Guia apoia redes de ensino na construção de currículo de educação integral - PORVIR
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Inovações em Educação

Guia apoia redes de ensino na construção de currículo de educação integral

Plataforma do Instituto Ayrton Senna traz roteiro com explicações em textos, vídeos e infográficos para auxiliar a implementação da Base Nacional Comum Curricular nas escolas

por Fernanda Nogueira ilustração relógio 30 de outubro de 2018

O Instituto Ayrton Senna lançou um guia digital  para ajudar as redes de ensino de todo o país a construir currículos de educação integral, considerado um dos principais passos para a implementação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) nas escolas. A plataforma traz um roteiro com explicações em textos, vídeos e infográficos, que inclui informações sobre o que é educação integral, qual é a visão do estudante proposta na BNCC, como ela se relaciona com os conceitos de desenvolvimento pleno e integração curricular e quais os caminhos para concretizar os elementos no texto introdutório do currículo.

O guia dá especial atenção ao texto introdutório do currículo, explicando sua importância. “Precisa ser claro e comunicar as concepções teóricas, que vão se desdobrar desde os projetos políticos pedagógicos das escolas até o planejamento da aula dos professores”, explica um vídeo. A estrutura do texto, de acordo com uma sugestão feita pelo instituto, pode trazer o processo de elaboração do documento, os marcos legais – como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e o Plano Nacional de Educação –, a visão do estudante e de educação, as diretrizes do que o estudante deve saber, temas contemporâneos e modalidades da educação básica.

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A plataforma foi estruturada a partir de oficinas presenciais desenvolvidos com responsáveis pelos currículos de sete redes de educação: a secretaria municipal de São Paulo e as secretarias estaduais de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Piauí, Alagoas, Espírito Santo e Sergipe. As cinco últimas desenvolvidas em parceria com a Fundação Lemann. “O guia tem como objetivo levar para as secretarias de educação interessadas uma reflexão sobre educação integral, sobre o desenvolvimento de habilidades socioemocionais e sobre como espelhar no texto introdutório do currículo a importância disso”, explica Mônica Pellegrini, gerente de projetos do Instituto Ayrton Senna.

Em um vídeo, especialistas falam sobre o que é educação integral. Para Mozart Neves Ramos, diretor de Articulação e Inovação do instituto, educação integral é falar na plenitude de todas as pessoas, não apenas em uma. “Isso significa desenvolver não apenas habilidades cognitivas, aprendizagens escolares, para a pessoa ir muito bem no campo profissional, mas (desenvolver) pessoas que sejam humanas, que saibam respeitar o outro, pessoas que saibam conviver, que tenham amabilidade, que tenham capacidade de autocrítica, de autogestão. Saber compartilhar, saber colaborar”, explica Mozart.

O guia detalha três elementos estruturantes do texto “O compromisso com a educação integral” da BNCC (p. 14), que são a visão do estudante, o desenvolvimento pleno e a integração curricular. Na página sobre a visão do estudante, a plataforma fala sobre a importância de saber “quem são os estudantes que estão nas escolas, quais são suas características, desejos, projetos e identidades, o que desejam para sua educação?”. Traz ainda informações sobre a pesquisa “Nossa Escola em (Re)Construção”, realizada pelo Porvir/Inspirare. De um total de 130 mil estudantes entrevistados em todo o Brasil, 52% acham que a participação deles nas decisões da escola é muito importante para a educação que sonham e 56% gostariam de estudar em uma escola onde poderiam se envolver em projetos de melhoria da escola e da comunidade do entorno.

A página sobre desenvolvimento pleno explica a proposta da BNCC de superar a divisão e hierarquização entre o desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento emocional. Para explicar essa nova visão, o guia traz um raio X das 10 competências gerais da BNCC, que integram aspectos cognitivos e socioemocionais, como comunicação, criatividade, pensamento crítico e científico e autoconhecimento. Fala ainda sobre o modelo das cinco macrocompetências, adotado pelo Instituto Ayrton Senna. “São elas: abertura ao novo, autogestão, engajamento com os outros, amabilidade e resiliência emocional.”

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O desafio proposto às redes com relação ao desenvolvimento das competências socioemocionais é sobre como dar mais ferramentas aos professores para trabalharem essas habilidades em sala de aula, segundo Mônica. “O desenvolvimento pleno já faz parte do universo do educador. Por exemplo, pelo trabalho com aprendizagem colaborativa, em times ou duplas. Um estudante apoia o desenvolvimento do outro. O trabalho por projetos é uma proposta metodológica que está aí há séculos. A potência de aprendizagem aumenta. Quando o professor se coloca como mediador, a problematização muda na sala de aula. Esse é o caminho”, afirma.

Por último, a página sobre integração curricular do guia explica a importância de evitar a fragmentação do currículo. “Para a integração curricular se concretizar de fato na escola, é necessário que o PPP (Projeto Político Pedagógico) anuncie novas formas de condução para a gestão e para o trabalho colaborativo entre professores. Uma das formas de fazer isso é instituir práticas comuns a todas as áreas, tanto no que se refere às metodologias ativas de ensino e aprendizagem (tais como a aprendizagem colaborativa, a aprendizagem por projetos ou a pesquisa e a problematização), quanto ao que diz respeito às estratégias de avaliação formativa e processual”, explica o guia.

Segundo Mônica, o incentivo do MEC (Ministério da Educação) para que as secretarias de educação criassem times de educadores para desenvolver o novo currículo foi um avanço. “Antes, as redes encomendavam os currículos com universidades. Agora, as próprias secretarias estão desenvolvendo o currículo para seus estudantes. É um momento histórico”, explica.

Professores debatem sobre uma mesa durante oficinaDivulgação

Na prática
A Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul foi uma das redes que passaram pelos laboratórios presenciais do Instituto Ayrton Senna. As discussões sobre a construção do novo currículo de referência baseado na BNCC começaram em 2017. Uma comissão estadual foi formada em conjunto com os municípios, incluindo a secretaria estadual, a Undime (União dos Dirigentes Municipais de), o Conselho Estadual de Educação, o sindicato das escolas particulares e o sindicato dos professores.

Para o grupo de redatores do currículo, foram selecionados 22 professores no total, incluindo funcionários do Estado, de municípios e de uma escola particular. Desde então, o texto já está na terceira versão, após passar por consultas públicas, que contaram com mais de 126 mil contribuições, de mais de seis mil professores. A implementação começa em 2019.

“A maior angústia desde o início era a questão da educação integral. Já existia na prática do professor, mas não tinha um planejamento claro. Por isso, a primeira estratégia do Instituto foi trabalhar com os redatores o que seria educação integral, que não tem nada a ver com educação em tempo integral”, explica Helio Queiroz Daher, superintendente de políticas educacionais da secretaria estadual de MS, que atua como coordenador estadual da BNCC.

Outra questão foi definir como o professor pode trabalhar as habilidades socioemocionais em aula. “É complexo porque tira o professor da zona de conforto. Não tem aula de empatia. Desenvolve ao longo das aulas, com diálogo, argumentação, autonomia. Por isso, teremos que investir na formação dos professores no rito de implementação do novo currículo. Vai fazer parte da formação continuada dos professores”, diz Helio.

A principal mudança para os educadores, de acordo com o superintendente, deve ser na necessidade de maior trabalho em grupo. “A expectativa é que a implementação da BNCC não tenha um impacto tão grande porque não altera tanto a rotina de currículo deles (professores). Não altera a sequência de conteúdo. O impacto é considerar a educação integral, que força o professor a trabalhar com os colegas, a planejar aulas. A aprendizagem se constrói em conjunto. Os professores terão que trabalhar como times, não mais isolados. Vai exigir uma capacidade de planejar coletivamente. A formação de professores vai trabalhar junto para terem clareza no processo.”


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aprendizagem baseada em projetos, competências para o século 21, educação integral, ensino fundamental, ensino médio, formação continuada, socioemocionais

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