O que muda nas escolas após a crise do coronavírus? - PORVIR
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Inovações em Educação

O que muda nas escolas após a crise do coronavírus?

Em transmissão online, Duda Falcão, Co-CEO do grupo Eleva, comenta tendências que devem fazer parte do “novo normal” das escolas - do distanciamento físico nas salas e corredores às possíveis alterações no currículo

Parceria com Plataforma Eleva

por Redação ilustração relógio 25 de maio de 2020

Repensar espaços, definir prioridades pedagógicas, seguir protocolos de segurança e manter um canal de comunicação direto e constante com a comunidade são algumas das práticas que deverão definir a nova realidade das escolas brasileiras diante da crise do coronavírus. É esta a opinião de Duda Falcão, diretora executiva da Escola Eleva e Co-CEO do grupo Eleva.

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Duda falou sobre o assunto durante uma transmissão online no Instagram na qual respondeu às perguntas de Antônia Mendes, diretora da plataforma de ensino Eleva. Confira abaixo os principais trechos da conversa:

Antônia Mendes: Como está o planejamento de retorno às aulas presenciais e o que se acredita que vá ser implementado quando este retorno acontecer?
Duda Falcão: O amanhã não está claro para ninguém, e só dá para falar em retorno às aulas quando a curva achatar, o que ainda não aconteceu no Brasil. A única certeza é a de que essa volta não será uma volta ao que era antes, pelo menos não até termos uma vacina ou um avanço relevante nos tratamentos. Talvez nem se deva falar em “volta”, mas, sim, em “novo normal”, “recomeço” ou “segunda fase”. Acho importante continuarmos observando os outros países, para aprendermos e depois fazermos aqui. Do que estou observando, vai haver um distanciamento mínimo necessário de cerca de um metro e meio entre cada aluno. Então a escola terá de repensar seus espaços e entender como conseguir este distanciamento na sala, no corredor, no banheiro, na alimentação, no pátio. Estamos falando, por exemplo, em uma sala de cerca de 20 alunos. Discute-se também a possibilidade de apenas os alunos mais velhos voltarem no começo, já que conseguem seguir protocolos e regras [com mais facilidade do que os mais novos]. Além disso, provavelmente todas as escolas voltarão de forma parcial ou sequencial. Ou seja, talvez no começo a escola seja um pouco presencial e um pouco à distância, ou um dia sim e um dia não. Há todo um xadrez e a escola terá de se reinventar de novo.

Antônia Mendes: A que tipos de questões as escolas devem estar atentas?
Duda Falcão: Não há receita de bolo, pois tudo está em evolução. Mas acho que é preciso definir prioridades. O norte principal desta volta deve ser a saúde e a segurança. Isto vem antes de tudo. É preciso pensar: “se fosse meu filho, eu o mandaria de volta à escola neste plano e nestas condições?”. Depois da saúde vem o pedagógico, que é pensar o que há de mais importante [a ser trabalhado] neste ano. Se o tempo não é igual, é preciso fazer escolhas e definir o que é mais importante em cada série e cada segmento. Depois há o planejamento do orçamento. Se estamos falando de uma escola com menor quantidade de alunos por turma, provavelmente vai ser preciso adicionar novas turmas e professores. O que isso representa financeiramente? Ou, se for preciso fazer o presencial e o digital ao mesmo tempo, qual infraestrutura será necessária? É importante orçar e planejar com o pé no chão. Também há uma importante questão relativa a processos, protocolos e treinamentos. Como é que você treina o pai [a agir] na entrada e na saída? Como é que você treina o aluno na ida ao banheiro? Existe este [momento do] pátio, existe a alimentação? Como é que eles funcionam? Este treinamento tem de ser de primeira, de excelência. E finalmente é preciso não deixar de se comunicar com a sua comunidade. É o momento de pensar junto, de dividir, de se comunicar mais, de escutar os pais, de treinar os alunos. É preciso estar em sintonia, e estar em sintonia num momento de incerteza é algo muito difícil. Então é importante não se esquecer da comunicação. Acima de tudo, este é um momento de comunidade.

Antônia Mendes: Durante esta crise, surgiu alguma tendência educacional que não estava mapeada?
Duda Falcão: O Brasil é um dos poucos países que ainda possui uma realidade grande de escola de meio período, e existe uma correlação enorme entre o tempo na escola e a aprendizagem do aluno. No momento não dá para pensar nisso, porque o que queremos é voltar às aulas. Mas daqui há um ou dois anos talvez a gente possa pensar em um modelo no qual a escola seja metade presencial, e metade à distância. Poderíamos pensar no ensino à distância como uma coisa mais de conteúdo, no qual se pode ter os melhores professores dando aulas que atingem vários alunos, e um momento presencial que valoriza mais o ensino baseado em projetos e a socialização. Quando tudo isso passar, talvez a gente possa pensar em uma realidade na qual o Brasil tenha mais escolas em tempo integral e com currículo mais abrangente.

Antônia Mendes: O COVID muda o enfoque curricular de alguma maneira? Há algo que deveria ganhar mais ou menos espaço na grade curricular a partir desta crise?
Duda Falcão: A gente já sabia que as habilidades socioemocionais eram importantes. Elas já são realidade na Base Nacional Comum Curricular e no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) e já vêm entrando de forma mais estruturada na grade de algumas escolas, mas é algo que ainda está sendo feito de forma um pouco tímida. No entanto, o que a pandemia mais pede são estas habilidades: lidar com os sentimentos, se relacionar com os outros, ter projetos de vida, desenvolver a colaboração, a criatividade, o pensamento crítico, a perseverança. O mercado de trabalho já pede tudo isso, mas o momento simboliza como estas habilidades têm de entrar com mais força no currículo. A escola tem de formar um jovem com muito conteúdo e capacidade acadêmica, mas que também está seguro para enfrentar os desafios da vida e lidar com suas fraquezas e os altos e baixos. A outra coisa é que queremos ter um currículo mais pragmático – no sentido de um conteúdo que se dialoga com o mundo de forma mais direta, que produz um conhecimento aplicável. Matemática, Português e História continuam lá, mas por que não dar ao aluno liberdade de escolher aulas eletivas com noções básicas sobre direito, finanças, comunicação e debate, psicologia, “design thinking”? Não interessa qual profissão o jovem vai seguir, se tem mais ou menos dinheiro e em que lugar do mundo vai viver: ele vai enfrentar o desafio de fazer um discurso, de gerenciar seu dinheiro, de entender como a sociedade funciona do ponto de vista do Direito e da Justiça. O último pilar é a cidadania, ou seja, como a gente coloca na formação desse jovem uma noção maior sobre seu papel no coletivo. Vimos muitas iniciativas espontâneas de contribuição para o coletivo surgirem, e diria que o Brasil tem jeito para isso. Temos de pegar este momento e colocar na agenda para criar uma cultura de dar, uma cultura de “eu sou responsável pelo coletivo”.

Antônia Mendes: O professor que volta para a sala de aula é o mesmo de antes da crise? A relação com a família e os alunos melhora ou piora?
Duda Falcão: Melhora, porque há um elemento de saudade e há muito carinho envolvido nessa volta [às aulas presenciais]. E acho que o professor volta melhor. A gente fala muito sobre tecnologia, sobre mundo ágil, e a educação [faz isso] sempre num ritmo mais devagar, valorizando a tradição. E há uma razão para isso: a gente não pode arriscar com os nossos jovens e a nossa formação de futuro. Ao mesmo tempo, não dá para a escola não mudar e desperdiçar o futuro. Acho que o professor volta com a tradição que sempre teve, mas com inovação também. De certa forma, nos últimos meses ele operou como uma empresa de tecnologia. Ele foi para a internet e reinventou sua aula, tentou ser mais empático, testou, melhorou, pediu feedback [retorno avaliativo] para e ele e a escola. Acho que ambos voltam melhores ao combinar e equilibrar mais o que é importante preservar do passado e o que é preciso mudar.

Antônia Mendes: E há algo que nunca mais voltará a ser como antes da pandemia?
Duda Falcão: Acho que estamos dando maior importância à escola e ao professor. Talvez antigamente a gente achasse que o papel da escola era essencialmente o de ensinar e formar o jovem. Esse papel é importante, sim, mas acho que também ficou claro que a escola tem um papel muito grande na estabilidade e na rotina da família, um papel de fazer a casa e a própria sociedade funcionar. Acho que esse papel ficou mais forte, e também a [percepção do] quanto é bom estar na escola: o abraço, as amizades, ver pessoas, socializar. Tudo isso ganhou importância. E nessa mesma linha vem o professor. [Foi o momento de] pensar sobre como esse professor fica com tantas crianças todos os dias, por anos e anos. Merecidamente, o papel deles está mais reconhecido do que nunca. [Percebeu-se que] para ser professor, é preciso muita formação, competência, paciência e coração.

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coronavírus, educação infantil, ensino fundamental, ensino médio

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Muito interessante a entrevista. Obrigado. Quando voltarmos ao normal, perceberemos que nosso normal é novo e desafiador.