Estudantes lançam talk show literário para discutir democracia em sala de aula - PORVIR
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Diário de Inovações

Estudantes lançam talk show literário para discutir democracia em sala de aula

Em escola de Macapá, professora estimula a formação cidadã da turma com a construção de programas de entrevistas e eleição de redações

por Nilva Oliveira dos Santos ilustração relógio 28 de março de 2018

A Escola Estadual Maria do Carmo Viana dos Anjos está localizada na zona norte da capital amapaense, em Macapá. Próxima de uma região de remanescentes de quilombolas, o Curiaú, o que obriga muitos deslocarem uma certa distância para chegar à escola. Atendemos as modalidades do ensino fundamental 2 e o ensino médio.

Para muitos somos considerados uma escola de periferia, e isso se reflete em baixa autoestima de muitos estudantes e funcionários, não raro causam ausência de pertencimento e cuidado com o patrimônio público. Em meio as dificuldades estruturais e aos dilemas comuns ao público jovem, sempre procuramos trabalhar projetos pertinentes à comunidade escolar e voltados a solucionar algumas problemáticas.

Em abril de 2017, tivemos o conhecimento do 9º Concurso de Desenho e Redação promovido pela CGU (Controladoria-Geral da União) pela primeira vez. Chamou-nos atenção o tema “Todo dia é dia de cidadania”. Organizamos nosso projeto de modo interdisciplinar, com as disciplinas de artes, história e língua portuguesa e literatura. Procuramos trabalhar a temática de modo que o assunto se tornasse significativo na formação de cidadãos mais conscientes e responsáveis. Em língua portuguesa e literatura foram três grandes ações: talk show literário e histórico, produção da redação e a eleição da redação representante da nossa escola.

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Em todas elas percebemos grande envolvimento das turmas, além de melhora significativa na qualidade textual com maior argumentatividade e construção de leitores reais, melhor interação na turma e sentimento de pertencimento ao ambiente escolar. Partimos da concepção sociointerativa de educação, de modo que consideramos o meio comunitário em que a escola está inserida bem como a interação dos indivíduos, e que dessa interação ocorre o desenvolvimento do ensino-aprendizagem. Consideramos que o ambiente sala de aula podem ser extrapolados em diversas oportunidades dentro e fora da escola, com incentivo à pesquisa e trocas de experiências.

Nos meses de abril e maio foi trabalhado o período literário pré-modernismo, cujo contexto histórico social incluía as guerras de Canudos e do Contestado, as revoltas da Chibata, da Armada e da Vacina, além das grandes greves operárias no início do século 20. Autores como Monteiro Lobato, Euclides da Cunha e Lima Barreto trataram em suas obras alguns desses problemas. Das reflexões acerca da participação popular em conquistas mais democráticas gerou uma ação denominada de talk show literário e histórico, consistia em parodiar os programas televisivos noturnos de entrevistas. Nesta ação, os estudantes montaram seu “programa” com o entrevistador e entrevistado previamente selecionado. Durante a última semana do mês de maio fizemos a culminância das apresentações.

Já no mês de junho os estudantes receberam as primeiras orientações sobre texto dissertativo, tipos de argumentos e parágrafos. Em seguida, foi solicitado que fizessem uma redação em que poderiam apresentar a concepção de cidadania e formação de cidadão.  Essas produções apresentavam diversos problemas como clichês cidadania/eleição, ausência do leitor imaginário para o texto além da professora, dissociação com outras áreas do saber etc. Então aproveitei o período de férias para dar o devido distanciamento temporal do texto e propor que o retorno para a reescrita encontrasse neles não mais um escritor, mas um leitor real do próprio texto.

Com os textos prontos, realizamos um processo de votação. A escolha desta metodologia levou em consideração a própria temática do concurso, de modo que houvesse maior protagonismo, envolvimento e sentimento de pertencimento por parte dos estudantes do ambiente escolar. No total foram contados 176 votos, sendo:

– Texto 01 “Adolescente em nossa cidadania” (47 votos)
– Texto 02 “Exercendo a cidadania em sociedade” (37 votos)
– Texto 03 “O que é ser um cidadão?” (91 votos)
– 01 voto branco

O texto 03 continha trechos de plágios, de modo que procuramos refletir com os estudantes o aspecto nocivo desta prática infelizmente muito comum. De modo que o texto selecionado para o concurso foi o segundo mais votado, o número 01. Como resultado, tivemos grande parte da escola lendo os textos e comentando. Escritores consideraram o valor do leitor para produzirem um texto com mais discursividade, com considerável melhora argumentativa e apresentação formal.

 

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Nilva Oliveira dos Santos

Graduada em letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2003). Trabalhou no ensino superior com a disciplina de língua portuguesa no curso de direito e literatura infantil e no curso de pedagogia, no Instituto de Educação Superior de Campo Grande (ICG). Atua na rede privada em Campo Grande (MS). Ministrou cursos de capacitações para professores na rede estadual de Mato grosso do Sul e no Amapá. Atualmente é professora concursada na rede estadual do Governo do Estado do Amapá, há 12 anos. Tutora no curso de letras na Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Fez especialização em metodologia do ensino da língua portuguesa e literaturas. Tem diversas formações continuadas na área de tecnologias da informação e comunicação.

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ensino fundamental, ensino médio

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