Projeto conecta escola e território para explicar caminho do dinheiro público
por Bruna Rosa
23 de janeiro de 2026
A participação cidadã sempre esteve presente nos documentos e discursos da Escola Municipal Professora Georgina Corsina Pinto, em Barroso, cidade mineira com pouco mais de 20 mil habitantes. No cotidiano da sala de aula, porém, eu percebia que esse conceito ainda aparecia distante da experiência real das crianças. Muitos alunos não se reconheciam no que aprendiam e tinham dificuldade de relacionar os conteúdos escolares à cidade onde vivem, ao comércio local, aos serviços públicos e às decisões que impactam a vida coletiva.
Essa inquietação se intensificou quando observei que temas como impostos, serviços públicos e cuidado com o patrimônio comum surgiam espontaneamente nas conversas das crianças, mas não ganhavam espaço pedagógico. Assim nasceu o projeto “Cidadão legal e consciente tem responsabilidade social com o desenvolvimento local”, desenvolvido com uma turma do 4º ano, tendo a educação fiscal como eixo estruturante da formação cidadã.
O projeto foi construído com o apoio da comunidade escolar, especialmente da coordenadora Sandra Cristina Souza e da supervisora pedagógica Vanessa Nascimento.
Escola como parte viva do território
Antes de iniciar as atividades, elaborei um planejamento alinhado ao currículo municipal e à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), com o objetivo de tratar a educação fiscal não como um tema isolado, mas como um fio condutor capaz de integrar diferentes áreas do conhecimento. Estudei conceitos como cidadania, tributos, arrecadação, serviços públicos e desenvolvimento local, sempre buscando traduzi-los para a linguagem e a vivência das crianças.
A escola é parte viva do território. Por isso, o planejamento previu a participação da comunidade, visitas ao entorno, diálogos com comerciantes, instituições locais e gestores públicos. A sequência didática (clique aqui para visualizá-la) foi organizada para acontecer ao longo de todo o ano letivo, respeitando o tempo de aprendizagem dos alunos e aprofundando gradualmente os conceitos.
Escutar para começar
O projeto teve início com rodas de conversa, fundamentais para identificar o que as crianças já sabiam e o que imaginavam sobre cidadania, impostos e serviços públicos. Perguntas como “o que é ser cidadão?”, “para que servem os impostos?” e “quem paga por aquilo que usamos na cidade?” abriram espaço para falas espontâneas e dúvidas.
Essas conversas revelaram que muitos conceitos ainda eram abstratos. Para registrar esse ponto de partida, construímos mapas conceituais, desenhos e pequenos textos, que passaram a servir como referência para acompanhar a evolução das aprendizagens ao longo do projeto.
Impostos no cotidiano
Nos primeiros meses, trabalhei os conceitos básicos da educação fiscal, como impostos, tributos e taxas de forma gradual e sempre conectada ao cotidiano. Partimos da observação da própria escola. Os alunos listaram tudo o que utilizavam diariamente, como alimentação, materiais e uniformes, e, a partir disso, surgiu a pergunta norteadora: “De onde vem o dinheiro para manter tudo isso funcionando?”
As crianças perceberam que a merenda escolar, por exemplo, é garantida por recursos públicos provenientes dos impostos pagos pela população.
Em seguida, ampliamos o olhar para a cidade, especialmente após o passeio à praça reformada no centro do município. Durante esse processo, os estudantes registraram descobertas por meio de desenhos, textos, tabelas e gráficos simples. Também participaram de simulações práticas, como a montagem de um mercadinho de bairro.

| Mercadinho do bairro: impostos na prática |
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| Para tornar a educação fiscal concreta, a turma montou um mercadinho na escola. Divididos em grupos, os estudantes organizaram diferentes tipos de comércio, como farmácia, mercadinho e loja de roupas, utilizando embalagens vazias trazidas de casa e materiais recicláveis para ambientar os espaços. Cada grupo definiu preços, estratégias de venda, uso de dinheiro fictício e criou seus próprios cupons fiscais, com nome do comércio, lista de produtos e valores. Em rodízio, todos vivenciaram os papéis de cliente e caixa, registrando compras, calculando valores, conferindo troco e analisando os cupons. A atividade possibilitou discutir consumo consciente, impostos e a função do documento fiscal como garantia de direitos e instrumento de controle da arrecadação. ▶️ Clique aqui para assistir aos vídeos explicativos gravados pela turma sobre a importância do cupom fiscal |
Ao final dessa etapa, os alunos já eram capazes de explicar, com suas próprias palavras, a função social dos impostos e a importância do cuidado com o patrimônio público. Também fomos às ruas para compartilhar com os vizinhos o que estávamos aprendendo.
Aprendizagens que ganham voz
Durante a simulação do mercadinho, um estudante comentou:
“Agora eu entendi por que as coisas não são tão baratas aqui quanto na internet. Tem imposto, e esse dinheiro volta pra cidade.”
Em outra roda, uma aluna afirmou:
“Eu achava que o uniforme era de graça, mas não é. Todo mundo paga um pouquinho pra todas as crianças terem.”
Após a visita à praça, um aluno observou:
“Se a gente quebra ou suja a praça, está estragando algo que foi pago com o dinheiro de todo mundo.”
Essas falas indicam que os estudantes passaram a perceber que os serviços públicos não são gratuitos, mas financiados coletivamente, desenvolvendo senso de pertencimento, responsabilidade e cuidado com o bem comum.
Comunidade, trabalho e quebra de estereótipos
Para tornar o aprendizado ainda mais significativo, promovemos rodas de conversa com familiares e vizinhos, valorizando diferentes profissões, especialmente aquelas ligadas ao comércio local. Oficinas conduzidas por artesãos, doceiras e trabalhadores autônomos deram visibilidade a trajetórias muitas vezes pouco reconhecidas.
Essas vivências ajudaram a ampliar a visão das crianças sobre o mundo do trabalho. Em uma dessas conversas, um estudante afirmou:
“Eu achava que só quem trabalhava na prefeitura ajudava a cidade, mas agora sei que o comércio também ajuda.”
Investigar, dialogar e agir
Com as bases conceituais consolidadas, avançamos para uma etapa de investigação dos serviços públicos do município. As crianças pesquisaram áreas como saúde, educação, limpeza urbana, iluminação e lazer, analisando como os impostos retornam para a população.
Uma visita à Prefeitura Municipal permitiu que os alunos apresentassem o projeto ao prefeito e conversassem diretamente sobre arrecadação e aplicação dos recursos públicos.
Ao longo dessas atividades, as crianças passaram a entender de onde vem a arrecadação, como os recursos são distribuídos e para quais áreas são destinados. De quebra, também conheceram os setores da administração municipal em diferentes contextos, como durante entrevista a um vereador, quando falaram do papel do Poder Legislativo e da importância da participação cidadã.
Essas experiências materializaram o funcionamento da gestão pública e fortaleceram o diálogo democrático. Um estudante comentou:
“Agora eu sei que o dinheiro não fica parado, ele vai para vários lugares da cidade.”
A turma também criou paródias sobre educação fiscal, como mostra o vídeo a seguir:
Educação fiscal, meio ambiente e solidariedade
A visita à mata ciliar do município teve como objetivo relacionar educação fiscal, meio ambiente e enchentes. Durante a observação do local, os estudantes identificaram lixo descartado irregularmente e marcas de queimadas às margens do rio, percebendo que a falta de preservação ambiental e de limpeza adequada contribui para o aumento do risco de enchentes.
A experiência levou os estudantes a reconhecer que ações de preservação, limpeza e prevenção dependem de políticas públicas financiadas por recursos coletivos. Ao relacionarem essa vivência às enchentes no Rio Grande do Sul, surgiu a pergunta:
“E as crianças que perderam tudo? Como elas vão estudar agora?”
Dessa inquietação nasceu uma ação solidária, com arrecadação de livros, brinquedos e alimentos, além da produção de cartas. O projeto mostrou que educação fiscal também envolve empatia, responsabilidade social e ação coletiva.
Protagonismo e impacto
Entre as experiências mais marcantes, destaca-se a visita ao Laticínio Zelão, fornecedor da merenda escolar, onde os estudantes acompanharam o processo de produção e relacionaram produção local, geração de empregos, arrecadação de impostos e desenvolvimento do município.
| Mascote da educação fiscal e identidade local |
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Como forma de fortalecer o vínculo das crianças com o projeto e com a cidade, os estudantes criaram um mascote da educação fiscal. A atividade começou com a produção de desenhos, e um modelo foi escolhido por votação democrática, simbolizando a bandeira do município e o sentimento de pertencimento local. Representado como um super-herói com capa feita de cupons fiscais, o mascote ajudou as crianças a compreender, de maneira simbólica, que os impostos sustentam os serviços públicos e o desenvolvimento da cidade. A escolha do nome e a confecção com materiais recicláveis ocorreram de forma coletiva, integrando educação fiscal, sustentabilidade e participação cidadã. ▶️ Assista aqui como foi a construção |
Além disso, gravamos um podcast com Letícia Menezes, subsecretária de Desenvolvimento Econômico e representante do programa Empreende Barroso. As crianças elaboraram as perguntas, conduziram a entrevista e discutiram temas como empreendedorismo, impostos e geração de empregos. Os episódios foram divulgados no Instagram do projeto, @georginafiscal.
Avaliar para reconhecer
A avaliação ocorreu de forma contínua e formativa, considerando o envolvimento dos alunos, suas produções e, principalmente, as mudanças de atitude em relação à cidadania e ao cuidado com o patrimônio público.
As crianças ampliaram sua compreensão sobre educação fiscal, identidade local e responsabilidade social, desenvolvendo autonomia, pensamento crítico, comunicação e cooperação. Para mim, como professora, o projeto reforçou a convicção de que a educação fiscal, quando conectada ao território e à vida cotidiana, é uma ferramenta importante de formação cidadã desde os anos iniciais.
Bruna Rosa
Pedagoga, especialista em psicomotricidade e desenvolvimento humano, atualmente em formação na segunda graduação em educação especial. Possui 11 anos de experiência em sala de aula, sendo sete anos na educação infantil e quatro no ensino fundamental. Atua como professora de Projeto de Vida no ensino médio e na EJA (Educação de Jovens e Adultos).





