Falar “matematiquês” funciona: estudo mostra que o vocabulário do professor impulsiona o aprendizado
Usar palavras como “fatores”, “denominadores” e “múltiplos” pode fazer parte de um conjunto de boas práticas no ensino de matemática
por Jill Barshay
22 de janeiro de 2026
Estudantes, famílias e diretores escolares sabem, muitas vezes de forma instintiva, que há professores melhores que outros. Pesquisadores da área de educação vêm tentando, há décadas e com sucesso limitado, quantificar exatamente quanto melhores eles são.
O que permanece bem mais difícil de explicar é por quê.
Um novo estudo sugere que uma diferença surpreendentemente simples entre professores mais eficazes e menos eficazes em matemática pode estar na frequência com que utilizam vocabulário matemático em sala de aula — palavras como “fatores”, “denominadores” e “múltiplos”.
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Segundo uma equipe de cientistas de dados e pesquisadores em educação das universidades de Harvard, Stanford e Maryland, nos Estados Unidos, professores que usam mais vocabulário matemático têm alunos com desempenho mais elevado em testes de matemática. O ganho no desempenho equivale a cerca da metade do impacto geralmente atribuído a um professor altamente eficaz, um dos fatores escolares mais relevantes para a aprendizagem dos alunos. Ter um professor altamente eficaz pode significar estar meses à frente dos colegas ao fim de um ano letivo.
“Se você está buscando um bom professor de matemática, provavelmente está procurando alguém que expõe seus alunos a mais vocabulário matemático”, afirmou Zachary Himmelsbach, cientista de dados da Universidade de Harvard e autor principal do estudo, publicado online em novembro de 2025.
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A linguagem matemática como aliada no ensino
A conclusão se alinha a um conjunto crescente de pesquisas que apontam que a linguagem tem papel fundamental na aprendizagem matemática. Uma metanálise realizada em 2021, com 40 estudos, mostrou que estudantes com vocabulário matemático mais robusto tendem a ter melhor desempenho — especialmente em problemas mais complexos e com múltiplas etapas. Entender o que é um “raio”, por exemplo, pode tornar mais eficiente a discussão sobre perímetro, área e conceitos geométricos. Alguns currículos de matemática já ensinam vocabulário de forma explícita e incluem glossários para reforçar esses termos.
Contudo, o vocabulário, por si só, dificilmente é uma solução mágica.
“Se um professor ficasse na frente da sala apenas recitando listas de termos matemáticos, ninguém aprenderia nada”, pondera Zachary.
Ele suspeita que o uso frequente de vocabulário faz parte de um conjunto mais amplo de boas práticas de ensino. Professores que utilizam mais termos matemáticos talvez também ofereçam explicações mais claras, conduzam os alunos passo a passo em diversos exemplos e proponham desafios envolventes. É possível ainda que esses docentes tenham maior compreensão conceitual da matemática.
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Isolar o que exatamente está promovendo a aprendizagem dos estudantes — e qual o papel específico do vocabulário — é um desafio, segundo Himmelsbach.
Sua equipe analisou transcrições de mais de 1.600 aulas de matemática de 4º e 5º ano em quatro redes escolares, gravadas para fins de pesquisa há cerca de 15 anos. Foram contabilizadas mais de 200 palavras comuns, extraídas de glossários de currículos de matemática do ensino fundamental.

Mais palavras, melhores resultados: o que os dados revelam
A média foi de 140 palavras matemáticas por aula, mas a variação entre professores foi significativa. O quarto superior dos docentes usou, ao menos, 28 palavras a mais por aula que o grupo com menor frequência de uso. Ao longo de um ano letivo, isso representa cerca de 4.480 palavras a mais — o que mostra que alguns estudantes são expostos a uma linguagem matemática muito mais rica, dependendo do professor com quem aprendem.
O estudo associou essas diferenças ao desempenho dos alunos. Cem professores foram acompanhados por três anos. No terceiro ano, os alunos foram distribuídos aleatoriamente entre as turmas, o que permitiu descartar a hipótese de que os melhores estudantes estivessem sendo agrupados com os melhores professores.
As aulas analisadas eram de redes públicas que atendem, majoritariamente, estudantes de baixa renda. Cerca de dois terços dos alunos recebiam refeições subsidiadas, mais de 40% eram negros e quase um quarto, hispânicos, grupos que, historicamente, enfrentam mais dificuldades em matemática e que se beneficiam mais de um ensino eficaz.
Curiosamente, o uso do vocabulário matemático pelos alunos não teve tanto peso quanto o uso feito pelos professores. Embora os pesquisadores também tenham monitorado a frequência com que os estudantes utilizavam esses termos em aula, não houve correlação direta entre a fala dos professores e o vocabulário ativo dos alunos. A exposição e a compreensão dos termos, mais do que a sua repetição, parecem ser suficientes para promover melhores resultados.

O que torna um professor mais eficaz?
Os pesquisadores também buscaram entender por que alguns professores usam mais vocabulário matemático do que outros. Nem o tempo de experiência docente, nem a quantidade de cursos de matemática ou pedagogia realizados na faculdade explicaram a diferença. Professores com maior conhecimento matemático tendiam a usar mais termos específicos, mas essa relação foi considerada modesta.
Zachary acredita que as crenças pessoais dos docentes desempenham um papel importante. Alguns evitam termos formais, com receio de confundir os estudantes, e preferem expressões mais familiares, como “juntar” em vez de adição, ou “tirar” em vez de subtração. Embora essas expressões coloquiais possam ser úteis em determinados contextos, é importante que os alunos compreendam como elas se relacionam com os conceitos matemáticos formais.
Este estudo integra uma nova onda de pesquisas educacionais que utilizam inteligência artificial, como aprendizado de máquina e processamento de linguagem natural, para analisar grandes volumes de texto e lançar luz sobre o que realmente acontece em sala de aula — um ambiente muitas vezes considerado uma “caixa-preta”. Com uma quantidade significativa de aulas registradas, os pesquisadores esperam identificar quais práticas pedagógicas têm mais impacto e oferecer aos professores um retorno concreto e baseado em dados.
Os pesquisadores não avaliaram se os termos foram utilizados corretamente, mas destacam que modelos futuros poderão ser treinados para isso — fornecendo feedback não apenas sobre a frequência, mas também sobre a precisão e o contexto em que os termos são empregados.
Por ora, a conclusão é modesta, mas significativa: os alunos parecem aprender mais matemática quando seus professores falam mais a linguagem da matemática.
Este conteúdo foi produzido por The Hechinger Report, um veículo independente e sem fins lucrativos focado em desigualdade e inovação em educação. Reproduzido no Porvir mediante autorização.
This story was produced by The Hechinger Report, a nonprofit, independent news organization focused on inequality and innovation in education.






Excelente matéria. Contextualizar os termos matemáticos, assim como usá-los frequentemente e naturalmente em sala de aula fazem a diferença.