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Sem rótulo, escola em São Paulo é sucesso de inclusão

Colégio Viver, em Cotia (Grande SP), faz colagem de linhas pedagógicas para ensinar seus alunos a gostarem de aprender

por Tatiana Klix 13 de novembro de 2013

Crianças só podem ingressar no Colégio Viver, em Cotia, na Grande São Paulo, a partir do momento em que começam a andar. Sem conhecer a escola, a regra pode parecer aleatória ou apenas para restringir o trabalho feito na educação infantil, mas diz muito sobre a instituição, que fica num sítio arborizado e incentiva a construção da autonomia desde os primeiros anos até o final do ensino fundamental 2.

Numa área em que se cria coelhos, galinhas, com um gramado em terreno com inclinações, os pequenos do Viverzinho, como é chamada a pré-escola, são deixados soltos e livres para decidir o que querem fazer: correr, brincar com os animais, se jogar na areia ou no gramado. As três profissionais que são responsáveis pelas cerca de 30 crianças em cada turno promovem atividades como oficinas de capoeira e artes, mas cada um decide se quer participar ou se prefere fazer outra coisa, como desenhar ou olhar livros. E não há divisão por idades, todos convivem no mesmo ambiente.

Essa experiência é o início de uma jornada que utiliza uma mistura de linhas pedagógicas para que seus alunos gostem de aprender. A pré-escola do Colégio Viver foi criada há 37 anos, e há 15 anos a instituição começou a oferecer também o ensino fundamental. A ampliação foi feita aos poucos – na medida que os alunos foram crescendo, novas turmas eram criadas – e permitiu que a organização e métodos fossem adaptados de acordo com a demanda e os desafios encontrados. Essa prática, aliás, continua sendo aplicada,  segundo Maria Amélia Cupertino, uma das sócias e diretoras da escola que recebeu a reportagem do Porvir no local. “O que diferencia uma escola não é o princípio que segue, mas como faz ele funcionar. E isso passa por como organiza o cotidiano escolar das crianças, como orienta as atividades dos professores, que tipo de ambiente proporciona”, explica Maria Amélia.

No ensino fundamental, cuja sede fica em uma casa com varanda simples, rodeada por gramado, quadra esportiva ao ar livre e hortas no lado oposto à sede do Viverzinho, alunos ou professores podem convocar assembleias para decidir sobre questões importantes do cotidiano escolar como o uso de equipamentos eletrônicos, as regras do refeitório e das disciplinas optativas. Além disso, dentro de uma aula, os estudantes são convidados a escolher entre temas que querem estudar, livros que querem ler, projetos que querem fazer.

Para cada um dos 150 alunos são estabelecidos objetivos claros em conjunto com a família. E de acordo com suas características, eles podem ser agrupados por faixa etária, ciclo escolar e interesse. Tem momentos em que estudam junto com a sua turma, em outros com alunos mais velhos ou mais jovens.

Ou seja, tem princípios fortes da escola democrática. Mas Maria Amélia explica que nem tudo é exatamente como em outras instituições desse tipo. “Não decidimos tudo em assembleia. Os meninos têm contato direito com a gente. Nem sempre precisamos da estrutura formal, são feitas reuniões a qualquer momento. A postura democrática está presente, mas dentro desse princípio a gente se reinventa o tempo todo”, conta.

Entre as principais diferenças do Viver para uma escola democrática clássica, na avaliação da diretora, está a relação entre o individual e o coletivo. “Como na democrática é o aluno que escolhe sempre o que quer estudar, muitas vezes se envolve em propostas muito particulares. Temos ao mesmo tempo um respeito muito grande pelo indivíduo e uma proposta de produzir coletivamente”, explica.

Como exemplo, ela relata o envolvimento de todos nas semanas temáticas promovidas no Viver, nas quais a escola para as atividades regulares para atuar em torno de uma área (humanidades, artes, ciências, olimpíadas). Nesses períodos, professores promovem oficinas, profissionais de fora da escola dão palestras e alunos desenvolvem projetos coletivos que eles podem escolher, mas devem ser relacionados ao tema da semana.

Isso não significa que a escola não respeite a individualidade dos estudantes. Para cada um dos 150 alunos são estabelecidos objetivos claros em conjunto com a família. E de acordo com suas características, eles podem ser agrupados por faixa etária, ciclo escolar e interesse. Tem momentos em que estudam junto com a sua turma, em outros com alunos mais velhos ou mais jovens. Algumas atividades são bastante focadas em desenvolver o aprendizado pela experiência, outras no raciocínio.

A dança das cadeiras também ocorre entre os professores. Já no ensino fundamental 1, em que cada turma tem um professor, são promovidas atividades paralelas que proporcionam o contato dos alunos com diferentes educadores.

Inclusão

Embora ainda existam alguns casos raros de reprovação, a avaliação dos alunos no Viver é feita de várias formas – projetos, trabalhos, autoavaliação e, eventualmente, até provas –, mas o mais importante é o portfolio do aluno, onde se pode acompanhar a evolução dele. A partir desses elementos, é feito um relatório para cada um.

Por isso, a escola é muito procurada por famílias com filhos com algum tipo de dificuldade, das mais simples, como déficit de aprendizagem, até as mais graves, como autismo.  “Temos alunos no 7º ano que não são alfabetizados e não serão. Usamos gravador para ajudá-los ou colocamos alguém de escriba deles. Conseguimos trabalhar porque temos claro a expectativa que podemos ter para cada criança. O modelo em termos de objetivos é individualizado. Em termos de ferramentas também é adaptado”, diz.

Além da clareza nos objetivos individuais, outro fator importante para a forte inclusão no Colégio Viver é a transparência com que a questão é tratada. Em vez de esconder e não falar, a equipe pedagógica incentiva pais e professores a contarem aos colegas quando um aluno apresenta alguma dificuldade.

“Tínhamos um aluno com Síndrome de Asperger que evoluiu muito intelectualmente e até socialmente, mas os colegas achavam que ele era esquentadinho. Quando perceberam o que ele tinha, a relação passou a ser outra”, exemplifica.

Segundo Maria Amélia, trabalhar a inclusão dá bastante trabalho, mas é recompensador para todos os alunos. “Semana passada fomos para Ubatuba em uma viagem de estudo de meio, fizemos trilha. Mas temos aluna cadeirante. Os professores aprenderam como colocar ela nas costas e a menina participou de tudo. Foi bonito ver como os outros alunos a ajudaram. Uma coisa boa de ter essas dificuldades na escola é que a gente cria pessoas mais tolerantes, sensíveis e compreensíveis”, comemora.

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educação infantil, ensino fundamental, escolas inovadoras, inclusão, interdisciplinaridade, personalização