Iniciativa sul-africana aposta em parcerias para inserir jovens no mercado de trabalho - PORVIR
Crédito: Harambee Youth Employment Accelerator

Inovações em Educação

Iniciativa sul-africana aposta em parcerias para inserir jovens no mercado de trabalho

Harambee investe no desenvolvimento de habilidades com o objetivo de atacar o desemprego que atinge quase metade dos jovens entre 18 e 28 anos

por Camila Leporace ilustração relógio 20 de abril de 2018

Harambee significa algo como “todos juntos”, no idioma swahili. E é justamente nisso que acredita o empreendimento social Harambee Youth Employment Accelerator, fundado na África do Sul há pouco mais de sete anos. Trabalhando para conectar jovens em busca de emprego a empresas que têm oportunidades, a iniciativa é especialmente importante quando se trata de um país em que cerca de metade dos jovens entre 18 e 28 anos enfrentam o desemprego. Entre eles, quase 50% estão no último ano do ensino médio. Chegar à faculdade é um grande desafio, e seguir adiante com os estudos é o sonho de muitos deles, conta Lebo Nke, executiva responsável por parcerias e apoios no Harambee.

Em entrevista ao Porvir, Lebo defendeu que não tem como um único agente isolado resolver a questão do desemprego entre os jovens em seu país. “É um grande problema, uma grande crise, que nenhuma entidade pode resolver sozinha. Não é um problema do governo, ou das empresas, ou da juventude; a questão é uma grande quantidade de pessoas se unir para resolver”, diz ela, enfatizando a importância de se estabelecer parcerias para mudar esse cenário. “Há todo um ecossistema em torno de nós, e estamos tentando unir todos – empresas, governo e outros setores sociais – para resolver esse problema juntos”, explica. Anualmente, o Harambee promove encontros entre esses agentes, para que sejam buscadas soluções de forma integrada. Além de conectar a juventude do país às vagas de emprego existentes, está em pauta também a possibilidade de geração de novos empregos, o que pode ser feito atraindo investimentos e potencializando as parcerias com empresas de outros países que queiram terceirizar funcionários, por exemplo.

Leia mais:
Escolas públicas empoderam alunos com projetos de equidade racial e de gênero
Um brasileiro e uma escola de bambu na África
Modelo de escola boa e barata leva esperança à África
Desenhos animados locais divertem e educam crianças na África

Como Lebo ressalta, muitos jovens talentosos estão fora do mercado formal e, ainda que não existam empregos suficientes para todos os seis milhões de jovens sul-africanos que precisam de um, há uma certa quantidade de vagas. O problema é fazer com que eles alcancem essas oportunidades. A exclusão e a dificuldade começam por questões geográficas e financeiras, já que muitos residem longe das áreas onde as empresas estão e não podem pagar pelo transporte. Muitos jovens também não sabem onde e como procurar por emprego, e acabam tendo frustradas as suas expectativas, entrando num círculo de desânimo e descrença. A inexperiência, natural especialmente a quem está em busca de uma primeira oportunidade profissional, agrava o cenário. Mas o Harambee acredita e investe na construção das habilidades, apostando na premissa de que, se houver vontade de aprender, elas podem ser desenvolvidas.

É um grande problema, uma grande crise, que nenhuma entidade pode resolver sozinha. Não é um problema do governo, ou das empresas, ou da juventude

Lebo conta que, no começo, o maior desafio do Harambee foi justamente convencer as empresas a se abrirem para pessoas mais jovens e inexperientes. Os empregadores se mostravam resistentes e desconfiados quanto a proporcionar uma oportunidade a alguém que não conheciam, e que ainda por cima não tinha a vivência do mercado de trabalho. Nos processos seletivos, eles costumavam aplicar testes nos quais os candidatos acabavam não tendo o êxito esperado, por demandarem altos níveis de escolaridade ou experiência prévia de trabalho – avaliações que, como destaca Lebo, poderiam nem mesmo traduzir o que a empresa de fato precisava ou tinha a oferecer. O Harambee se empenhou, então, para promover uma mudança na forma de esses empresários pensarem. A equipe propôs maneiras novas de se fazer essa avaliação, que fugissem às formas tradicionais e mostrassem que os jovens poderiam começar sem experiência e, mesmo assim, ser bem-sucedidos.

Essa iniciativa remete ao começo do projeto: em 2010, o Harambee era um piloto, que foi acelerado pela incubadora de projetos sociais Yellowwoods. Durante esse processo, foi feita uma pesquisa para entender as demandas das empresas na contratação de candidatos. Descobriu-se que havia um índice alto de vagas de emprego para iniciantes desocupadas em alguns setores, e uma certa dificuldade para preenchê-las. Os empresários apontaram dois motivos principais para isso: a falta de confiança nos diplomas que comprovavam escolaridade dos candidatos e o receio de que os jovens não estariam “prontos” para assumir os postos. Em relação ao segundo motivo, Lebo conta que os empresários mencionaram questões que os preocupavam como disciplina, postura, falta de curiosidade e de entusiasmo pelo trabalho. Por essas duas razões, eles reforçaram sua preferência por contratar pessoas experientes, que já conheciam o mundo do trabalho. Desenhava-se, assim, a oportunidade para o Harambee atuar e fazer diferença.

Como funciona

Os jovens se candidatam online, no site do Harambee, e a equipe se certifica, antes de tudo, de que eles se qualificam: é necessário ser sul-africano, ter entre 18 e 34 anos e estar buscando emprego há um certo tempo. Há também critérios sociais, que procuram detectar se os jovens estão de fato excluídos do mercado de trabalho. Aqueles que são aprovados nessa etapa são convidados a ir a um dos seis centros do Harambee e incentivados a continuar procurando emprego em paralelo ao processo, além de receber suporte em questões essenciais relacionadas a essa busca – por exemplo, ganhando um endereço de e-mail, já que alguns não têm e outros têm endereços não adequados para buscas por trabalho.

Lebo conta que, apenas com um dia de treinamento básico, alguns jovens retornam ao Harambee comunicando que conseguiram empregar-se. “Às vezes, coisas muito pequenas já ajudam”, afirma ela, contando que nem todos precisam de um treinamento longo. “O melhor treinamento é no próprio emprego”, defende. “Quanto mais cedo a pessoa entrar no emprego, melhor, pois é lá que ela vai aprender exatamente o que o trabalho é; todo o resto é apenas prática”.

Quanto mais cedo a pessoa entrar no emprego, melhor, pois é lá que ela vai aprender exatamente o que o trabalho é; todo o resto é apenas prática

Um dos diferenciais do Harambee é manter o olho na demanda para então avaliar o que pode ser feito para ajudar os jovens a atenderem a essa necessidade. É uma filosofia que, como Lebo explica, vai na direção oposta de muitos projetos que se dedicam a treinar, treinar, para depois encontrar algo que os jovens possam fazer. A executiva, que acredita que habilidades podem ser aprendidas, se refere a essa crença como “learn how to learn”, ou “aprender a aprender”. Na perspectiva do Harambee, customizar de acordo com cada empregador também é importante: as competências mais valorizadas pelas empresas em cada situação em particular podem variar, e, portanto, essas diferenças são levadas em conta na preparação dos candidatos.

Preparo e treinamento

O Harambee aplica avaliações nos candidatos com o objetivo de usar os resultados para ligar os jovens às oportunidades abertas que mais se adequem aos seus perfis, e prepará-los da melhor maneira. Os testes incluem itens como potencial para aprender; habilidade com números; proficiência oral na língua inglesa; aptidão técnica; nível de letramento digital; comportamentos, hábitos e preferências.

Quando necessário, os jovens que procuram o projeto podem passar por até oito semanas de formação. Nesse período, vivem um treinamento marcado pelo que Lebo se refere como “work for work”, ou “trabalhar pelo trabalho”. Pode até haver uma “demissão”. É que a ideia é colocar os candidatos em contato com o mundo real do trabalho, para que entendam como ele funciona, desenvolvam habilidades como atuar em equipe e percebam como podem engajar-se e demonstrar curiosidade pelo que fazem, por exemplo. É também um tempo para aprenderem sobre a importância de serem pontuais, outra atitude que os empregadores valorizam muito, e para aumentarem a confiança em si mesmos.

Leia mais:
Pense em trabalhar habilidades, esqueça a profissão

Voluntários participam do projeto ajudando no preparo para entrevistas e na coleta de doações de roupas mais formais, adequadas para os candidatos usarem nessas ocasiões. A maioria dos jovens que encontraram empregos pelo Harambee estão em segmentos como vendas, turismo, serviços, manufatura, mineração, setores sociais e comunitários e o setor bancário. Mais recentemente, além de investir na busca por empregos formais, o Harambee tem estudado maneiras de ajudar jovens a buscar o empreendedorismo, considerando as opções das pequenas empresas e do trabalho como autônomos.

A partir da premissa de que é necessário que todos os setores se unam para combater o desemprego, o trabalho de Lebo Nke e da equipe do Harambee como um todo tem sido essencialmente o de construir uma rede de parceiros em torno desse desafio, para obter resultados em conjunto. Assim, o projeto está estudando, entre outras ideias, como obter recursos como pacotes promocionais de passagens para uso no transporte público, facilitando o deslocamento dos jovens em busca das oportunidades, e o apoio de operadoras de telecomunicações para tornar gratuito o acesso ao site do projeto, já que a conexão à internet é cara no país e pode configura um obstáculo.

Uma nova plataforma digital para o Harambee está sendo desenvolvida, e Lebo destaca que ela será importante para que o projeto ganhe escala, podendo ajudar mais jovens sem que para isso seja necessário dobrar a operação. A executiva ressalta, ainda, que o recurso irá contribuir especialmente com a questão das dificuldades de deslocamento, poupando os jovens da presença física em vários momentos. Há também o plano de disponibilizar materiais para que os candidatos possam estudar e se preparar online.

Harambee Youth Employment AcceleratorCrédito: Harambee Youth Employment Accelerator

Harambee em números

Até o momento, o Harambee já foi contatado por mais de um milhão de pessoas, e ofereceu assistência presencial a mais de 400 mil. Cerca de 1,5 milhão de avaliações foram aplicadas aos candidatos com o objetivo de cruzá-las com oportunidades. Mais de 40 mil encontraram um emprego graças ao suporte do Harambee, que conta com quase 400 empresas parceiras. Os jovens empregados estão em dez setores da economia da África do Sul.

Quando se trata de retenção, um ano é um número a ser perseguido: pesquisas realizadas pelo Banco de Desenvolvimento Sul-Africano em parceria com a Universidade de Harvard (EUA) mostram que, se os jovens mantiverem seus empregos por 12 meses, eles têm mais chances de continuar empregados depois. Lebo ressalta que a retenção é, portanto, tão importante quanto a criação da oportunidade, pois assim se forma uma rede, os jovens criam laços e fazem contatos. Quebra-se o círculo vicioso da necessidade de acumular experiência que é incompatível com a carência da primeira oportunidade e a realidade da exclusão do sistema. Também para investir na retenção, o Harambee procura ajudar os jovens a encontrar empregos próximos às suas residências.

Com o objetivo de aumentar sua compreensão acerca do mercado de trabalho, o Harambee desenvolve parcerias com grupos como McKinsey & Company e Boston Consulting Group; uniu-se a instituições como as universidades de Oxford, de Joanesburgo e de Stellenbosch para conduzir pesquisas; trabalha com gigantes da tecnologia como Google e LinkedIn, que também têm interesse no futuro do trabalho, além de se associar a grupos e organizações locais.


TAGS

autonomia, competências para o século 21, empreendedorismo, ensino médio

Deixe um comentário

avatar
500
  Acompanhar a discussão  
Tipo de notificação