Professor propõe criação de carrinhos de corrida em oficina de robótica - PORVIR
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Diário de Inovações

Professor propõe criação de carrinhos de corrida em oficina de robótica

Aula no colégio Poliedro, em SP, desenvolve conhecimentos científicos, criatividade, curiosidade, colaboração e habilidade de resolver problemas

por Vinicius de Carvalho Haidar ilustração relógio 4 de maio de 2016

Em cada aula da oficina extracurricular de robótica, que tem alunos do primeiro e segundo ano do ensino médio, eu proponho um desafio diferente. O curso como um todo é muito baseado em projetos. Então os desafios podem ser alguma simplificação de um problema da vida real, para que eles trabalhem na solução.

Na aula de motores, eu propus que construíssemos o jogo Mario Kart de uma maneira mais simplificada. Não foi com carrinhos de controle remoto, nem nada muito elaborado, mas os alunos tiveram que projetar e construir os veículos pra correr dentro de um cenário com vários obstáculos e rampas. Eu queria que eles se preocupassem mais com a construção, com qual motor iam usar, como o carrinho ia andar, como seria controlado etc. Para testar essas montagens e sair da proposta “construa um carrinho e teste”, eu propus que experimentássemos jogando, como se fosse no Mario Kart mesmo.

Cada assunto é dividido em duas aulas. Na primeira, eu passo uma parte um pouco mais teórica, explicando alguns conceitos que os alunos não têm no curso comum, sobre a parte de motorização, por exemplo. Só que eu explico de uma maneira um pouco mais prática. Depois, perto do final da aula, proponho o desafio e, na aula seguinte, eles têm o período inteiro para se concentrar na montagem do projeto.

Carrinhos construídos durante oficina de Robótica

Carrinhos construídos durante oficina de Robótica

Para isso, usamos um kit de robótica que permite construir estruturas mais resistentes. As peças são pequenas vigas e barras já furadas, além de porcas e parafusos. É como se fosse um lego, só que mais sofisticado.

Geralmente, os alunos ficam bem empolgados com as propostas. Como as aulas vão evoluindo e o nível de dificuldade vai aumentando, eles ficam com uma grande expectativa para saber os próximos passos. No começo, eu dou uma direção do que é para ser feito. Na primeira atividade realizada, por exemplo, eu desafiei os estudantes a construírem torres que suportassem a maior carga possível e tivessem a maior altura. Eles entenderam a proposta e fizeram do jeito que escolheram. Na proposta do Mario Kart, eu dei menos instruções, só falei que tinham que construir um carrinho.

A curiosidade ajuda muito no aprendizado dos alunos, inclusive dentro da sala de aula, porque motiva a vontade de entender mais coisas, de ir atrás de mais conteúdo para complementar o estudo

Eles tiveram quase uma hora e meia de aula para planejar e montar e na meia hora final da aula nós fomos testar. Depois que eles montaram tudo, colocaram as bexigas na parte de trás do carro para imitar o jogo. Eu distribuí alguns alfinetes como se fossem as armas e também montei uma versão do veículo para jogar com eles e trazer um pouquinho mais de emoção para a atividade.

Com essas propostas, os alunos desenvolvem muito a parte de coordenação motora e trabalhos manuais. Eles conseguem mexer com ferramentas, juntar o material, parafusar, desparafusar, cortar fios e materiais. Outra questão que eu procuro estimular bastante é o desenvolvimento da criatividade. Os desafios propostos nas aulas são mais abertos. É diferente da sala de aula onde, normalmente, tem um caminho mais definido de solução. Na oficina, eu falo pra eles “não tem uma resposta pronta, você deve trabalhar para encontrar uma possível solução para o que foi proposto”.

Percurso construído para testar os carrinhos

Percurso construído para testar os carrinhos

Eu tento estimular também a curiosidade dos alunos. Acredito que isso ajuda muito no aprendizado deles, inclusive dentro da sala de aula, porque motiva a vontade de entender mais coisas, de ir atrás de mais conteúdo para complementar o estudo. Além disso, eles aprendem a lidar com as dificuldades, porque quando estão montando o projeto, eles pensam em uma coisa, mas na hora de executar, nem sempre sai do jeito que foi planejado. Então tem muito essa questão da adaptação.

O curso de robótica também trabalha outras habilidades, que são fundamentais pro desenvolvimento de todo mundo, não só pra alguém que quer ser um engenheiro

Nas primeiras aulas, eu vejo os estudantes interagindo um pouco menos, com mais timidez na hora de propor soluções e fazer questionamentos. Com o passar do tempo, esses mesmos alunos que no início estavam mais introspectivos, começaram a ser mais questionadores, a falar mais dentro da sala, a participar mais dentro do grupo. Então eu acho que a parte social e de relacionamento é bastante trabalhada na oficina.

Eu acho que é muito importante, independente do aluno gostar ou não de exatas, ele participar dessas atividades. O curso de robótica também trabalha outras habilidades, que são fundamentais pro desenvolvimento de todo mundo, não só pra alguém que quer ser um engenheiro. As atividades trabalham o pensamento analítico, o trabalho por projetos e a resolução de problemas, que é o dia a dia de qualquer área de atuação.


Vinicius de Carvalho Haidar

Formado em Engenharia Mecatrônica pela Escola Politécnica da USP, com complementação e pesquisa na área da mecatrônica pela Universidade de Stuttgart, Alemanha. Com experiência de mercado em diferentes setores da economia, atualmente é professor de Robótica no Colégio Poliedro, em São Paulo e coordenador do Curso Pré-Vestibular do Poliedro SP – Unidade Vila Mariana. Trabalha na ONG Crea+ como gestor da Escola Estadual Professor Daniel Paulo Verano Pontes, é professor de contabilidade no curso de negócios da BTC e integrante da rede Lab Makers.

TAGS

aprendizagem baseada em projetos, autonomia, competências para o século 21, educação mão na massa, ensino médio, robótica, socioemocionais, tecnologia

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Red B

Eu acho que esse é um dos caminhos para o futuro: Educação centralizada em projetos, incentivando o trabalho em equipe, temperado com algo levemente lúdico e competitivo, e o emprego de conhecimentos e habilidades. Cria um contexto onde o que foi aprendido em sala mostra sua utilidade e há espaço para diferentes competências. E tudo isso com investimentos razoavelmente baixos em equipamento e infraestrutura para funcionar.