Bad Bunny no Super Bowl e as leituras possíveis para a educação - PORVIR

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Bad Bunny no Super Bowl e as leituras possíveis para a educação

Com o apoio de José Alves de Freitas Neto, professor titular de História das Américas na Unicamp, o Porvir analisa como a apresentação de Bad Bunny no evento esportivo ajuda a pensar identidade e memória histórica partir da cultura da América Latina

por Ana Luísa D'Maschio / Beatriz Cavallin ilustração relógio 9 de fevereiro de 2026

“Meu nome é Benito Antonio Martínez Ocasio, e se hoje estou aqui no Super Bowl 60 é porque nunca deixei de acreditar em mim. Você também deveria acreditar em você. Você vale mais do que você imagina.” Com os olhos fixos na câmera, como em um recado direto ao espectador, o rapper porto-riquenho Bad Bunny abriu sua apresentação no show do intervalo do Super Bowl, neste domingo (8). 

Em menos de 15 minutos, o artista transformou o palco do Levi’s Stadium, na Califórnia (Estados Unidos), em um espetáculo que articulou música, história e referências contemporâneas, provocando um debate social que rapidamente ultrapassou o estádio e se espalhou pelo mundo.

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O impacto do show, que condensou trechos de cerca de dez músicas, também se explica pela dimensão do evento. O Super Bowl, final da NFL (liga profissional de futebol americano), é hoje o maior espetáculo esportivo e midiático do mundo em termos de audiência e valor econômico. A edição de 2026 foi acompanhada por mais de 135 milhões de pessoas nos EUA, enquanto um comercial de 30 segundos custou cerca de US$ 7 milhões (R$ 36 milhões). Para efeito de comparação, a cerimônia do Oscar costuma alcançar em torno de 20 milhões de telespectadores no país.

“Ao realizar uma apresentação majoritariamente em espanhol no principal palco de visibilidade da cultura norte-americana, o Super Bowl, Bad Bunny afirma a força, a potência simbólica e também o peso econômico da cultura latina”, explica José Alves de Freitas Neto, professor titular de História das Américas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e diretor da Comvest (Comissão de Vestibulares), da mesma universidade. “A escolha escancara a existência de uma cultura plural que está diante de nós, mesmo quando parte da sociedade insiste em não enxergá-la”, complementa.

Com o apoio do historiador, o Porvir lista alguns pontos de debate que podem ser explorados a partir da apresentação de Bad Bunny no Super Bowl, a fim de apoiar a leitura crítica e o debate em sala de aula.

Atenção à classificação etária
As músicas de Bad Bunny costumam trazer o selo “Parental Advisory – Explicit Content” e, no contexto da classificação indicativa brasileira, são geralmente associadas à faixa etária de 18 anos, por conter linguagem explícita e temas adultos.

Nesta matéria, o Porvir analisa a dimensão cultural e simbólica do posicionamento político do artista em sua apresentação no Super Bowl, considerando imagens, cenários e escolhas artísticas. Para uso em contextos educativos, é fundamental que professores e famílias estejam atentos à classificação etária das músicas e realizem mediações pedagógicas adequadas.

📌Clique aqui para assistir a integra do show no YouTube da NFL

Simbolismo histórico: o que significa ser latino hoje?

Mesmo sendo o futebol americano um esporte distante da cultura brasileira, o que se viu no show do intervalo foi um recorte da história latino-americana. Pela primeira vez, a apresentação foi conduzida quase inteiramente em espanhol.

Segundo José Alves, essa escolha traz à tona uma questão central: o que significa ser latino?

“Ser latino pressupõe uma diversidade que nenhum outro continente reúne da mesma forma. Trata-se de uma diversidade construída ao longo da história por meio de violências, mas também de negociações, encontros e interações entre diferentes povos e grupos sociais”, explica.

Ele lembra que a própria noção de “América Latina”, consolidada no século 19, está associada à herança latina vinculada às tradições do mundo romano e católico. “Essa designação tende a invisibilizar a presença e a força das línguas indígenas e africanas, igualmente constitutivas das identidades do continente”, afirma.

Outro ponto destacado é o caráter de resistência dessa cultura. “A população latina representa hoje uma parcela expressiva da sociedade norte-americana, superior inclusive à população afro-americana, o que torna sua presença cultural incontornável.”

Dados da Universidade da Califórnia em Los Angeles, divulgados pela Folha de S.Paulo, indicam que pessoas latinas representam cerca de 20% da população dos Estados Unidos e respondem por aproximadamente 30% do crescimento econômico do país, movimentando em torno de US$ 4 trilhões do PIB americano.

Reprodução YouTube

Contrastes e semelhanças entre os países

Uma abordagem relevante que os professores podem adotar ao tratar de um concerto em espanhol em um evento norte-americano é provocar a reflexão sobre pertencimento e representação.

“A apresentação mobiliza elementos frequentemente associados à cultura latina — como a música, a sensualidade, a alegria e a expressividade corporal —, mas também traz referências a contextos de pobreza, moradias simples e ao universo da cultura popular. Esses contrastes abrem espaço para a pergunta: nós nos sentimos representados por essa cultura? Pertencemos ou não a esse grupo? Queremos ou não nos reconhecer como latinos?”, questiona.

No caso do Brasil, ele observa que, por falar português, o país muitas vezes se distancia simbolicamente do restante da América Latina, como se não compartilhasse uma história comum marcada pela colonização, pela escravidão e por profundas desigualdades sociais.

“Nesse sentido, o ponto central que atravessa o espetáculo é a ideia de unidade na diversidade: somos muitos, mas somos uma única América. A mensagem reforça que, mesmo dentro dos Estados Unidos, a presença latina é ampla, estruturante e não pode ser ignorada.”

O historiador reforça: ainda assim, trata-se de um grupo historicamente alvo de estigmatização e perseguições, intensificadas em períodos de governos como o do presidente Donald Trump.

Migração e direitos: o debate político na sala de aula

A apresentação de Bad Bunny provocou reações políticas imediatas. Trump criticou publicamente o show, classificando a performance como uma “afronta aos padrões de excelência do país”.

A leitura contrasta com a reação do jornalista do canal de esportes ESPN John Sutcliffe, que se emocionou ao comentar a apresentação. “A mensagem que o Bunny transmitiu, você gostando ou não da música dele, com amor, cultura e carinho… esteja você no México, na Argentina, no Chile ou onde estiver, é válido ter uma lágrima nos olhos e se sentir orgulhoso de que Benito cantou em espanhol na festa mais importante dos americanos”, disse.

O debate ganha ainda mais peso em um contexto marcado pela violência das políticas migratórias nos Estados Unidos e pela atuação do ICE (Immigration and Customs Enforcement, agência federal responsável pelo controle migratório e deportações).

Reprodução YouTube

Nesse cenário, um dos momentos mais comentados do show traz a imagem de um garoto de cinco anos assistindo, pela televisão da sala de estar de sua família, a um trecho recente do discurso de Bad Bunny ao vencer três prêmios no Grammy Awards, entre eles Álbum do Ano — é a primeira vez que um disco integralmente em espanhol conquistou o principal troféu da cerimônia.

A sequência se conecta, simbolicamente, com o caso de Liam Ramos, menino equatoriano de cinco anos detido por agentes do ICE em Minneapolis e posteriormente liberado, que se tornou símbolo da agressividade da campanha anti-imigração. Embora a produção tenha esclarecido que a criança no palco era o ator mirim Lincoln Fox Ramadan, a leitura da cena se manteve.

“A cena do garoto é forte e marcante porque remete a práticas xenofóbicas produzidas por discursos da extrema direita”, afirma o historiador. “É fundamental lembrar que não existe culpa nem absolvição coletiva.”

Ele complementa: nessa discussão, professores possam estimular os alunos a refletirem sobre um princípio da tradição jurídica liberal: “existem culpas, penalidades ou absolvições individuais. Esse é um pressuposto do Estado de direito e, consequentemente, das democracias”.

Criar a ideia de que latinos estão associados à criminalidade, ao narcotráfico ou à “maldade” dentro dos Estados Unidos faz com que se legitimem punições coletivas, que podem atingir inclusive crianças.

La Casita e o canavial: a cenografia como ferramenta pedagógica

A cenografia foi um elemento central para a leitura da apresentação. O palco apresentou a “La Casita”, réplica de uma moradia tradicional de Porto Rico, usada para representar comunidades populares da ilha e as origens do reggaeton, gênero musical de matriz caribenha que surgiu em contextos marcados por desigualdades sociais e de afirmação identitária.

Divulgação

Ao redor, um canavial reforçou a dimensão histórica do espetáculo. “As referências à cana-de-açúcar permitem relacionar a formação da mão de obra na América Latina, o lugar que o continente ainda ocupa dentro de um cenário de exploração e a forma como a integração de mercados faz com que a região continue oferecendo matérias-primas e produtos menos elaborados do ponto de vista dos custos”, afirma José Alves.

Essas discussões remetem ao papel que a economia global historicamente atribuiu à América Latina e ajudam a compreender como estruturas coloniais se atualizam em novas formas de dependência econômica. “A presença do canavial na encenação, portanto, não se limita ao passado, mas dialoga com questões contemporâneas”, reforça.

Nesse percurso, o professor destaca que é possível ampliar o debate para temas como o agronegócio, a destruição ambiental e os impactos das práticas de monocultura, responsáveis pela perda significativa da biodiversidade em diferentes biomas. A mesma lógica pode ser aproximada de processos atuais, como a expansão do agronegócio em áreas sensíveis, a exemplo da Amazônia.

Identidade e história
O espetáculo também mobilizou outros símbolos da identidade porto-riquenha, como o sapo concho, espécie ameaçada de extinção associada à resistência territorial, o chapéu pava, ligado aos trabalhadores rurais, e a bandeira de Porto Rico hasteada no centro do palco.

Para entender os símbolos usados por Bad Bunny, é importante considerar a situação política de Porto Rico. Depois de quase quatrocentos anos sob domínio da Espanha, Porto Rico passou a ser controlado pelos EUA no fim do século 19. Quem nasce lá tem cidadania americana, e desde 1952 a ilha tem governo e Constituição próprios. Mesmo assim, sua autonomia é limitada: os Estados Unidos controlam questões como defesa e fronteiras, e os moradores de Porto Rico não podem votar nas eleições para presidente.

O artista usa uma bandeira de seu país com azul claro no triângulo, cor associada à luta pró-independência, enquanto o azul escuro (adotado em 1952) é ligado à influência dos EUA.

O professor destaca ainda que não apenas Porto Rico está inserido nessa lógica, mas que o próprio nome do continente também carrega marcas de colonialidade. “A América tem esse nome atribuído a Américo Vespúcio dentro de uma lógica colonial, e essa colonialidade atravessa todos esses países. Todos nós fomos colonos em algum momento, todos nós fomos explorados em algum momento”, afirma.

Essa condição ajuda a explicar por que temas como identidade e resistência aparecem com tanta força na apresentação do artista.

Brasil e América Latina: unidade na diversidade

No encerramento, Bad Bunny enumerou países de todo o continente e projetou a mensagem “Juntos somos a América”, subvertendo a associação comum entre “América” e Estados Unidos e reafirmando o continente como um território compartilhado por múltiplos povos, línguas e histórias.

“Quando se fala em América e se associa automaticamente aos Estados Unidos, apagam-se as nossas histórias e as nossas diversidades”, afirma o especialista. Ao mesmo tempo, isso naturaliza para um estadunidense a ideia de que a América é totalmente deles e para eles.

Segundo o professor, ao deslocar esse sentido, a apresentação de Bad Bunny provoca uma revisão de imaginários consolidados e convida o público a reconhecer a América como um espaço marcado por múltiplas experiências históricas, e não como um bloco homogêneo.

“Isso permite discutir, nas aulas de História, a Doutrina Monroe, as políticas de integração continental e até ações mais recentes do governo Donald Trump que tentam ressignificar ou renomear partes do mapa”, diz, citando como exemplo propostas de rebatizar o Golfo do México como “Golfo da América”.

“Nesse sentido, existem experiências históricas comuns que podem nos aproximar”, afirma. “É fundamental conhecer a história dos povos vizinhos, porque nenhuma integração é possível pautada no desconhecimento e no desmerecimento.”

Para o professor, quando prevalece a ignorância sobre as trajetórias latino-americanas, abre-se espaço para a produção e a reprodução de estereótipos pejorativos, que reduzem sociedades complexas a imagens simplificadas e negativas. Essa reflexão, ressalta, também interpela diretamente o Brasil.

“Nós, como brasileiros, precisamos pensar o quanto nos reconhecemos como latino-americanos”, diz.

Assumir essa perspectiva, destaca o professor da Unicamp, é um passo fundamental para construir uma visão mais crítica, solidária e integrada da América Latina — dentro e fora da escola.

Divulgação
Quem é Bad Bunny?

Nascido em Porto Rico em 1994, Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bad Bunny, consolidou-se como um fenômeno global ao lançar, em 2025, o álbum “DeBí TiRAR MáS FoToS”. A obra, que mescla sentimentos de saudade da ilha natal com críticas à gentrificação, rendeu ao artista conquistas históricas, incluindo o prêmio de Álbum do Ano tanto no Grammy Latino quanto no Grammy internacional, um feito inédito para um disco inteiramente em espanhol.

O cantor foi o artista mais ouvido do mundo em 2025, segundo o Spotify.

Ao rejeitar a adaptação ao mercado anglófono, Bad Bunny utiliza ritmos tradicionais como a bomba e a plena para reafirmar a identidade latino-americana, transformando palcos de premiações em espaços de resistência política, como demonstrou em seus discursos contra as políticas migratórias do ICE e em defesa da humanidade do seu povo.

Para além dos troféus, o impacto do cantor manifesta-se em ações concretas de valorização cultural e econômica, como o movimento “No Me Quiero Ir de Aquí”. Esta residência artística em Porto Rico lotou 31 datas no José Miguel Agrelot Coliseum, priorizando moradores locais e injetando cerca de US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) na economia da ilha. Ao unir sucesso comercial e posicionamentos firmes, Bad Bunny consagrou-se como um ícone do pop contemporâneo, com posicionamentos políticos claros e motivos concretos, sendo o maior deles seu amor pelo povo.

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cultura, ensino médio, história

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