Como a escola pode acolher melhor crianças migrantes e refugiadas? - PORVIR
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Inovações em Educação

Como a escola pode acolher melhor crianças migrantes e refugiadas?

Acolhimento para receber migrantes deve ser uma preocupação de toda a comunidade escolar, não apenas dos professores

por Ruam Oliveira ilustração relógio 20 de junho de 2022

Pensar na trajetória da humanidade é reconhecer que, em muitas circunstâncias, as pessoas saem de seus territórios originários por diferentes motivos, como a busca por alimentos ou melhores condições.

No entanto, a sociedade moderna também apresenta um cenário onde muitos são obrigados a migrar devido a guerras ou a situações de violência. Ou seja, nem sempre a migração é voluntária. Em muitos casos, é a única opção possível. 

Esta é a realidade de muitos refugiados no Brasil e no mundo. Ao longo dos últimos cinco anos, o país já recebeu mais de 700 mil migrantes venezuelanos. A ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) tem reforçado a mensagem de que não importa quem, quando ou de onde seja a pessoa, ela deve receber proteção, principalmente se estiver fugindo de um contexto de violação de direitos humanos. 

Na escola, portanto, o assunto não deve passar despercebido. Levando em consideração o número de refugiados que chegam ao Brasil – atualmente mais de 60 mil pessoas são reconhecidas como refugiadas no país  –, é importante estar atento aos conceitos, como lidar e inserir o tema no currículo e de que forma a educação pode ser mais inclusiva para essa população. 

Em recente entrevista para o podcast O Futuro se Equilibra, produzido pelo Porvir, Tatiana Chang Waldman, mestra e doutora em direitos humanos e atualmente assessora do Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, apontou que é importante buscar formação e preparação para receber estudantes migrantes e refugiados, independentemente da quantidade de pessoas nessas condições nas escolas. 

Isso porque algumas barreiras podem aparecer de imediato, como questões linguísticas e diferentes manifestações de violência, como racismo e xenofobia. Esses comportamentos, em muitos casos, ocorrem por desconhecimento sobre as trajetórias desses estudantes, de suas famílias ou culturas. 

Conversar e falar sobre migração e refúgio nas aulas é uma estratégia para impedir que o sofrimento dessas pessoas, que já chegam com uma série de dificuldades, aumente.

“Eu acho que é imprescindível que a escola se prepare para receber essa população. Que o tema da mobilidade humana faça parte do conteúdo de debates e aprendizado de toda escola. Ainda que o número de imigrantes seja pouco expressivo [dentro da escola], porque a gente sabe que hoje, num contexto mundial, são mais de 280 milhões de migrantes internacionais em todo o mundo”, comenta Tatiana. 

Para ela, não existe melhor forma de fazer com que essa acolhida ocorra da melhor forma possível se não por meio da formação. E uma formação que inclua não apenas os educadores, como também toda a comunidade escolar. 

Crianças refugiadas brincam em um campo

“Em primeiro lugar, identificar a origem base dos estudantes, das suas famílias e da própria comunidade da escola. Quando a gente está falando de migrantes, a gente não fala só dos estudantes, mas também da própria equipe da escola. Temos muitos educadores que também são migrantes e eu acho que, ao reconhecer e identificar a origem desses estudantes e da própria equipe que trabalha na escola, a gente pode, então, começar a incluir ações cotidianas e alguns conteúdos que valorizem e dialoguem com toda essa bagagem cultural presente na experiência dessas pessoas que convivem no espaço da escola”, disse.

Produzido pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, o documento “Orientações Pedagógicas – Povos Migrantes” passou a fazer parte do currículo oficial da cidade desde 2021. Além de indicações sobre como acolher e valorizar a presença dos refugiados no ambiente escolar, o texto também traz uma série de conceitos e informações sobre legislação e dicas de como trabalhar o tema em sala de aula. 

Essa preparação também dará à comunidade escolar mais condições de combater preconceitos e violências. A decisão de não se omitir em relação a esta temática deve ser também da gestão. E muitas das ações podem ser consideradas “simples”. Como exemplo, Tatiana comentou ter percebido que muitas escolas começaram a traduzir bilhetes ou comunicados que são enviados por email ou mensagens de WhatsApp. 

“Acho que uma postura acolhedora da escola pode se manifestar em ações simples no cotidiano como traduzir diferentes placas indicativas da escola, por exemplo, onde é o banheiro, o refeitório ou a sala de aula”, pontuou Tatiana. No período de pandemia e ensino remoto, essas traduções ficaram mais perceptíveis para a educadora. O fato de muitos estudantes terem a família como os que auxiliam nas atividades da escola pesou nesse sentido. 

Um outro ponto importante é permitir que os estudantes utilizem a língua materna, afirma Tatiana. “Pode ser importante no período de aprendizado da língua portuguesa e possibilita fazer o exercício inverso também, do professor tentar compreender uma língua que talvez não conheça.” 

O tema das migrações e refúgio é um dentre muitos outros que podem surgir na escola. O comum é que ele seja tratado pontualmente, em efemérides, ou quando há um número grande de migrantes na comunidade. No entanto, mesmo que em menor número, observar a comunidade como um todo é motivo suficiente para incluir a temática em aula. Isso porque talvez não existam tantos estudantes refugiados ou migrantes, mas pode ocorrer de existir um outro educador que seja. 

Tatiana, que é filha de mãe chinesa, bisavó italiana, pai de origem polonesa, acredita que se o tema tivesse sido mais discutido durante seu período de educação básica, teria um impacto diferente na sua vida. Ela somente mergulhou no tema ao ingressar na pós-graduação. “Se eu tivesse tido um olhar antes, não teria demorado mais de 30 anos estudando migração, fazendo todo o trajeto para me entender e me afirmar como uma filha de migrantes”, conta. 

Ouça o episódio “A escola no mundo”, de O Futuro se Equilibra, com a participação de Tatiana Chang


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competências para o século 21, educação infantil, ensino fundamental, ensino médio

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