Alunos de Caruaru (PE) redescobrem a África com arte, história e identidade
Com atividades artísticas e históricas, projeto amplia a visão dos alunos sobre a África e reforça a valorização da ancestralidade negra
por Nathally Samara Rosa Miiller
9 de janeiro de 2026
Quando iniciei minha trajetória na ETI (Escola em Tempo Integral) Reunidas Duque de Caxias, em Caruaru (PE), percebi que muitos estudantes negros não se reconheciam como herdeiros da história e dos saberes africanos. No imaginário da turma, o continente era reduzido a um cenário de fome, guerra e vida selvagem. Uma imagem construída pela ausência de referências positivas.
Foi nesse cenário que criei a disciplina eletiva “Expedição África: Uma viagem pelas raízes do Brasil”. Voltada para turmas do 6º ano, a proposta articula língua portuguesa, história, geografia, arte e sociologia. O objetivo era transformar a lei 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas de educação básica, em um percurso de construção de identidade.
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Raízes cultivadas
A eletiva é um desdobramento de duas experiências anteriores em nossa escola. O projeto “Quilombo” já havia introduzido os conceitos de história da escravização e resistência das comunidades quilombolas, enquanto “Raízes e riquezas: celebrando o Novembro Negro” expandiu esse repertório ao integrar literatura, cultura afro e manifestações artísticas, como danças, lutas e confecção de máscaras, ao currículo de língua portuguesa. Essas vivências revelaram o interesse dos estudantes e abriram caminhos para algo maior.
O projeto atual aprofunda a conexão entre o Brasil e as nações africanas que moldaram nossa sociedade. A disciplina propõe uma “viagem” por nações como Angola, Moçambique e Nigéria. A cada aula, os estudantes são imersos na história, geografia e cultura de cada um desses países, desvendando as complexas influências que se manifestam em nossa cultura.
Primeira parada: escutar
A aula inaugural da “Expedição África” começou com uma pergunta no quadro:
“O que você sabe sobre a África?”
As respostas foram impactantes: tribo, leão, fome, guerra, doença. Ao invés de corrigir, registrei tudo. Antes de ensinar, eu precisava escutar.
Depois, exibimos vídeos sobre grandes cidades como Lagos (Nigéria), Maputo (Moçambique) e Luanda (Angola). A turma viu arranha-céus, universidades, moda, tecnologia e música global, confrontando seus próprios preconceitos.
Viagens, saberes e protagonismo
A cada semana, a turma “viajava” para um país africano, explorando sua história, geografia, espiritualidade, arte e influência na cultura brasileira. Começamos por Angola, debatendo como a colonização portuguesa proibiu línguas locais e impôs o português, que hoje falamos não por escolha, mas como herança de dominação.
Houve a preocupação de demonstrar que Angola não é uma exceção. Assim como outros países africanos estudados, sua cultura vai além da percepção superficial difundida pela maioria dos meios de comunicação. No caso do país do sul da África em questão, sua rica diversidade cultural, formada por múltiplas etnias, evidencia a importância da coletividade e da preservação da herança histórica.
Na aula sobre a Nigéria, usamos a música “Love Nwantiti”, do cantor CKay, como ponto de partida para falar de juventude africana, espiritualidade iorubá e a diversidade linguística. O título, que no idioma igbo significa “meu amorzinho”, ajudou os estudantes a compreenderem que o continente não se restringe à ancestralidade. A África é presente, efervescência e futuro.
O termo banto se refere a um amplo conjunto de povos e línguas africanas que compartilham origens históricas e estruturas linguísticas semelhantes, derivadas da expressão ba-ntu, presente em muitas dessas línguas, em que ba indica plural e ntu significa “pessoa” ou “ser humano”, podendo ser compreendido como “pessoas” ou “humanidade”. Mencionado no contexto da Nigéria e reconhecido por suas múltiplas interpretações, o termo exemplifica a profundidade que cada palavra e cada ação assumem na perspectiva das culturas africanas, nas quais a linguagem está diretamente ligada à identidade, à memória coletiva e à vida em comunidade, especialmente entre os povos da costa oeste do continente.
Povos estes que deixaram um grande legado em solo brasileiro e nos inspiram até os dias atuais, seja em um almoço de domingo com feijoada e samba, seja em um momento de espiritualidade perfumada com ervas ou na partilha de histórias entre os mais velhos e os mais novos. A história africana não se confunde com a brasileira: ela se conflui e se completa.
Em Moçambique, o documentário “Gorongosa: O paraíso renasce” mostrou como a reconstrução ambiental após a guerra civil depende, intrinsecamente, do cuidado com as pessoas.
O país, assim como Angola e Nigéria, possui uma história riquíssima em cada detalhe de sua composição cultural. Cada elemento que se sente, se ouve e se vive é completo. As notas de instrumentos como o atabaque e o xequerê, que se espalham feito ondas repentinas em um mar calmo, trazem um arrepiar que nos permite experimentar uma conexão ancestral adormecida ou esquecida pelos padrões contemporâneos.
🔽Baixe a sequência didática do projeto “Expedição África”
O corpo aprende
As aulas também envolveram expressão corporal e protagonismo. Assistimos ao filme “Besouro”, documentário brasileiro que conta a vida de Besouro Mangangá (Ailton Carmo), lendário capoeirista da década de 1920. O filme está disponível na íntegra no canal do YouTube do Movimento Popular de Capoeira.
Em uma das atividades o comando foi assumido pelos capoeiristas da turma. Com orgulho, eles detalharam os fundamentos da mandinga (a malícia e estratégia dos movimentos) e demonstraram a ginga, enquanto entoavam ladainhas (cantigas que preservam ensinamentos) e conduziam a roda ao som do berimbau e do atabaque.
Outro momento marcante ocorreu quando um estudante praticante de Candomblé conduziu uma aula sobre religiões afro-brasileiras, apresentando roupas e objetos sagrados para discorrer sobre hierarquias e rituais.
Em uma das performances dedicadas às raízes culturais, um dos alunos compartilhou seus conhecimentos sobre instrumentos musicais ligados, de forma direta e indireta, aos países mencionados. Sons geralmente associados a desfiles de escolas de samba, às apresentações do Olodum ou a diferentes manifestações artísticas aproximaram-se da turma, que não apenas ouviu, mas pôde vivenciar a experiência de tocar e reproduzir esses instrumentos, aprendendo diretamente com o colega que conduziu a atividade.
O diferencial do projeto reside na participação ativa de estudantes negros da própria escola. Ao convidá-los para compartilhar seus saberes e talentos em oficinas de capoeira, candomblé, tranças nagô e percussão, a iniciativa valoriza o conhecimento ancestral e a experiência individual, empoderando esses jovens e transformando-os em protagonistas do próprio aprendizado.
Clique na primeira foto para conferir a galeria de imagens:








Desconstruindo estereótipos
Também analisamos representações racistas da mídia. Os desenhos Jungle Jitters (dos anos 1930) e African Tale (da década de 1960) para analisar como diferentes retratações revelam a perspectiva do colonizador ou movimentos de libertação.
Devido ao seu teor racista, Jungle Jitters integra os “Censored Eleven”, grupo de animações pela produtora e distribuidora Warner Bros. banidas de circulação nos EUA desde 1968; embora disponível em domínio público, a obra nunca foi relançada oficialmente (clique aqui para assistir no YouTube).
Em contrapartida, African Tale, produzido na antiga União Soviética, surgiu no ano da independência do Quênia. O filme adapta uma parábola escrita em 1938 por Jomo Kenyatta, intelectual e primeiro presidente queniano, oferecendo um viés anticolonial em contraponto narrativo à visão ocidental.
O que aprendemos juntos?
No encerramento do projeto, a escola toda ouviu os tambores. Sob o comando de um aluno percussionista, o som do atabaque, do pandeiro, do xequerê e do caxixi ecoou pelos corredores.
A participação ativa desses estudantes, compartilhando saberes em oficinas, valorizou o conhecimento ancestral e empoderou os jovens no processo de aprendizagem. A partilha do saber de forma oral, baseada na filosofia Ubuntu, somada ao contato com elementos como culinária e vestimentas, proporcionou uma imersão sensorial completa.
O projeto se consolida, assim, como um espaço de diálogo e valorização, fortalecendo a identidade e o pertencimento de toda a comunidade escolar. A iniciativa oferece uma visão de mundo mais ampla, promovendo a empatia e o senso crítico para combater o racismo. Com propostas assim, a escola demonstra que a educação pode ser uma ferramenta ativa para a justiça social, contra o racismo estrutural e promovendo a equidade.
A foto de abertura deste texto retrata uma apresentação de dança tradicional realizada por crianças da Bibala, no Namibe, Angola, com trajes típicos e coreografia coletiva. A imagem é do Unicef Angola, de 2018, do fotógrafo Marco Prates.
Nathally Samara Rosa Miiller
Trainee no Ensina Brasil, atua em sala de aula com foco em comunicação assertiva e projetos de valorização cultural. É graduada em administração pública pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e possui complementação pedagógica em linguagens pelo Sesi (Serviço Social da Indústria). Tem experiência em gestão de projetos educacionais e mediação de conflitos. Seu trabalho é voltado para uma educação inovadora e inclusiva.






parabéns pela dedicação!
que trabalho lindo!! rico em arte e cultura! 👏🏻💕
Que trabalho incrível! Parabéns por compartilhar o seu conhecimento com tanto carinho e dedicação. Com certeza essa vivência marcou a trajetória dos participantes.