Educação do futuro acontece em ambiente híbrido | PORVIR
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Inovações em Educação

Educação do futuro acontece em um ambiente que mescla o físico e o digital

Durante a Bett Brasil, um dos maiores eventos de tecnologia e inovação da América Latina, os irmãos Luciano Meira e Silvio Meira destacaram suas visões de educação para o futuro e o que pode mudar nos próximos anos

por Ruam Oliveira / Danilo Mekari ilustração relógio 16 de maio de 2022

Despontada no final dos anos 1950, a revolução tecnológica vem modificando diversas esferas da sociedade e da própria vida humana. Invenções como o computador pessoal e os microchips são tão integradas ao cotidiano atual que até existe uma dificuldade para visualizar como se vivia sem tais  elementos.

Nesse cenário, depois de décadas de inovações digitais que geraram inúmeras transformações, como explicar que o sistema educacional ainda não mudou radicalmente?

Os irmãos Luciano Meira (professor adjunto de psicologia na Universidade Federal de Pernambuco e Coordenador de Ciência e Inovação da Joy Street, uma empresa de tecnologias educacionais lúdicas) e Silvio Meira, (professor extraordinário da Cesar School e referência nos temas de transformação digital e inovação na educação), levaram este questionamento para o centro de um debate realizado na última quinta-feira (12), durante a Bett Brasil 2022, maior evento de educação e tecnologia da América Latina.

O ambiente “figital”

Eles participaram da mesa “Estratégias de Inovação e Futuro para a Educação”, na qual Silvio explicou a teoria por trás do conceito de mundo “figital”, criado por ele mesmo em 2020. “Vivemos em uma sociedade em transição: não do físico para o digital, mas do físico para o próprio físico – aumentado, habilitado e estendido pelo digital, ambos articulados pelo social em tempo quase real, ou seja, o tempo das pessoas, e não o de sistemas”, expõe Silvio. 

Educação do futuro acontece em um ambiente que mescla o físico e o digital
Luciano e Silvio Meira durante palestra na Bett Brasil / Crédito: Divulgação/Bett Brasil

O “figital”, portanto, é um ambiente híbrido em que o mundo real e virtual se unem para favorecer as interações, utilizando os melhores avanços do espaço digital para incrementar as relações sociais – que, ao fim e ao cabo, acontecem no espaço físico. “Não mataremos a sede fazendo um download. Precisaremos ainda de água”, provoca Silvio.

Burocracia do aprendizado

E, nesse novo ambiente proposto pelo professor, uma sugestão para resolver sistemas extremamente complexos, intrinsecamente sociais e de grande porte – como a educação – é a redução da burocracia. “É possível encolher os sistemas e esconder as complexidades necessárias. Há sistemas que são necessariamente complexos em partes das suas estruturas e processos”, analisa. 

Da forma como está colocada atualmente, porém, a burocracia estimula que se crie um processo mais complexo e menos simples. “Em uma burocracia, é sempre mais fácil a gente criar um novo problema do que resolver um que já existe. Burocracias são naturalmente assim e a educação é a burocracia do aprendizado”, decreta o professor.

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“E esse é o problema que, na minha visão, a longa revolução de tecnologia da informação e comunicação não resolveu na educação. E não vai resolver.”

As três rupturas para a educação do futuro

Silvio destaca que há pelo menos três rupturas no campo educacional que vão acontecer nos próximos anos, por meio das quais a educação pode ser transformada. 

A primeira delas está no campo da formação. Serão os cursos de graduação que vão ser impactados, principalmente na forma em que estão estruturados. 

Essa mudança tem um caráter disruptivo inclusive na maneira como os profissionais serão formados. O futuro vai demandar um desenvolvimento de competências e habilidades que tornem as pessoas capazes de navegar por diferentes ambientes em rede e “figitais”. 

A segunda ruptura destacada por ele é o processo de transição do físico para o dito “figital”. Silvio argumenta que essa mudança deve ocorrer “simplesmente porque o mundo ao nosso redor é ‘figital’ e não vai ter volta”. Ele usou como exemplo o próprio evento Bett Brasil: “Por mais físicos que sejamos nós aqui, hoje, [estamos] num ambiente físico que não é bem físico [porque] ele se prolongará digital e socialmente por semanas, meses, talvez anos”. 

Por fim, destacou uma última ruptura voltada para o modelo de negócios na educação. O educador pontuou que o atual sistema é antieconômico. “Ele é insustentável em qualquer sociedade, se a gente tentar fazer [um ensino] de qualidade de verdade, inclusive nas sociedades mais ricas”. Se o objetivo é universalizar e garantir oportunidades de aprendizado reais, haverá a necessidade de alterar o modelo de alto para baixo custo, ele aponta.

“Há uma suposição quase universal de que a melhor maneira de aprender é a gente assistir aula e depois regurgitar fatos em exames. Isso funciona para a gente formar fazedores de provas, mas não é assim que as pessoas aprendem”, comenta Silvio. “Se a gente puder tratar essas rupturas – que queiramos ou não vão acontecer ao nosso redor nos próximos muitos anos –, teremos uma oportunidade real de abrir o sistema educacional para as pessoas aprenderem de uma forma diferente”, conclui. 

O futuro nas relações sociais

“A minha visão de futuro está fundada na centralidade dos relacionamentos afetivos e intelectuais”, diz Luciano Meira. Ao olhar para o futuro, o que o educador enxerga é uma promoção, dentro de ambientes escolares, de relações afetivas e cognitivas. Em outras palavras, um esforço para nutrir uma inteligência social entre os diferentes atores da comunidade escolar.

O que Luciano destaca é a experiência – no sentido de vivências – como um papel muito relevante para a educação do futuro. E, nesse contexto, a tecnologia exerce papel importante, mas não central. 

De acordo com o educador, as transformações digitais acontecerão, no entanto, sendo sustentadas por novas práticas culturais e novas formas de relacionamentos. Estas, sim, sendo apoiadas pela tecnologia. 

Essa transformação digital, por exemplo, depende da gente começar a fazer perguntas diferentes

“Essa transformação digital, por exemplo, depende da gente começar a fazer perguntas diferentes”, afirma  Luciano. Para ele, é comum que, quando se pensa no processo educacional, as perguntas girem em torno de como as tecnologias digitais podem melhorar o desempenho dos educadores, quando o ideal é inverter essa lógica e questionar como ajudar educadores a alcançarem seus propósitos de inovação usando, inclusive, tecnologias digitais

“A transformação digital não é a aquisição e não depende necessariamente da instalação de um regime tecnológico, mas sim de uma construção cultural”, reforça Luciano. 

Além de observar o conteúdo, a chave para uma educação do futuro, aposta Luciano Meira, também está em fomentar novas habilidades como resolução de problemas, conhecimento de novas mídias e a já citada inteligência social. 


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competências para o século 21, ensino fundamental, ensino médio, ensino superior, tecnologia

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