missões coletivamente, mobilizar os colegas, identificar interesses e propor ideias. Os jovens trabalham temas como cidadania, cultura, convivência, inovação, criatividade e projeto de vida.
Cada time fica responsável por uma missão (da segunda à quarta) e não disputa com os demais. A colaboração entre os grupos faz parte da preparação para a competição com outras escolas do estado.
“O programa cria espaços para que o estudante não seja apenas um participante, mas protagonista das ações realizadas na escola. Quando você dá voz aos jovens e eles percebem que são ouvidos e têm um papel importante nesse espaço, as ideias podem transformar o cotidiano. Isso fortalece o senso de pertencimento e amplia as oportunidades de diálogo e colaboração entre estudantes, educadores, famílias e comunidade. Por isso dizemos que o protagonismo contribui muito para o clima escolar”, defende Cassiane.
De acordo com uma pesquisa realizada em 2025 pelo Escolaí com 52 educadores participantes do programa, 96% dos respondentes perceberam mudanças positivas nos estudantes. A principal delas, apontada por 22%, foi a cooperação e o trabalho em equipe. Em seguida, com 15%, apareceram o pertencimento e o senso de propósito. Outros 13% mencionaram avanços em autoestima e autonomia. Também foram citados aumento do engajamento, protagonismo, responsabilidade, criatividade e comunicação.
Colhendo resultados
Mesmo em meio à poeira da obra, aos barulhos e à circulação de trabalhadores dentro da escola, a EMEF Marieta Escobar manteve o engajamento dos estudantes nas atividades. Em 2023, a unidade ficou entre as três melhores colocadas na classificação geral do Escolaí no Espírito Santo. Nos dois anos seguintes, conquistou o primeiro lugar. Entre 2023 e 2025, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da escola nos anos finais do ensino fundamental subiu 0,7 ponto, passando de 4,7 para 5,4.
“Mesmo em obra e com toda aquela turbulência, conseguimos desenvolver um bom trabalho, com os alunos motivados. Como toda a sociedade, não só o Marieta, está sofrendo com a questão do bullying e da violência em casa e nas escolas, neste ano estamos trabalhando o tema ‘Sou da paz, Escolaí’. Estamos planejando palestras, dois podcasts sobre cyberbullying e bullying e uma caminhada no entorno da escola, em razão do Setembro Amarelo. Os estudantes já tomaram posse: estão se organizando e fazendo cartazes”, ressalta Ineida.
A instituição também conta com outro elemento de mobilização: todos os anos, produz e publica livros internos que funcionam como encerramento das atividades do Escolaí.
“Antes, quando propúnhamos uma redação, eles faziam de qualquer jeito. Hoje, sabem que ela pode ir para o livro. Com o Escolaí, os estudantes ficaram mais motivados, e o clima escolar melhorou bastante”, afirma Ineida.
A escola promove ainda eventos relacionados ao programa para aproximar famílias e comunidade das atividades.
Já Ellen comenta que a transformação na Escola José Gonçalves aconteceu em diferentes frentes: entre os estudantes, que passaram a adotar outra postura diante da infraestrutura da escola, e entre os professores, com maior colaboração e parceria.
“Acho muito interessante porque, hoje, os alunos se incomodam quando acontece alguma situação que prejudica o coletivo. Com o programa, houve a criação de vínculos entre os professores, que se uniram para aplicar as atividades, e também os alunos passaram a ter mais cuidado com o patrimônio público da escola, evitando danificar materiais, com uma diminuição considerável do vandalismo.”
A vice-diretora explica que o Escolaí se somou a outras iniciativas voltadas à melhoria do clima escolar, mas ampliou ações de prevenção de conflitos, como palestras sobre as implicações legais do bullying. A escola também estabeleceu parceria com uma rede de proteção para discutir violência e formas de denúncia.
No mesmo período, a escola também registrou avanço no Saresp (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo). Em 2024, o ensino fundamental obteve nota 3,9 e o ensino médio, 2,8. Em 2025, os índices passaram para 5,2 e 3,3, respectivamente.
Segundo Ellen, a frequência dos estudantes também aumentou: nos primeiros quatro meses do ano letivo, passou de 81,1% em 2025 para 87,9% no mesmo período de 2026.
Saiba como participar
- Evento de abertura: o Escolaí promove uma abertura em cada estado participante. Pequenos grupos de três estudantes de cada instituição têm a participação custeada e compartilham com os colegas como será a gincana ao longo do ano.
- Kit de mobilização: cada escola recebe um conjunto com cartazes e bandeiras para apoiar a divulgação das atividades.
- Oficina de comunicação e mobilização: o programa realiza um encontro on-line com orientações para participantes sobre comunicação e mobilização de estudantes e comunidades.
- Avaliação: considera critérios como mobilização, criatividade, inovação, engajamento e comunicação. A análise é feita por um comitê formado por 30 pessoas voluntárias, que avaliam os registros das escolas na plataforma do programa e definem o ranking das três melhores por estado.
- Prêmios: são coletivos, destinados ao uso de toda a escola, como impressoras 3D, mesas de totó (ou pebolim), equipamentos de tênis de mesa e projetores.
- Evento de premiação: as escolas classificadas em primeiro lugar em cada estado concorrem ao troféu de destaque nacional.
Todas as informações estão disponíveis no site do programa. Acesse aqui.


