Bilinguismo no Brasil: como a BNCC e as escolas veem o assunto? - PORVIR
Crédito: Vitalii Petrushenko/iStock

Inovações em Educação

Bilinguismo no Brasil: como a BNCC e as escolas veem o assunto?

O aprendizado de uma língua adicional foca na interdisciplinaridade e propicia habilidades socioemocionais e do século 21, afirmam especialistas

Parceria com Edify

por Maria Victória Oliveira ilustração relógio 3 de novembro de 2022

Segundo a edição 2021 do EF EPI (EF English Proficiency Index), o Brasil ocupa a 60ª posição entre 112 nações e regiões analisadas quando o assunto é habilidade na língua inglesa, o que coloca o país na segunda categoria inferior, correspondendo à baixa proficiência do idioma. 

O cenário não pode ser descrito como novo. Ainda em 2013, o British Council realizou a pesquisa Demandas de Aprendizagem de Inglês no Brasil, que mostrou apenas 5,1% da população com 16 anos ou mais afirmava possuir algum conhecimento da língua inglesa, porcentagem maior entre os mais novos – 10,3% dos jovens entre 18 e 24 anos declararam falar inglês. 

Quais são, então, algumas estratégias para melhorar esses índices? Um possível ponto de partida é entender a complexidade do termo bilinguismo. Ana Thornycroft, gerente editorial da Learning Factory do Edify, programa de educação em soluções bilíngues que engloba desde a educação infantil até o ensino médio, cita o linguista francês François Grosjean, que define bilinguismo como o uso de duas línguas no dia a dia. 

“Pode-se dizer que o sujeito bilíngue se vale tanto do seu conhecimento linguístico como de suas habilidades comunicativas – isto é, ler, ouvir, falar e escrever – em duas línguas para interagir com o outro e assim experimentar o mundo que o cerca”, cita Ana. Andreia Fernandes, coordenadora acadêmica do Edify, afirma ainda que as línguas são adquiridas em diferentes etapas da vida, com diferentes objetivos e no contato com interlocutores diversos em contextos variados. 

“O grau de bilinguismo e o nível de proficiência de cada indivíduo é determinado tanto pela frequência de uso, bem como pelo tipo de prática dedicado a cada uma de suas línguas. Por isso, apesar de a maioria dos bilíngues não possuir igual proficiência e fluência, isso pode mudar ao longo da vida, já que está diretamente relacionada à quantidade e qualidade de exposição aos idiomas que usa”, afirma Andreia. 

Bilinguismo e BNCC

“Aprender a língua inglesa propicia a criação de novas formas de engajamento e participação dos alunos em um mundo social cada vez mais globalizado e plural […]. O estudo da língua inglesa pode possibilitar a todos o acesso aos saberes linguísticos necessários para engajamento e participação, contribuindo para o agenciamento crítico dos estudantes e para o exercício da cidadania ativa.” O trecho, extraído do capítulo Língua Inglesa no Ensino Fundamental da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), mostra que o ensino e aprendizagem de inglês tem um caráter formativo. 

Andreia aponta que a BNCC, ao tratar do aprendizado de uma língua adicional, foca na interdisciplinaridade, ou seja, o estudante faz uso desse idioma com base no conteúdo de diferentes disciplinas. “Nesse processo de comunicação, o estudante fará uso de conceitos de outras disciplinas, e, mediante esse processo de interdisciplinaridade, consegue fazer conexões mais sólidas com aquilo que está aprendendo em seu dia a dia”, explica. 

Ana, por sua vez, completa ao defender que a BNCC fala em desenvolvimento de competências além da competência linguística e na importância da formação integral do aluno, o que conversa com a proposta de educação bilíngue. 

“A BNCC tem um grande foco na formação integral do aluno, que é também o nosso objetivo dentro de um contexto de educação bilíngue. O foco de qualquer projeto ou programa bilíngue é desenvolver não apenas as habilidades de uma língua adicional, como acontece dentro de um ensino tradicional de língua, mas também desenvolver as habilidades socioemocionais e as habilidades do século 21, para que possamos preparar o aluno para o futuro”, complementa Viviane Jesuz, coordenadora pedagógica sênior do Edify. 

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Importante dizer, entretanto, que o Brasil conta com as Diretrizes Curriculares para Educação Plurilíngue, do CNE (Conselho Nacional de Educação). O documento, que aguarda homologação, regulamenta os modelos de ensino bilíngue no país e afirma que, apesar de muita controvérsia sobre conceitos de bilinguismos, de modo geral se percebe que estão envolvidos não apenas aspectos linguísticos, mas também sociais e interculturais (saiba mais neste texto no blog do Edify).

Desenvolvimento potencializado

De acordo com a ABEBI (Associação Brasileira de Ensino Bilíngue), pesquisas sugerem que falar duas línguas pode ter um efeito profundo na forma de pensar. Aprimoramento cognitivo, melhorias no sistema executivo do cérebro, atraso no surgimento de efeitos da velhice e maior capacidade de identificar outros idiomas são apenas algumas das habilidades. 

O e-book “BNCC e educação bilíngue: possibilidades e desafios”, do Edify, apresenta cinco benefícios cognitivos, econômicos e sociais que uma formação bilíngue traz para o desenvolvimento dos indivíduos:

1. Ampliação da capacidade de abstração e do pensamento analítico;

2. Criatividade; 

3. Maior desenvolvimento da consciência metalinguística;

4. Enriquecimento cultural;

5. Ampliação das perspectivas para o mercado de trabalho.

Para Viviane, quando se fala em educação bilíngue, é possível observar o desenvolvimento de inúmeras habilidades desde cedo. As funções executivas, por exemplo, são potencializadas no contexto da educação bilíngue, pois o estudante conta com um repertório linguístico ampliado e deve desenvolver suas capacidades de tomada de decisão lidando com esse repertório diferente. Há também o desenvolvimento do pensamento crítico e do raciocínio lógico. 

“Tudo isso serve não apenas para alunos da educação infantil. Vemos que, durante todo o percurso escolar, esses alunos desenvolvem uma habilidade comunicativa ainda mais forte, porque são convidados constantemente a praticar a sua oralidade, a se apresentar em público, a utilizar a língua como ferramenta para que possam interagir em diversas situações apresentadas na sala de aula através de projetos e ações realizadas pela escola, para que ele possa utilizar a língua no contexto real.” 

Ainda temos um percentual muito baixo de alunos brasileiros que se sentem confiantes na comunicação na língua inglesa.

Viviane Jesuz

Segundo a educadora, o trabalho a partir de uma abordagem e metodologia bilíngue integra habilidades e competências que podem ser desenvolvidas em conexão com outras áreas do conhecimento, olhando para o futuro do aluno e para as habilidades que precisa desenvolver para ter as ferramentas necessárias para atuar nos mais diversos contextos.

Quanto mais cedo, melhor

O Colégio Batista, de Varginha (MG), decidiu implementar a educação bilíngue desde muito cedo, tanto na educação infantil quanto nos anos iniciais do ensino fundamental. Segundo Diná de Souza Melo, diretora pedagógica, apesar do trabalho ter começado neste ano, já é possível observar mudanças nos estudantes. 

“As crianças já fazem homenagens em datas especiais cantando canções em inglês, cumprimentam em inglês as pessoas que chegam nas salas e sabem falar várias palavras em inglês no seu dia a dia escolar. Em casa, os pais relatam que também já soltam expressões em inglês em vários momentos. Isso tem acontecido de forma voluntária e sem pressão. É lindo ver o desenvolvimento e resultados rápidos.” 

Diná explica que a escolha pela língua inglesa foi realizada por ser um dos idiomas mais falados no mundo e por poder proporcionar oportunidades aos estudantes no futuro, considerando as exigências do mercado de trabalho. Entretanto, o ensino bilíngue já tem se mostrado como um ‘poderoso impulso no aprendizado e no estímulo cerebral.’ 

As crianças já fazem homenagens em datas especiais cantando canções em inglês, cumprimentam em inglês as pessoas que chegam nas salas e sabem falar várias palavras em inglês no seu dia a dia escolar.

Diná de Souza Melo

“O bilinguismo tem efeito significativo no cérebro e na inteligência humana, além de representar vantagens ao ingressar no mercado de trabalho. Ajuda a desenvolver o pensamento criativo, tem efeitos positivos na memória, é um instrumento facilitador no campo pessoal, leva a uma postura mais empática e respeitosa com outros povos, entre outras vantagens”, enumera a educadora. 

Andreia Fernandes, do Edify, acrescenta: o inglês é indispensável não só para o sucesso no mercado de trabalho, mas para uma melhor compreensão do mundo que nos cerca, desde o nome das redes sociais que são em inglês, o nome de produtos no mercado e termos na tecnologia carregados de palavras em inglês. 

“No mundo globalizado e conectado, onde os algoritmos estão presentes no nosso dia a dia, a compreensão da língua inglesa, especialmente no mercado de trabalho, vai te permitir ter uma participação mais efetiva e ativa, já que você vai compreender o contexto no qual você está inserido. Assim, poderá ter melhor conhecimento de mundo e uma possibilidade de melhor posicionamento crítico para analisar os diferentes tipos de informação que recebe todos os dias.” 

Diná concorda ao reforçar a importância de as escolas inserirem em sua matriz curricular programas que ofereçam o ensino do inglês. “Nos dias de hoje, os jovens e adultos que não dominam esta língua dificilmente alcançarão espaços significativos no mercado de trabalho. Precisamos aproveitar a fase de maior facilidade no desenvolvimento que é a educação básica”, afirma. 

Formação enquanto desafio

Apesar de ser praticamente consenso a importância do aprendizado do inglês, um grande desafio que ainda se coloca para o ensino bilíngue é a formação de educadores especificamente treinados para essa abordagem. 

“Boa parte dos educadores não têm experiência e nem a formação necessária para atuar em educação bilíngue. Somado a isso, uma parcela destes docentes não têm o nível B2 no Quadro Comum Europeu de Referência para Línguas (CEFR), que é o mínimo exigido de acordo com as diretrizes curriculares”, aponta Ana, que também destaca desafios quanto a infraestrutura insuficiente das escolas, com falta de recursos tecnológicos, equipamentos digitais e falta de acesso à uma boa conexão de internet. 

Já Viviane cita que também há questões do lado dos alunos. Muitos deles ainda têm uma defasagem em termos de produção oral e de confiança na língua adicional. “Ainda temos um percentual muito baixo de alunos brasileiros que se sentem confiantes na comunicação na língua inglesa.” 

Para a educadora, o crescimento da educação bilíngue no país, com mais demanda das escolas e das famílias, representa um caminho que mostra a existência de uma perspectiva de crescimento de alunos bilíngues no cenário brasileiro, que, no futuro, se sentirão mais confortáveis e confiantes para se comunicar na língua inglesa. 

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