Professora adota WhatsApp para trabalhar biografia como gênero literário - PORVIR
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Diário de Inovações

Professora adota WhatsApp para trabalhar biografia como gênero literário

Estudantes gravam vídeos com apoio das famílias e criam documentário sobre ativistas que dão nome às ruas e espaços públicos da comunidade onde vivem, em Belém (PA)

por Maria de Nazaré Rocha Souza / Soraya de Cássia Costa Pereira ilustração relógio 20 de setembro de 2021

A chegada da pandemia da Covid-19 no Brasil impôs novos desafios para a sociedade e, na educação, um dos principais efeitos foi o fechamento das escolas. Trabalhar com crianças em fase de alfabetização e letramento fora da sala de aula se mostrou como o maior desafio que já enfrentei em mais de vinte anos de carreira. Buscando superá-lo, juntamente com a professora Soraya de Cassia Costa Pereira, pensei no projeto intitulado “Do contexto crio uma biografia”, que vem sendo realizado na Escola Municipal de Ensino Fundamental Olga Benário, localizada em Belém (PA), com os alunos do 2º ao 5º ano.

O projeto tem como objetivo evidenciar a importância do gênero biográfico como estratégia de ensino na valorização das histórias de vida dos sujeitos e dos territórios que constituem o ambiente escolar, promovendo a alfabetização dos alunos. Está dividido em duas fases: remota e presencial. A primeira fase foi realizada no primeiro semestre do ano de 2021 e contou com ações que utilizavam jogos educativos virtuais e, principalmente, o aplicativo WhatsApp na elaboração de materiais audiovisuais pelos alunos.

A Escola Olga Benário está localizada no bairro das Águas Lindas, região periférica de Belém, marcada pela carência de saúde, segurança e saneamento básico. O território da escola surgiu a partir de um assentamento do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) e, por isso, suas ruas receberam os nomes de ativistas importantes que lutavam por direitos sociais básicos. Nesse sentido, as ações do projeto estão pautadas na pedagogia freiriana, buscando contribuir para a valorização das identidades de si e do outro, bem como valorizar a história de lutas sociais dos fundadores do bairro, com o objetivo de sensibilizar os alunos para as questões ambientais e sociais que os cercam.

No desenvolvimento das atividades remotas do projeto, utilizamos o aplicativo WhatsApp como um meio de comunicação e ferramenta de apoio ao ensino por se tratar de um recurso popular e gratuito. Desde o primeiro momento de apresentação, buscamos conhecer a história dos alunos, que gravaram vídeos e áudios falando seu nome, idade, rua onde mora, hobbies e outras informações que julgassem importantes. Aos alunos que não puderam gravar o vídeo, foi solicitada uma foto. Contamos com o apoio dos responsáveis de cada estudante para o envio desses materiais.

Professora adota WhatsApp para trabalhar biografia como gênero literárioCrédito: Reprodução

Olga Benário, Luis Carlos Prestes, Tarsila do Amaral e Paulo Freire nos desenhos dos alunos


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A partir dessas atividades, eu e Soraya realizamos a introdução da biografia enquanto gênero literário, explicando alguns conceitos básicos para entender a estrutura do texto. Em seguida, os alunos foram estimulados a pesquisar sobre a biografia das pessoas que davam nomes às ruas e espaços públicos do bairro onde moravam e selecionaram as figuras que queriam trabalhar durante o semestre. Os escolhidos foram Paulo Freire, Luís Carlos Prestes, Rosa Luxemburgo, Tarsila do Amaral e, principalmente, Olga Benário.

A proposta apresentou alguma dificuldade para chegar até as crianças, uma vez que os responsáveis diziam não ter condições de acessar a internet. No entanto, criamos inúmeras estratégias para evitar que as famílias desistissem, como o trabalho impresso e jogos interativos com aplicativos que exigem poucos dados móveis, sempre que possível, somente para atrair a atenção e estimular a participação nos grupos de WhatsApp. Desse modo, a participação da família no processo educativo se mostrou indispensável para a realização do projeto, sendo um fator positivo alcançado.

Do ponto de vista profissional, ficamos um pouco receosas por ser grande o desafio desenvolver a metodologia de Paulo Freire no período de pandemia e por necessitar de encontros presenciais com as famílias dos estudantes para explicar os materiais que seriam utilizados nas aulas remotas. No entanto, as respostas eram significativas e produtivas, observadas no contato presencial com os familiares que ocorria quinzenalmente. Essa troca de saberes nos incentivava e nos trazia o desejo de continuar e acreditar no sucesso de todos os estudantes, nos revelando que o processo de alfabetização necessita desse entendimento e desse diálogo com o outro.

Assim, a participação das turmas envolvidas no projeto foi positiva e, apesar das dificuldades encontradas, conseguimos obter respostas significativas. Ao final da primeira fase, reconhecemos que os próprios familiares que acompanhavam as atividades passaram a ter um novo olhar para o seu território e os alunos conseguiram escrever a respeito de sua história de vida e contar a biografia de suas ruas e do local onde estudam, o que foi notado nos vídeos relatados por eles para a composição do documentário “Minha rua conta uma história”.

Com base nos resultados obtidos, percebemos que foi importante, para a aprendizagem dos alunos, partir do estudo das suas realidades, pois muitos eram discriminados por suas condições de moradia. O conhecimento da biografia dos personagens que deram nome às ruas do bairro e à escola contribuiu não somente para que os estudantes tivessem orgulho da história do seu território, como também compreendessem que a luta desses sujeitos ainda é necessária no contexto da escola Olga Benário.

Descrevo ainda que sem a colaboração de todos os profissionais da escola seria impossível realizar tais ações, uma vez que Paulo Freire nos deixou a importância de se desenvolver a prática com a coletividade. A parceria com a professora de Artes Soraya de Cássia Costa Pereira foi tão fundamental para a realização do projeto quanto o apoio das famílias. Cada aluno que deixou o depoimento, registrado de forma simples e original, nos dá vontade de viver e reviver tudo de novo. Só pode ser Paulo Freire, que está não apenas em nosso aprendizado, mas em algo mais profundo e significativo: em nossa alma.


Maria de Nazaré Rocha Souza

Mestre em Avaliação da Aprendizagem pela Universidade de Évora, em Portugal, e especialista em Língua Portuguesa (uma abordagem textual) pela Universidade Federal do Pará. Formada em Línguas Portuguesa e Inglesa pela Unama (Universidade da Amazônia), atua como professora da rede municipal de ensino de Belém. Em 2021, está desenvolvendo o projeto “Do contexto crio uma biografia” com alunos do 2° ao 5° ano, em parceria com a professora de Artes, promovido pela Semec (Secretaria Municipal de Ensino e Cultura) de Belém (PA), na escola Olga Benário.

Soraya de Cássia Costa Pereira

Graduada em Artes pela Universidade Federal do Pará, é professora da rede municipal de ensino de Belém e atua na rede com alunos do 1° ao 5° ano. Em 2021, desenvolve o projeto do “Contexto crio uma biografia” em parceria com a professora regente e demais professores da escola.

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ensino fundamental, paulo freire, tecnologia

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Luzia CardosoMaria de Nazaré Rocha Souza Quem acabou de comentar
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Maria de Nazaré Rocha Souza
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Maria de Nazaré Rocha Souza

A experiência com a metodologia de Paulo Freire nos trouxe de volta a esperança que a Covid-19 tinha destruído no ano anterior.

Luzia Cardoso
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Luzia Cardoso

Parabéns professoras, Nazaré e Soraia pelo trabalho que estão realizando dignificando as crianças e a comunidade do Bairro Olga Benário, trazendo significado e orgulho em morarem em um bairro rico em história.

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