Se tem sol, por que está frio? Quando a curiosidade infantil encontra a ciência e a cidadania
Na educação infantil de uma escola pública de Varginha (MG), uma pergunta espontânea das crianças se transformou em projeto interdisciplinar que uniu investigação científica e impacto social
por Katiele Moreira dos Santos
19 de janeiro de 2026
“Se tem sol, por que está frio?”. Essa pergunta, nascida da curiosidade de crianças de 4 anos da pré-escola I da Escola Municipal Professora Helena Reis, em Varginha (MG), foi o ponto de partida para uma jornada de investigação e aprendizagens.
Com 15 anos de atuação na rede pública, reconheci ali a oportunidade de tornar concreto o que muitas vezes aparece como abstrato na educação infantil: os fenômenos climáticos e astronômicos. A partir dessa escuta, desenvolvi o projeto “Se tem sol, por que está frio?”, integrando os campos de experiência da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) da Educação Infantil e as áreas STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática).
A proposta também se inspira na abordagem Reggio Emilia, na escuta ativa e na aprendizagem baseada em projetos, valorizando o protagonismo das crianças e a construção coletiva do conhecimento.
Pergunta investigativa: o ponto de partida para a alfabetização científica
O percurso teve início pelas rodas de conversa, nas quais as crianças compartilharam saberes prévios e levantaram hipóteses sobre o clima. Em vez de oferecer respostas prontas, atuei como escriba, registrando as teorias iniciais em cartazes. Essa prática permitiu valorizar o pensamento da turma e revisitar as ideias conforme o projeto avançava.
Entre as questões levantadas estavam:
- “Se o céu está azul e ensolarado, o sol está fraco?”
- “É o vento que não deixa o calor chegar?”
- “As árvores ficam sem folhas porque o sol está fraco?”
- “O frio vem porque a Terra está mudando de lugar?”

As hipóteses deram origem à fase de pesquisa. Passei a tratá-las como perguntas investigativas e lancei o desafio: “Como podemos descobrir se isso é verdade?”
Demos início a uma investigação guiada que combinou a observação cotidiana do clima e a exploração do Google Earth. Para acompanhar esse percurso, utilizamos recursos lúdicos, como o calendário coletivo do tempo e o termômetro humano, que tornaram o registro das descobertas mais sensorial e participativo.
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Mão na massa para prototipar e explorar o Sistema Solar
A leitura do livro “Minha Casa”, de Lorena Kaz, que apresenta a Terra como nossa morada, ampliou o interesse das crianças pelo planeta e levou à exploração do globo terrestre. O encantamento inicial rapidamente se transformou em ação: a construção de uma maquete interativa do sistema solar.
A etapa de engenharia foi especialmente transformadora. Juntos, buscamos maneiras de compreender conceitos como rotação e translação por meio de desenhos e pequenas experimentações que respeitaram o tempo de elaboração de cada criança.

A maquete tornou-se o eixo central das investigações. Ao manusear o protótipo, as crianças observavam, testavam e explicavam o que acontecia com a Terra ao longo do tempo, compreendendo de forma visual a origem das estações do ano.
Esse percurso foi ampliado com a visita ao planetário da cidade, onde os conceitos estudados puderam ser vivenciados de forma sensorial. Como curiosidade local, o Planetário de Varginha faz parte do complexo do Memorial do ET, ponto turístico que celebra a famosa lenda urbana “ET de Varginha” que acaba de completar 30 anos.

| Passo a passo da maquete |
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A prototipagem do globo terrestre combinou materiais acessíveis, recicláveis e não estruturados, valorizando a experimentação e o trabalho coletivo. Materiais do depósito e recicláveis: caixas de papelão para a base; bolinhas de isopor de diferentes tamanhos para os astros; arames, barbantes e varetas para os eixos de rotação. Materiais de consumo e estética: tintas, pincéis, cola, tesouras sem ponta e massa de modelar, usados nas etapas iniciais de construção e acabamento. Materiais não estruturados: folhas secas e galhos coletados pelas crianças no pátio, integrando a biodiversidade local ao projeto. Recursos tecnológicos complementares: lanternas para simular a luz do sol e tablets ou projetores como apoio visual ao design. |
Aprendizagem solidária: a investigação climática aplicada à comunidade
A investigação sobre o clima levou as crianças a refletirem sobre como o frio afeta a vida das pessoas da comunidade. Surgiram conversas sobre quem sente mais os efeitos das baixas temperaturas e como a escola poderia ajudar. Sensibilizadas por essas reflexões, as crianças idealizaram o Varal Solidário, uma campanha de doação de roupas que mobilizou toda a escola.
Elas criaram slogans, produziram cartazes e participaram da organização da coleta e distribuição de roupas e cobertores. Durante quase uma semana, um varal atravessou o pátio de entrada da escola, com acesso livre para famílias e para a comunidade. A própria turma assumiu a organização diária das peças, contando com o apoio de colegas de outras salas.
A ação foi tão significativa que a escola planeja torná-la permanente, fortalecendo uma cultura de empatia, sustentabilidade e responsabilidade social.

ODS: sustentabilidade e consumo responsável na infância
A ação comunitária possibilitou o alinhamento do projeto aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11 e 12, relacionados a cidades sustentáveis e consumo responsável.
Para abordar esses temas, utilizei vídeos da Turma da Mônica, a exploração da página De Criança para Criança e a leitura da coleção “O Mundinho”, de Ingrid Biesemeyer Bellinghausen. Esses recursos ampliaram a compreensão das crianças sobre cuidado com o planeta e responsabilidade coletiva.
O poder da escuta e da valorização dos saberes da zona rural
Além disso, o projeto valorizou os saberes locais com o Caderno de Saberes, um recurso itinerante que circulou entre as casas. As crianças entrevistaram familiares sobre como o clima influencia o trabalho e as tradições locais.
Como muitas famílias vivem na zona rural, os registros trouxeram saberes sobre o manejo da terra e as plantações ao longo das estações, além de lendas e tradições locais. De volta à escola, essas histórias eram compartilhadas em rodas de conversa, fortalecendo o diálogo entre o saber científico, a cultura local e as vivências comunitárias.

Evidências de aprendizagem e legado para a escola
O projeto foi selecionado para a Feira de Tecnologias na Educação de Varginha, realizada junto à 1ª fase da Olimpíada Brasileira de Robótica. No evento, as crianças deveriam apresentar a maquete, explicar o funcionamento do sistema solar e compartilhar com o público os conhecimentos construídos ao longo do percurso.
Embora toda a turma tivesse participado do projeto, limitações logísticas das famílias no dia do evento permitiram que apenas uma criança representasse o grupo. Com autonomia, o aluno explicou o movimento de translação dizendo: “Quando a Terra gira ao redor do Sol, aqui fica frio, aqui fica quente…”, encantando o público. Mesmo sem premiação, a participação foi considerada vitoriosa por evidenciar o protagonismo das crianças e marcar a presença da escola como uma das poucas instituições de educação infantil no evento.

Desenvolvimento de competências e formação continuada
Houve avanços significativos na linguagem oral, na autonomia e na interação entre os pares, registrados na documentação pedagógica. Crianças inicialmente mais tímidas passaram a se engajar com mais segurança, especialmente nas atividades colaborativas. A necessidade de comunicar ideias e resolver desafios fortaleceu vínculos e ampliou o protagonismo de cada criança.
A realização simultânea de uma formação em metodologia STEAM impactou profundamente minha prática pedagógica, reafirmando que não se deve subestimar a capacidade intelectual e criativa das crianças pequenas. Partir de perguntas genuínas, como “Se tem sol, por que está frio?”, mostrou-se um caminho potente para desenvolver as competências previstas na BNCC.
Ao investigar o clima, dialogar com os saberes da comunidade e promover ações solidárias, as crianças tornaram-se agentes de mudança desde a infância. Se, no início, afirmavam que “o sol girava ao redor da Terra”, ao final já projetavam novos desafios: “A maquete poderia girar sozinha?”. Este é um indício de que a curiosidade não se encerrou — ela apenas abriu novas possibilidades de investigação.
| Integração dos campos de experiência da BNCC da Educação Infantil |
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A pergunta “Se tem sol, por que está frio?” funcionou como fio condutor de todo o projeto, garantindo a integração entre os campos de experiência da educação infantil. No calendário do tempo, as crianças mobilizaram Escuta, Fala, Pensamento e Imaginação em diálogo com Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações, ao registrar sequências, contagens e noções temporais. Na construção da maquete, o planejamento e as noções espaciais e físicas articularam-se ao campo Traços, Sons, Cores e Formas, por meio da experimentação de materiais, tintas e modelagem. Assim, a ciência foi vivenciada de forma integrada, unindo linguagem, matemática, estética e investigação como ferramentas indissociáveis para a compreensão do mundo. |
Katiele Moreira dos Santos
É professora na Escola Municipal Professora Helena Reis, em Varginha (MG). Pedagoga e pós-graduanda em Educação Inclusiva, Inspeção e Orientação, fundamenta sua prática nas abordagens STEAM e Reggio Emilia. É Google Certified Educator, finalista da Liga STEAM 2025 e tricampeã do Prêmio Marina Prado de Castro por suas práticas inovadoras na rede pública de ensino.





