'Professora dos brinquedos' cria jogos matemáticos a partir de materiais recicláveis - PORVIR
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Diário de Inovações

‘Professora dos brinquedos’ cria jogos matemáticos a partir de materiais recicláveis

Educadora reúne letramento matemático e educação ambiental em projeto para alunos do ensino fundamental e também para os colegas da universidade, onde ministra o curso de pedagogia

por Taziana Pessôa de Souza Utagori ilustração relógio 18 de maio de 2022

O letramento matemático e a educação ambiental se fazem urgentes. Esse pensamento ecoava na minha mente desde o início do semestre letivo, ao ser convidada para ministrar duas disciplinas que traziam em sua ementa essa abordagem, apresentadas no currículo dos estudantes do curso de pedagogia, da Universidade Potiguar, em Natal (RN). Vi ali uma oportunidade de contribuir também com a educação básica, na escola na qual atuo como professora efetiva dos anos iniciais do ensino fundamental. Afinal de contas, o tripé de toda instituição de ensino superior tem como alicerce ensino, pesquisa e extensão. 

Na constituição desses sentidos, fui desenhando, como em um jogo de quebra-cabeças de Tangram, as diversas “figuras” que poderiam fluir dessa junção para formar novas possibilidades que permeiam os processos de ensinar e de aprender.

Ali começava a se delinear meu planejamento pedagógico: como professora, aliar a teoria à prática a partir de uma necessidade real em apresentar aos futuros pedagogos possibilidades de ensinar matemática usando o lúdico, a partir de materiais que iriam para o lixo, e ressignificar também o conceito de educação ambiental. Queria apresentar aos alunos da educação básica que essa disciplina pode ser divertida, prazerosa e ainda contribuir para a conscientização do que jogamos fora – e as várias possibilidades de transformação dos recicláveis.

Outra peça dessa minha construção é uma reflexão com os alunos do curso sobre o quanto o lixo é rico em possibilidades pedagógicas. Como sugestão de atividades, desenvolvemos jogos pedagógicos matemáticos com diferentes materiais recicláveis, suscitando o debate sobre o que é letramento matemático a partir das diversas literaturas existentes, bem como da necessidade de propostas de aprendizagens significativas advindas de um período pandêmico. 

A cada aula, as peças iam se encaixando perfeitamente como deve ocorrer ao montarmos um quebra-cabeça. A utilização dos jogos na escola não é algo novo, porém, esses jogos utilizados nas aulas de matemática afastam da sala de aula uma dimensão mais tradicional de ensinar e apresentam novas maneiras a partir desse recurso lúdico-didático. 

Outra peça desse meu Tangram se encaixa ao permitir que os estudantes percebam que o papel do professor perpassa por ensiná-lo a aprender, incentivando-os a criatividade e ajudando-os em seus desafios. Esse trabalho resultou na construção de setenta jogos pedagógicos com diversas interfaces e pluralidades (e algumas dessas dicas eu compartilho ao final do texto). O jogo por si só, socializa, desafia, possibilita novas regras e outras maneiras de se jogar. Assim, como é a vida.

Clique na imagem para conferir a galeria de fotos:

Após a construção desses, os levei para a Escola Municipal Deputado Djalma Marinho, situada no município de São Gonçalo do Amarante (RN), na área rural da cidade, onde leciono. Nessa escola, estudam 313 crianças de 4º e 5º ano; alunos que enfrentam todos os desafios de aprendizagem após dois anos de ensino remoto. Ao chegar na instituição com esse novo recurso pedagógico, a cada sala de aula que entrava e entregava uma quantidade de jogos, percebia neles o interesse instantâneo em manuseá-los e saber que novo ou velho conceito matemático iria ser estudado. 

De repente, eu deixei de ser a professora do quarto ano e passei a ser a “professora dos brinquedos” pois todos me perguntavam quando eu ia trazer novos jogos. A cada aula, recebia também fotos das minhas colegas mostrando como utilizavam os brinquedos em suas aulas, compartilhando saberes em situação de cooperação mútua. Outro ponto de vista a considerar foi perceber o cuidado que todos eles tinham com as peças: não foi preciso trabalhar o zelo, eles entenderam como quase uma regra para cada jogador contida nas instruções do brinquedo.

Na minha turma, diariamente, ao terminar as atividades corriqueiras, sempre tem um aluno que convida o outro colega a jogar. Ou seja, não existem diferenças entre aquele que já sabe ler para aquele que ainda não sabe, por exemplo. Nesses casos, um ajuda o outro a jogar, criam desafios, fazem inferências matemáticas, elaboram estratégias múltiplas. O avanço na disciplina foi significativo. A relação deles com o que vai para o lixo ganhou outra dimensão, já que, a partir dessa vivência, eles me convidaram a produzir novos jogos: seguem desenvolvendo novas competências ao assumir um protagonismo singular.

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O convite foi aceito. Estamos em fase de finalização da produção de novos jogos usando muita tampinha de garrafa pet, papelão entre outros materiais que recolhemos no intervalo, no mercadinho perto da escola e ou trazemos de casa. 

Pois bem, essa poderia ser a última peça do Tangram. Contudo, a última peça, aquela que dará a forma final de uma imagem, insere-se em uma dimensão educacional que nos faz enxergar uma coisa: em relações de ensino, o pronome pessoal do caso reto a ser conjugado e utilizado em nossos contextos educacionais não são os que nos fazem criar frases utilizando a pessoa do discurso “eles”; mas sempre a pessoa do discurso que nos encaixam, “nós”. 

Sugestões de jogos matemáticos com materiais recicláveis:

  • Caixas de ovos como tabuleiros para trabalhar adição, subtração e multiplicação. Os alunos giram uma roleta e resolvem a operação que sair. Acertando, avançam uma casa. Pode ser jogado individualmente ou em dupla. 
  • Pedaços de papelão, tampinhas de garrafa pet e fita adesiva podem se transformar em cartelas matemáticas para aprender sequência numérica. Os alunos recebem as cartelas e procuram, observando nas tampinhas, quais números antecedem e sucedem os números que são descritos no meio do retângulo de papelão.
  • Palitos de picolé são usados para trabalhar as dezenas ou qualquer sequência matemática. Criamos um quebra-cabeça a partir de palitos que contêm desenhos. A medida em que vão formando a figura, visualizam as sequências: 10, 20, 30…
  • Com pratos de papelão que sobram de festas, pode-se brincar com frações. 
  • Em um pedaço de papelão, desenhamos um animal de asas, como borboletas, e fazemos duas tiras com números aleatórios. No meio, colocamos uma das quatro operações. Em dupla, os alunos posicionam os números de forma aleatória e realizam a operação que deverá ser escrita em uma tira de fita transparente.
  • Outra atividade bem legal é a criança desenhar a sua própria mão aberta no verso de um encarte de propaganda que tenha o verso todo branco. Em seguida, ela recorta a mãozinha e, em vez de contar com os seus dedinhos, conta com os dedinhos da mão de papel.
  • A operação matemática pode ser apresentada em tampinhas com números diversos. A professora escolhe qual operação irá trabalhar e, na sequência, a  criança passa a escrita da operação para o caderno.

Taziana Pessôa de Souza Utagori

Pedagoga pela UnP (Universidade Potiguar), especialista em aprendizagem do ensino da língua portuguesa pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e professora do curso de pedagogia da UnP. É professora efetiva do ensino fundamental dos anos iniciais do munícipio de São Gonçalo do Amarante (RN).

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educação mão na massa, ensino fundamental, jogos, matemática

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