“Qual foi a última vez que você chorou na frente de outra pessoa?”

A pergunta, feita diante de mais de 2 mil gestores escolares reunidos no Teatro do Distrito Anhembi, em São Paulo (SP), marcou o início da conferência de Charles Duhigg no Arco Day, evento anual do grupo Arco Educação. Conhecido no Brasil pelo best-seller “O poder do hábito: Por que fazemos o que fazemos na vida e nos negócios”, o jornalista da revista The New Yorker e escritor norte-americano iniciou seu painel com uma provocação aos participantes: antes de apresentar conceitos sobre comunicação e aprendizagem, convidou o público a virar para a pessoa ao lado e compartilhar uma lembrança pessoal.

Questionar um desconhecido ou mesmo um colega de trabalho, à primeira vista, pode causar desconforto. “Quem acha que essa é uma boa ideia?”, provocou, antes de explicar que, nos minutos seguintes, tentaria convencer o público de que esse tipo de abordagem funciona como ferramenta poderosa para criar vínculos.

Segundo o jornalista, perguntas profundas não servem apenas para conversas íntimas. Elas também transformam relações na escola, no trabalho e em outros espaços de convivência. “Esse é o tipo de pergunta que deveríamos fazer aos nossos estudantes, professores, gestores, patrocinadores e às pessoas que encontramos pelo caminho”, sugeriu.

Após a dinâmica, ele perguntou ao público como havia sido a experiência. Muitas pessoas disseram ter tido uma conversa melhor do que imaginavam, enquanto outras relataram ter descoberto pontos em comum com desconhecidos. Para o autor, essa reação prova que costumamos superestimar o desconforto de um diálogo profundo e subestimar nossa capacidade de criar conexão.

“Não estou dizendo que amanhã você deve chegar ao trabalho e perguntar aos seus colegas quando foi a última vez que eles choraram na frente de alguém”, brincou. “Mas existe uma pergunta equivalente a essa no seu ambiente de trabalho que você pode fazer para se sentir mais próximo das pessoas.”

Como criar conexões reais?

Seu interesse pelo tema nasceu de uma situação cotidiana. Depois de dias cansativos como repórter do jornal norte-americano The New York Times, ele costumava chegar em casa reclamando do trabalho. Sua esposa, em vez de apenas escutá-lo, oferecia conselhos práticos, como convidar o chefe para almoçar. A reação dele era de frustração. “Eu dizia: ‘Por que você não está me apoiando? Por que você não está do meu lado?’”

A partir desse exemplo, Charles mostrou que muitos conflitos de comunicação acontecem porque as pessoas não estão, de fato, na mesma sintonia. Enquanto uma pessoa busca acolhimento emocional, a outra tenta resolver o problema de forma objetiva. “A gente pensa que sabe sobre o que é uma conversa. Mas, se pudéssemos olhar para dentro do cérebro das pessoas, veríamos que elas estão participando de diferentes tipos de conversa ao mesmo tempo.”

Essas conversas costumam se organizar em três grupos: conversas práticas, voltadas à resolução de problemas e à tomada de decisões; emocionais, em que a pessoa deseja ser acolhida, compreendida e escutada; e sociais, relacionadas à identidade e ao pertencimento.

O problema surge quando há um desencontro de intenções. “Eu estava em uma conversa emocional. Minha esposa estava em uma conversa prática. Éramos como dois navios passando um pelo outro à noite. Não conseguíamos nos ouvir.”

Para o escritor, a boa comunicação depende da capacidade de reconhecer em que tipo de conversa o outro está e se aproximar dela. Essa proposta, conhecida como matching principle (princípio de correspondência), ajuda a explicar por que algumas interações geram mais conexão. “Quando conseguimos ter o mesmo tipo de conversa no mesmo momento, algo mágico acontece. De repente, nos sentimos mais próximos. De repente, conseguimos nos ouvir melhor.”

Neste vídeo, Charles Duhigg fala ao Mamilos Café sobre como boas conversas podem aproximar pessoas, inspirar e ajudar a superar barreiras de comunicação.

Perguntas de apoio

Na escola, essa escuta faz diferença no cotidiano. Quando um estudante procura um professor para falar sobre algo importante, a resposta nem sempre precisa ser uma solução imediata. Charles citou uma pergunta comum usada por educadores nos Estados Unidos: “Você quer ser ajudado, abraçado ou ouvido?”

A formulação (resumida em inglês por helped, hugged or heard) distingue necessidades práticas, emocionais e sociais. Para ele, o recurso é especialmente útil com crianças e adolescentes. “Quando você pergunta isso, eles sabem dizer o que precisam.”

No ambiente profissional, no entanto, o jornalista reconhece que a abordagem pode soar estranha. Por isso, ele sugere outro caminho: fazer mais perguntas profundas, que convidam a pessoa a falar sobre valores, crenças e experiências, em vez de apenas tratar de fatos superficiais.

Em vez de perguntar a um médico em que hospital ele trabalha, por exemplo, vale questionar o que o levou a escolher a medicina. A segunda opção abre espaço para uma resposta pessoal. “Ela convida a pessoa a compartilhar algo que realmente importa”, disse. A exemplo da professora e jornalista Esther Wojcicki, que também participou do Arco Day, Charles Duhigg recorre à experiência no jornalismo investigativo para mostrar como boas perguntas transformam conversas, fortalecem vínculos e criam novas formas de aprendizagem. 

Esse tipo de pergunta funciona porque cria uma situação de vulnerabilidade. Não se trata, necessariamente, de chorar ou expor intimidades, mas de dividir algo que revela uma experiência comum a todos, como medo, insegurança ou afeto. “Quando compartilho algo pessoal, meu cérebro passa a prestar muita atenção em como o outro recebe aquilo que foi dito”, explicou. 

Quando a vulnerabilidade é recebida sem julgamento, ou seja, quando a pessoa percebe que aquela fala será acolhida, a confiança aumenta. “Mesmo quando discordamos, o ato de não julgar faz com que nos sintamos mais próximos”, afirmou.

Reconhecendo as emoções na escola

Essa lógica também ajuda escolas a lidarem com famílias em situações de conflito. Ao ser perguntado sobre responsáveis que chegam à escola irritados para reclamar de notas, comportamentos ou decisões pedagógicas, Charles afirmou que, muitas vezes, a conversa parece prática, mas é estritamente emocional.

“Estamos falando do filho daquela pessoa, de quem mais importa para ela. Quando ela vê a criança frustrada, machucada ou triste, absorve essa frustração”, disse. Por isso, antes de apresentar soluções, a escola precisa reconhecer o sentimento da família. “A única forma de eu, como pai, conseguir ouvir o que você está tentando me dizer é se você reconhecer minhas emoções.”

Na prática, isso significa demonstrar empatia logo de início, com frases como “eu sei como isso é frustrante” ou “entendo o quanto dói ver seu filho não ter o sucesso que você esperava” podem abrir caminho para uma conversa mais produtiva. Só depois de validar esse sentimento é possível avançar para as soluções práticas.

O mesmo princípio vale para o feedback (retorno avaliativo) entre profissionais da educação. Uma boa devolutiva não deve colocar gestor e professor em lados opostos da mesa. Para Charles, um retorno adequado deve transmitir a mensagem de que todos tentam resolver um problema juntos. Em vez de apontar que alguém não é um bom docente, a conversa deve partir da ideia de que algo na sala de aula não está funcionando para todos os estudantes e precisa ser enfrentado coletivamente.

“O primeiro passo é fazer a pessoa acreditar que eu quero o sucesso dela”, disse. “Não estamos tendo essa conversa porque quero colocá-la em observação. Estamos tendo essa conversa porque quero que tenhamos sucesso juntos.”

Quando essa intenção fica clara, o feedback deixa de ser um confronto e passa a ser uma aliança. “Agora somos eu e você contra um problema, e não eu contra você.”

Um bom feedback começa quando a outra pessoa entende que a intenção não é apontar falhas, mas buscar soluções em conjunto Crédito: Freepik

Hábitos e valores

O palestrante também relacionou o tema aos desafios de mudança nas instituições de ensino. Segundo ele, muitas organizações confundem hábitos com valores. Os valores são aquilo que permanece: a crença na educação, na capacidade de mudança das pessoas e no direito dos estudantes de aprender e pensar por si mesmos. Já os hábitos são formas de expressar esses princípios , mas podem deixar de funcionar com o tempo.

“O valor é ensinar os estudantes a pensar por si mesmos. O hábito pode ser aplicar a mesma prova de dez anos atrás ou pedir a mesma redação de 20 anos atrás”, exemplificou. “Os valores permanecem, os hábitos mudam. E nós temos o poder de mudar qualquer hábito.”

IA e sentimentos

Ao falar sobre inteligência artificial, Charles defendeu que a tecnologia deve ser analisada a partir dessa mesma distinção. Para ele, a IA já faz parte da vida dos estudantes e não pode ser ignorada. A questão central, portanto, não é apenas impedir ou liberar seu uso, mas compreender quais valores a escola quer preservar.

“É importante que todos os estudantes escrevam cada palavra de seus textos sem usar IA? Ou o valor que queremos ensinar é que eles pensem por si mesmos?”, questionou. A inteligência artificial, nesse sentido, pode ser uma ferramenta de apoio, desde que não substitua a reflexão. “Se dependermos dela, as ideias serão superficiais. Mas podemos usá-la como ferramenta para pensar melhor.”

Ao aproximar hábitos, comunicação, feedback, inteligência artificial e educação, Charles Duhigg deixou uma mensagem especialmente dirigida aos educadores na plateia. Em tempos de mudanças aceleradas, ensinar estudantes a fazer boas perguntas também é ensiná-los a se conectar com os outros.

“Precisamos ensiná-los a fazer as perguntas certas e a sentir que estamos todos juntos. Quando ensinamos estudantes a perguntar, estamos, no fim das contas, ensinando-os a tornar o mundo um lugar melhor.”

Jornalista especializada em educomunicação, com estudos em mídia e cultura na América Latina. Trabalhou no Instituto Paulo Freire, onde aprofundou seu compromisso com a EJA e a educação em direitos humanos. No Porvir, escreve para todas as editorias....

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