Ansiedade com mercado de trabalho desperta interesse de turma pela inteligência artificial - PORVIR
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Diário de Inovações

Ansiedade com mercado de trabalho desperta interesse de turma pela inteligência artificial

Tema surgiu do questionamento dos alunos sobre o aprendizado de máquinas e a possibilidade de substituição de pessoas por robôs

Parceria com Microsoft

por Simone Borba ilustração relógio 1 de dezembro de 2020

Sou instrutora de Aprendizagem Profissional Comercial no SENAC-RN há 12 anos. O programa é voltado para a inserção de jovens no mercado de trabalho e tem alunos entre 14 e 24 anos.

Sempre gostei de trabalhar com projetos. No âmbito da metodologia de desenvolvimento de competências empregada pela instituição, o Projeto Integrador é uma oportunidade de desenvolver assuntos articulados ao interesse dos jovens.

Quando consigo perceber o que move os estudantes, é muito mais tranquilo. O que emerge deles é o que é mais significativo. A partir disso, conseguimos trabalhar com aprendizagem baseada em resolução de problemas, desenvolver investigação, análise, sistematização e experimentação de tecnologias.

Quando um projeto se desenrola bem, estendemos para outras turmas. Temos equipes interdisciplinares em que compartilhamos e organizamos alternativas para gerar a questão da aprendizagem baseada em projetos. Não apenas resolvendo problemas, mas buscando criar protótipos e soluções construídas por todos.

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Um dos cursos de aprendizagem é o de Serviços em Supermercado, outro é o de Serviços em Vendas. Nos dois, os estudantes precisam identificar mercadorias, observar códigos. Percebi que toda vez que ia trabalhar vídeos sobre o tema, os alunos traziam uma coisa nova.

Nesta edição, surgiu a ansiedade deles em relação ao mercado de trabalho. Questionaram: “vamos ser substituídos?”, “o que implicam essas novas tecnologias?”. O inventário de uma loja era feito em três dias, agora pode ser realizado em três horas. Eles querem saber para que estão aprendendo.

Além disso, neste ano, a suspensão das aulas devido à pandemia da COVID-19 gerou um movimento intenso de pesquisa por atividades para o ensino remoto. A curadoria de materiais e a redefinição das estruturas das aulas ganharam prioridade. A continuidade das aulas, convertidas do presencial para o virtual, revelou-se como uma oportunidade de engajamento e colaboração, entre professores e alunos, entre professores e familiares, entre familiares e a escola.

Em um laboratório de informática, alunas mexem e aplicativo de programaçãoCrédito: Arquivo Pessoal

Discussão sobre o futuro do trabalho motivou projeto sobre o alcance da tecnologia RFID no cotidiano

No momento mais crítico e criativo, as atividades remotas conectaram as casas de professores e alunos, criando uma nova experiência. O uso intensificado das tecnologias provocou a reflexão sobre curadoria de conteúdo, segurança e uso de dados e desenvolvimento tecnológico.

Eu já trabalhava com aplicativos do Office 365. Duas turmas já conheciam o Teams. Foi mais tranquilo, mas eles tiverem que aprender a dinâmica da sala de aula virtual, que exige mais intensidade. Converso com os alunos, proponho tempos, dou alguns minutos, depois voltamos e comentamos. Precisa criar situações. Inclui muita coisa do maker, do vai lá e faz, pesquisa, constrói modelo.

À distância, tenho contato com os alunos mas não sei o que acontece o tempo todo. Tenho formulários com algumas perguntas, para fixar a atenção. Passei a usar com mais frequência a avaliação e a aprendizagem em pares. Antes fazia em sala, mas ampliei esse processo. É como se fossem uma equipe de trabalho. Tem avaliação, orientação, liderança. Estimulo que assumam o protagonismo e a autonomia.

No âmbito da educação profissional, surgiram questionamentos sobre as céleres transformações no mercado de trabalho. Vários projetos surgiram, fomentando, por parte dos professores, pesquisa e colaboração, para engajar alunos em um ambiente conturbado por incertezas.

Em turmas de Aprendizagem Profissional Comercial, que contemplam a instrução de jovens que ingressam no mercado de trabalho contratados por empresas como aprendizes, foi necessário aguardar a deliberação do governo para a continuidade das aulas.

Em outubro, durante a realização das aulas da ocupação de estoquista, um dos alunos mencionou um vídeo sobre a tecnologia RFID (Radio Frequency Identification), usada em etiquetas de produtos, provocando uma discussão sobre o impacto das tecnologias de Inteligência Artificial no mercado de trabalho. Embora a resposta pareça simples, é possível desconstruí-la e contextualizá-la, engajando os alunos na produção de conteúdos e na apreciação de alternativas viáveis. A discussão levou à realização do projeto “E, aí?”.

Após a apresentação do vídeo sobre a aplicação de tecnologia RFID em supermercados, a primeira pergunta surgiu do espanto: “Eu vou ficar sem emprego?”. As demais dúvidas foram surgindo em relação aos setores comerciais que já adotam a tecnologia, depois as outras que podem ser sintetizadas em “para que aprendemos o que estamos aprendendo?”.

Para estabelecer um fluxo de sistematização de ideias foi utilizada a metodologia de aprendizagem baseada em problemas, nos permitindo buscar em diferentes ciências a possibilidade de contextualizar a situação e identificar as alternativas viáveis. Partindo do que sabemos e compartilhamos, para a descoberta de outros conhecimentos.

No início da problematização, realizamos pesquisas para entender como funcionava a etiqueta com tecnologia RFID, perguntas como “onde fica a bateria da etiqueta”, “o que é nanotecnologia”, “quais equipamentos usa”, nos levaram a comparar o que é conhecido (as tradicionais etiquetas código de barras e QR Codes) com a informação até então não-relacionada (ligas metálicas que criam campos magnéticos).

Embora muitos alunos aprendizes tenham cursado a disciplina de física no ensino médio, muitos ficam maravilhados ao compreender a radiofrequência. Surgem novas perguntas: “Nunca tirei aquela etiqueta!”, “Ops, se eu for na loja com a roupa, vai apitar?”. Tais perguntas nos levaram a outro nível de problema: coleta e sistematização de dados. Foi possível explorar o aprendizado das máquinas por meio de um exercício simples do site Code.org (IA para Oceanos).

Tela de programação com dizer É UM PEIXE? para que o aluno programa um identificador dizendo se é ou nãoCrédito: Arquivo Pessoal

O projeto permitiu aos alunos entenderem conceitos de análise, seleção, sistematização e síntese

Há algum tempo lido com a questão da programação, faço cursos e leio a respeito. Precisamos desenvolver nos jovens as habilidades socioemocionais, além do domínio técnico. Aprendi programação e como aplicá-la em sala de aula de forma pedagógica para inserir o tema nas discussões e nas atividades. Também aproveito os conceitos da plataforma Hacking STEM com meus alunos. Na biblioteca de atividades, sempre tem algo que podemos articular com as competências que desenvolvemos. Em sala, com as licenças da escola, eu usava o Make Code, explorando o Minecraft Education Edition. Neste projeto a distância, optei pelo exercício do Code.org.

O exercício é bem simples e prático. Trabalha com dois a três tipos de classificação. Primeiro, é preciso separar duas classes, depois avança e cria subclasses. Discute a alimentação de dados, explica o conjunto de instruções necessárias e quais são as etapas para a criação de algoritmos.

Permitiu aos alunos vivenciar elementos básicos de programação, utilizando principalmente, recursos de análise, seleção, sistematização e síntese; ao mesmo tempo em que oferecia aos alunos a oportunidade de ampliar o conhecimento sobre machine learning (aprendizado de máquinas). É interessante ver que quando os jovens percebem que aprenderam, começam a se interessar pelas coisas mais difíceis.

Exercícios simples ajudam o aluno a se envolver. Trabalho a autoconfiança. Para criar uma situação de aprendizagem, é preciso que ele se sinta seguro. O exercício conseguiu traduzir o que vão vivenciar no dia a dia. A máquina vai aprender a classificar, mas é o operador que vai criar o sistema de classificação.

Uma vez sanadas as dúvidas em relação ao funcionamento da tecnologia RFID aplicada de forma comercial, os alunos iniciaram a pesquisa de aplicação das etiquetas no ambiente de trabalho. Perceberam sua utilidade em relação à otimização de tempo e redução de margem de erro na conferência de estoques; a possibilidade de aumentar a prevenção de perdas por furto; a possibilidade de rastrear individualmente mercadorias, melhorando o atendimento ao cliente, e a expansão de colocação no mercado, por meio da análise de processos e proposição de soluções.

A resolução de cada problema que surgia, criava a perspectiva para o próximo, motivo pelo qual havia fluidez no desenvolvimento da temática. O que se mostrou muito importante, visto que as aulas remotas são frequentemente interrompidas, mesmo que por poucos momentos, criando distrações.

Após a realização das atividades os alunos se mostraram mais propensos a pesquisar as soluções tecnológicas para a automação comercial. Para o instrutor, encerrado o curso, com novas turmas chegando, há a possibilidade de transformar a aprendizagem baseada em problemas, em aprendizagem baseada em projeto, gerando protótipos e soluções para o ambiente comercial.

Novos questionamentos devem surgir da demanda deles, que precisam se inteirar, buscar, estar atentos. Devem perceber que as tecnologias conseguem fazer com que as pessoas tenham um aproveitamento melhor do tempo e do aprendizado. O RFID economiza tempo e permite executar atividades mais criativas e proativas. Os jovens ficaram muito animados com isso. Em dezembro, falaremos do Minecraft com um exercício bem prático.

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Simone Borba

Microsoft Innovative Educator Expert e Trainer, instrutora de Aprendizagem Profissional Comercial no Senac RN há 12 anos; geógrafa, com mestrado em geografia regional pela UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul).

TAGS

aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, competências para o século 21, educação profissional, ensino médio, programação, socioemocionais, tecnologia

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