“A gente está perdendo a noção de intimidade”, afirmou a psicanalista Vera Iaconelli em um podcast da revista Gama. Embora sejam muitas as práticas de compartilhamento de dados e informações nas redes sociais, parece que poucos são os espaços em que cada sujeito consegue se permitir ser e sentir com certa liberdade e potência. Abrir espaço para a escuta de diferentes histórias, cada uma com seus enlaces, nuances e desdobramentos, é uma forma de valorizar a diversidade e a inclusão, principalmente entre pessoas mais velhas, frequentemente vítimas de etarismo.

No ensaio intitulado “O narrador”, o filósofo alemão Walter Benjamin defendeu que os melhores narradores são mesmo aqueles e aquelas a quem é dado o direito de contar a experiência de toda uma vida. A partir dessa reflexão, surgiu a ideia: por que não ensinar narrativa a partir de histórias e depoimentos reais? Por que não colocar os estudantes em contato com a matéria bruta da própria vida? Não é este o núcleo principal da própria educação: aprender a viver?

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Assim nasceu o projeto ”Lentes de afeto”, desenvolvido nas aulas de Língua Portuguesa com uma turma do 2º ano do ensino médio do Senac Lapa Scipião, em São Paulo (SP), e que teve como resultado final o documentário “Entrelaços”, inteiramente captado, roteirizado, produzido e editado pelos próprios estudantes, divididos em grupos de trabalho complementares, sempre orientados pelo professor em cada uma das etapas.

Segmentar o trabalho em etapas complementares permitiu que a turma pudesse trabalhar inteiramente em coletivo, o que era mesmo um dos objetivos centrais do projeto, no pleno exercício de sua função social como escola. A produção promoveu um encontro entre gerações, construído a partir da escuta e das diferenças, na tentativa de encontrar aquilo que, em nós, ainda pode fazer ecoar algum sentido de humanidade e de vida em sociedade. É um projeto que apostou na escuta, no convívio e no que poderia nascer desse processo.

Grupo de entrevistados do Centro de Convivência do Idoso de Caieiras (SP) Crédito: Yan Bello

Passo a passo da ideia

Dar a ver um setor que é majoritariamente esquecido por grande parte das iniciativas e políticas de promoção e valorização da vida e da cultura é um primeiro movimento para a conquista da igualdade e do reconhecimento de cada uma das pessoas — sem as quais não pode haver essa coisa pública a que comumente se chama sociedade.

Por isso, para iniciar o debate, levei aos estudantes o manifesto “Uma estética da fome”, escrito em 1965 pelo cineasta baiano Glauber Rocha. O texto é um dos documentos mais clássicos dos estudos e abordagens acerca do Cinema Novo no Brasil. Depois de refletirem sobre as relações de opressão ainda presentes na realidade brasileira, de lá até aqui, os estudantes se depararam com algumas questões centrais:

Como um sujeito conta sua própria história?

A partir de qual lugar fala cada sujeito?

Nesse momento, o texto de Walter Benjamin foi fundamental para discutir como as condições de vida e de trabalho influenciam aquilo que cada pessoa consegue narrar, expressar ou silenciar sobre a própria experiência.

Foi a partir do encontro entre as ideias de Benjamin e Rocha que nasceu a ideia de um documentário. Afinal, tão importante quanto estudar e analisar narrativas e documentários é poder realizar uma obra autoral. O espaço escolar é o de estudo de uma tradição, mas também o da promoção de um mundo de possibilidades, que precisa se abrir a cada estudante como promessa e referência.

Para tornar o estudo mais específico, os estudantes seguiram o aporte teórico feito por Benjamin e optaram por entrevistar pessoas da terceira idade.

O livro “Memória e sociedade: lembranças de velhos”, de Ecléa Bosi, tornou-se uma referência basilar para o projeto. Professora emérita de Psicologia Social do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), ela foi uma das principais pesquisadoras brasileiras dedicadas à memória e à condição de grupos socialmente vulnerabilizados, como trabalhadores de baixa renda e pessoas idosas.

Ecléa Bosi também idealizou e coordenou o programa Universidade Aberta à Terceira Idade da USP. Falecida em 2017, deixou um trabalho pioneiro que inspirou esta experiência. De algum modo, o projeto também presta uma homenagem à professora e ao seu legado.

Assista ao documentário:

Câmera, escuta e ação

Somamos a inspiração na obra de Ecléa às práticas do Cinema Novo para desenvolver o projeto. O slogan “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” representa muito do alcance que foi possível a este trabalho, uma vez que, para sua execução, poucos elementos foram efetivamente necessários: apenas uma boa ideia e algum material para registro — além do entusiasmo com a pauta e com a proposta escolhida para execução e análise.

Nesse ponto, era fundamental que os estudantes pudessem atribuir aos próprios aparelhos celulares outra finalidade, que fosse didática e, por que não?, artística. Assim, os principais materiais já estavam reunidos. Faltava, agora, apenas o elemento principal: as pessoas a entrevistar.

Em um primeiro momento, em pequenos grupos de trabalho, os estudantes testaram suas ideias com transeuntes e familiares. A divisão de funções previa no mínimo quatro pessoas por grupo: uma pessoa responsável pela captação; outra, pelo roteiro das perguntas; outra, pelo diálogo com os entrevistados; e, por fim, alguém que cuidasse da edição.

Em comum acordo, a sala optou por aqueles que seriam seus cinco principais tópicos de interesse, curiosidade e aprendizado sobre a vida: amor, família, saudade, sonho e futuro. Todas as perguntas seriam feitas sempre em torno desses cinco elementos. As perguntas não seguiam um roteiro inteiramente preestabelecido. O combinado geral, feito junto ao grupo, era um só: que a escuta fosse preservada e que dali fosse produzido um profundo interesse pelas histórias e pela vida das outras pessoas.

Tamanho foi o engajamento dos estudantes e de suas respectivas famílias que o trabalho começou a tomar novas proporções. Graças a um dos estudantes da própria turma, Fernando Campos, o que poderia ser apenas um exercício cotidiano logo se transformou em um diálogo com a Prefeitura de Caieiras, em São Paulo, e com o Centro de Convivência do Idoso do município.

A instituição abraçou a ideia de promover um encontro entre as gerações. Alguns estudantes foram até o Centro de Convivência para acompanhar as atividades desenvolvidas no local e realizar registros com seus próprios celulares. Depois, um grupo de pessoas idosas foi até o Senac, onde ocorreu a maior parte das entrevistas e gravações do documentário. Os participantes também retornaram à escola para acompanhar o resultado final do trabalho. Naquele momento, o projeto já não era apenas um exercício de sala de aula: era a descoberta de um mundo.

Durante as gravações no Senac, câmeras e microfones da própria instituição foram utilizados para captar imagens e sons, o que permitiu que os estudantes entrassem em contato com equipamentos profissionais e trabalhassem ao lado de técnicos e funcionários de outros cursos ligados à produção audiovisual, que os ensinaram a manusear os aparelhos. A sala de aula se transformou em um prédio todo, na experimentação de diversas formas de arte e registro; naquele momento, a aula era também a escuta do acontecer da própria vida.

Confira o depoimento dos alunos sobre o projeto:

Inspiração e sensibilidade

Produzir entusiasmo, estabelecer nuances possíveis para a manifestação do próprio desejo e encaminhar afetos em direção a um bem maior parece ser mesmo muito da nova configuração do difícil trabalho com adolescentes. Durante a etapa de edição dos materiais, para que a criação tivesse algum espelho ou fonte de inspiração, cenas do documentário “As canções”, dirigido pelo cineasta Eduardo Coutinho, serviram como inspiração e estudo para a turma.

Divididos em grupos, os estudantes ficaram responsáveis pela edição da história de vida de um dos entrevistados, a partir dos principais tópicos já apresentados. Sempre em grupo, costurando falas e cruzando conexões que a própria sensibilidade sempre oferece, entre risos e lágrimas, os estudantes foram produzindo seu próprio material.

Sem dúvida, é preciso dizer: a fim de que o trabalho se tornasse possível, além do coletivo reunido em sala de aula a cada semana, a contribuição dos agentes responsáveis pelo Centro de Convivência do Idoso, de Caieiras, foi fundamental. Destacam-se, portanto, nesse processo de mediação e negociação, as participações de Piero Sonnberger, Clebson Matos e Jéssica Rosa Quinas, responsável pela administração do espaço. A vocês, nossos agradecimentos!

Crédito: Yan Bello

Reaprender a ouvir

A escuta foi justamente uma das principais e mais ricas fontes de aprendizado adquiridas com este projeto. Justamente porque a escuta também é uma prática que exige aprendizado, este projeto ganhou em vitalidade e urgência. Nas palavras de Lincon Amarantes, um dos estudantes da turma: “o projeto foi uma ponte que nos levou a lembrar que os idosos passaram a vida construindo suas histórias e agora é a nossa vez de parar para ouvi-las”.

Crédito: Yan Bello

Por sua vez, para Inaíra Lima, o projeto consistiu em “ouvir a vida por meio daqueles que já foram tão marcados por ela. Ouvir a história dos idosos me marcou profundamente, fez com que eu ressignificasse muitas coisas e, principalmente, passasse a vê-los com grande admiração”.

Bruno Silva, um dos estudantes responsáveis pela realização das perguntas durante as entrevistas, destaca que, na conversa com os idosos, “parecia que só tinham passado 5 minutos em vez de 45”.

Naquele momento, um objetivo maior havia sido alcançado: agora, aquele grupo de estudantes era realmente um coletivo. A matéria viva do mundo ensinou a eles a beleza que existe em estar vivo. Em um bonito depoimento, Murilo Andrade afirmou que “pela primeira vez, dediquei-me muito além do simples senso de obrigação, desenvolvendo um carinho genuíno por todos aqueles idosos”.

Após a finalização do processo de edição, a etapa final consistiu na apresentação do documentário aos demais estudantes e às famílias dos integrantes da turma. A exibição fez parte da programação oficial da rede Senac, durante a Semana de Inclusão e Diversidade de 2025, com exibições nos períodos matutino e vespertino. Os próprios estudantes organizaram rodas de conversa com o público presente no anfiteatro da escola. Ali se costurava um elo de compromisso entre escola, trabalho e família.

Crédito: Yan Bello

Objetivos alcançados

O trabalho, também centrado no desenvolvimento de competências socioemocionais de cada um dos estudantes, teve alguns objetivos primordiais. Sem sombra de dúvida, um dos objetivos principais consistiu no desenvolvimento de redes de escuta e de empatia entre os próprios estudantes e entre gerações distintas. Desde o início, este havia sido um dos objetivos principais: que a turma conseguisse se reconhecer e trabalhar como um coletivo, o que não estava dado na materialidade da convivência escolar. Estabelecer uma comunidade a partir do que há de mais diverso na singularidade das histórias e heranças de cada estudante foi mesmo uma das principais conquistas deste trabalho.

Além disso, a possibilidade de entrar em contato com formas diversas de linguagem permitiu que múltiplas formas de saber e diferentes inteligências fossem trabalhadas junto à turma, bem como que os estudantes experimentassem distintos modos de ser e criar em conjunto.

No que diz respeito à produção de narrativas, Walter Benjamin estava mesmo correto: um tanto de coisas acontece quando um sujeito se permite aprender a narrar a partir daquilo que existe na vida como possibilidade, encantamento e mistério. O contato com realidades diversas permitiu que os estudantes ampliassem suas próprias ideias sobre o que se conta e o modo como se conta, ampliando o conceito e as possibilidades de cada narrativa, tendo como base a própria experiência do vivido. No dizer de Maria Eduarda Ribeiro: “Fazer parte de um projeto que retrata histórias de vida foi, com certeza, uma das experiências mais importantes e honrosas da minha jornada”.

Por fim, a preocupação ética e estética no trato com as minúcias da vivência de outrem foi uma conquista para a sala de aula e para o exercício de uma vida em democracia, em nome da qual projetos deste tipo se fazem, escrevem e se inscrevem. Alcançados esses objetivos, pautados no exercício da cidadania possível a todos os integrantes, reconheço que muito foi feito — não apenas como trabalho em sala de aula, mas como prática de vida.

Crédito: Yan Bello

O que aprendemos juntos?

Foi perceptível o envolvimento de todos os alunos do 2º ano diante de histórias tão vivas e emocionantes, contadas por pessoas com um repertório de vida digno de contemplação. Vida, afinal, é mesmo para ser vivida e contemplada. A partir do que nasceu da potência dos encontros, a sala de aula se transformou em um espaço de colaboração entre os próprios alunos, em que cada um se reconheceu como um sujeito essencial para o desenrolar do projeto — que era efetivamente seu, porque era nosso.

E porque acredito em tudo que podemos construir quando nos fortalecemos como grupo, encerro estas considerações com profundo carinho, respeito e admiração por todos e todas que me ensinaram — e que ainda me ensinam — o que pode um professor e até onde se alcança uma vida.

Manuela Adolpho lembra que o maior dos aprendizados se deu quando entendemos que, juntos, éramos todos um mesmo grupo, sob uma mesma lente — a do afeto: “Naquele momento éramos o 2º ano A, e foi muito lindo”. Que sorte poder ter a beleza deste encontro registrada em vídeo, em um trabalho que também contou com o apoio dos demais professores do Senac.

Uma escola só funciona em comunidade. Sem sombra de dúvida, o que fica dessa experiência é — e sempre será — a sensibilidade e o afeto diante de tudo que existe, junto à esperança diante daquilo que ainda insiste em nascer como potência a cada encontro, dentro e fora da sala de aula.

É professor e doutor em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP). Também é mestre em Artes pela mesma instituição, pós-graduado em Psicanálise Clínica e bacharel e licenciado em Letras desde 2015. Atualmente, desenvolve um projeto...

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