Mapa da Euopa e da Ásia com alfinetes
Debate sobre a Guerra entre Rússia e Ucrânia Crédito: samxmeg / iStockPhoto

É cada vez mais necessário estar atento à atualidade que invade as salas de aula, seja de maneira programada – dentro dos currículos –, seja por meio de discussões suscitadas pelos próprios estudantes.

Diante dos conflitos que agora ocorrem entre Ucrânia e Rússia, é papel de educadores não propagar estereótipos entre as populações e não “cancelar” culturas – como foi visto recentemente em relação a clássicos do cinema e da literatura russa.

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Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP, aponta que é necessário, também, abordar essa questão de maneira crítica e ir além dos conflitos citados, trazendo para o debate outros conflitos que ocorrem ao redor do globo.

Em entrevista ao Porvir, Vicente explica como é possível falar do assunto com crianças e adolescentes e quais cuidados os educadores devem tomar para que o assunto não seja tratado de maneira rasa. Confira abaixo a entrevista:

homem branco de óculos e camisa azul acinzentada encara a câmera. ao fundo uma parede cinza e algumas plantas
Vicente Ferraro, cientista político e pesquisador do Laboratório de Estudos da Ásia da USP

Porvir – Como dar dimensão desses conflitos para crianças e adolescentes?

Vicente Ferraro – Uma estratégia para dimensionar esses conflitos é selecionar artigos de especialistas no assunto e adaptá-los para uma linguagem de melhor compreensão para crianças e adolescentes. Desde o início do conflito, há muitos políticos, blogueiros, jornalistas e mesmo acadêmicos não especializados na área debatendo as suas causas, motivações e consequências. Isso certamente contribuiu para a difusão de análises superficiais, maniqueístas e que super simplificam a realidade – principalmente nas redes sociais, onde as alunas e alunos são muito ativos. As professoras e professores da educação básica têm um papel fundamental na divulgação do conhecimento científico, muito atacado nos últimos anos, e na comunicação entre a academia e os jovens.

Porvir – E de que forma é possível abordar a guerra para além do dualismo?

Vicente Ferraro – É importante abordar de maneira crítica todos os argumentos apresentados pelas diferentes partes envolvidas no conflito – não apenas a Rússia e a Ucrânia, mas também outros países do Leste Europeu e do Ocidente. Deve-se atentar aos fatos e questionar quais seriam os reais interesses por trás desses argumentos e os possíveis ganhos e perdas de cada parte. Frequentemente, analistas focam na vertente geopolítica do conflito. Contudo, ele é muito mais complexo e vai além da geopolítica, abrangendo elementos históricos, a política doméstica, a legitimação de regimes, bem como a ideologia e visão de mundo das lideranças. Tais elementos podem ser abordados em sala de aula para desconstruir os excessos na simplificação da realidade.


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Porvir – Quais devem ser os cuidados que os educadores e educadoras devem tomar ao tratar sobre o assunto?

Vicente Ferraro – Deve-se ter o cuidado de ao abordar os argumentos das partes envolvidas não tomá-los como verdades absolutas. O argumento da Rússia em relação à expansão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no pós-Guerra Fria, por exemplo, é legítimo, mas outras soluções diplomáticas e retaliações poderiam ter sido debatidas e não há evidências de que ele tenha sido o único ou mesmo o principal fator que motivou a intervenção de Moscou. Do mesmo modo, o argumento da Ucrânia em almejar ingressar na OTAN por temer uma agressão russa é também legítimo, dados os acontecimentos a partir da crise de 2014. Há diversos elementos controversos na política do Ocidente e da Ucrânia, mas ao abordá-los deve-se ter cautela em não utilizá-los para legitimar e justificar moralmente a agressão russa contra a Ucrânia, assim como nas críticas à Rússia deve-se ter o cuidado de não idealizar ou “romantizar” o Ocidente e as lideranças ucranianas. Uma abordagem crítica, embasada em fatos e análises de especialistas, pode auxiliar nessa empreitada.

Porvir – Por fim, como combater estereótipos sobre ambos os países?

Vicente Ferraro – Acredito que para combater estereótipos é importante mostrar que as populações de cada país não são responsáveis pelas decisões arbitrárias de seus líderes e que, muitas vezes, são também vítimas desses líderes. No último mês, vimos um “cancelamento” incoerente da cultura russa em diversos países. Como o tradutor Irineu Perpetuo mencionou, Putin não representa o patrimônio cultural russo. Uma forma de combater estereótipos é apontar que na Rússia há muitas pessoas contra a guerra que estão sofrendo repressão por se posicionarem – as decisões de seus governantes não representam a vontade e opinião de toda a sociedade.

Professoras e professores também podem abordar aspectos sociais, culturais e históricos de ambos os países para mostrar que um país é muito mais do que as suas lideranças políticas. Por fim, cabe fazer uma reflexão acerca de outros conflitos no globo envolvendo grandes potências, com impacto humanitário calamitoso, e questionar por que alguns recebem mais atenção midiática e política do que outros; quais são os interesses, vieses e mesmo preconceitos por trás dessa “seleção”. Há décadas vemos filmes de Hollywood retratando russos, árabes e recentemente chineses como vilões. Esse aspecto cultural do “soft power” norte-americano certamente contribui para a formação de estereótipos. Do mesmo modo, o governo russo vem há anos difundindo estereótipos acerca da Ucrânia. O processo de generalização, desumanização e construção do inimigo, principalmente por parte das grandes potências para legitimar intervenções, pode ser debatido em sala de aula.

Repórter. Entre os principais temas da educação, acompanha de perto assuntos relacionados à educação antirracista, literatura, inclusão e primeira infância.

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