Por muito tempo, falar em educação antirracista na escola esteve associado principalmente ao trabalho do professor: o livro que escolhe, a aula que prepara, o projeto que desenvolve ou a forma como intervém diante de uma situação de discriminação. Tudo isso é fundamental. Mas, na posição de gestor escolar, fui entendendo que existe uma pergunta anterior: quais condições a escola cria para que esse professor consiga realizar esse trabalho?
Enfrentar essa questão é uma dificuldade que permeia inclusive o meu próprio trabalho como diretor. Isso ficou evidente para mim na organização de um evento com as famílias para a apresentação de projetos e oficinas desenvolvidos ao longo do semestre. Ao observar trabalhos da equipe pedagógica, identifiquei ausências de conteúdos sobre a temática antirracista. Além disso, uma das oficinas reproduzia uma concepção eurocêntrica de um tema.
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Isso revelou, de forma tangível, que, para a construção de uma escola antirracista, é preciso estar ativamente disponível para desconstruir uma série de padrões e concepções ainda comuns em nossas escolas.
Essa mudança de perspectiva altera também o meu olhar sobre a equipe. Não basta observar se um professor conhece a Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas ou se inclui referências negras em suas aulas.
É necessário prestar atenção às pequenas decisões que acontecem diariamente: quem recebe mais estímulo, quem é interrompido com maior frequência, quais comportamentos são rapidamente classificados como indisciplina, que expectativas construímos sobre determinados estudantes e até quais situações registramos ou deixamos de registrar.
Formando uma equipe contra o racismo
O racismo nem sempre aparece em um episódio explícito. Muitas vezes, ele se manifesta justamente na repetição de decisões aparentemente comuns.
Por isso, formação antirracista não pode ser entendida como uma palestra realizada uma vez por ano. Formar uma equipe é criar oportunidades permanentes para rever práticas, estudar casos, discutir decisões e desenvolver uma linguagem comum. Significa ajudar professores, coordenação, funcionários administrativos, inspetores e demais profissionais a reconhecer situações que antes poderiam passar despercebidas. Afinal, todos os adultos de uma escola educam e participam da construção do ambiente em que crianças e adolescentes aprendem a compreender seu próprio lugar no mundo. E talvez esteja aqui o maior desafio.
Na correria do dia a dia, imerso em diferentes tipos de deliberações, o gestor escolar acaba sendo absorvido por demandas urgentes e negligencia a atenção à equidade racial no espaço escolar.
Gestão ativa e atenta
Para evitar que isso ocorra, é preciso ter uma organização administrativa coerente e robusta, além de reconhecer que é impossível para o gestor resolver sozinho todos os problemas da escola. A liderança pode compartilhar responsabilidades, construir decisões coletivamente, contar com professores e especialistas que possuem mais repertório em determinadas áreas e delegar funções específicas aos funcionários administrativos e à coordenação pedagógica.
No entanto, a direção não pode transferir a responsabilidade de comunicar que o antirracismo é uma prioridade institucional. Cabe à gestão garantir tempo para formação, recursos para projetos, critérios para lidar com ocorrências, canais de escuta, procedimentos de registro, revisão de práticas e acompanhamento das decisões tomadas.
Quando um conflito racial acontece, por exemplo, não se deve depender da sensibilidade individual de quem o presenciou para definir se haverá acolhimento, registro ou acompanhamento. Essa talvez seja uma das fronteiras mais importantes entre uma escola que possui educadores antirracistas e uma instituição que efetivamente consolida uma gestão antirracista.
Não é tarefa de um único professor ou professora
Conheço muitos professores profundamente comprometidos com essa pauta. São educadores que pesquisam, propõem projetos, identificam problemas e frequentemente provocam suas instituições a avançar.
Mas existe um risco quando a escola passa a depender exclusivamente deles: transformá-los em uma espécie de “Dom Quixote” da educação antirracista, sempre tentando convencer colegas, encontrar materiais, justificar projetos e responder aos conflitos praticamente sozinhos. Isso acaba trazendo sobrecarga, estresse e, por vezes, conflitos que podem até gerar o desligamento daqueles que lideravam a pauta.

Uma gestão comprometida precisa fazer o movimento contrário: retirar o professor do isolamento. Isso significa oferecer respaldo institucional, incorporar suas experiências ao planejamento coletivo, garantir recursos e fazer com que aquilo que começou pela iniciativa de uma pessoa se transforme em conhecimento organizacional. Essa postura garante que outros profissionais possam ajudá-lo, além de chancelar e proteger esse educador contra eventuais pressões de famílias, alunos ou de parte da equipe que possa discordar da pauta.
O que a minha experiência conta
Tenho pensado cada vez mais que uma escola antirracista não é aquela em que todos os profissionais já sabem exatamente o que fazer, mas sim aquela que construiu condições para aprender, reconhecer erros, agir e melhorar coletivamente.
Isso exige observar o currículo e os materiais, mas também os processos de contratação, a distribuição de oportunidades, a comunicação com as famílias, as decisões disciplinares, a formação da equipe e os postos de liderança. Exige perguntar quem é ouvido, quem é protegido, quem aparece como referência de conhecimento e quem precisa constantemente provar que pertence àquele espaço.
Uma gestão democrática comprometida com as relações raciais precisa ampliar vozes e incorporar essa diversidade à própria definição das prioridades da escola.
Em meu TCC defendido no MBA de Gestão Escolar pela USP/Esalq, examinei os Projetos Político-Pedagógicos de duas escolas progressistas do Rio de Janeiro. Nenhuma delas explicitava ou descrevia o compromisso com a educação antirracista em seus documentos oficiais, por mais que mantivessem projetos curriculares pontuais com foco no tema.
Tenho compreendido que uma gestão antirracista começa quando a educação antirracista e a equidade racial deixam de depender apenas da iniciativa de alguns profissionais e passam a ser compromissos declarados da escola. Isso significa tornar esses princípios visíveis no projeto pedagógico, nas formações, nas decisões de gestão e, principalmente, nos procedimentos institucionais.
É nesse ponto que protocolos claros de enfrentamento ao racismo e ações permanentes de letramento racial se tornam fundamentais. Eles ajudam a equipe a reconhecer situações de discriminação, sabendo como acolher, registrar, comunicar, responsabilizar, reparar e acompanhar cada caso.
Mais do que criar regras, esses instrumentos oferecem aos profissionais um guia comum de atuação, reduzindo respostas improvisadas ou contraditórias diante de situações semelhantes. Uma escola comprometida com a equidade não pode depender da sensibilidade individual de quem presencia um episódio de racismo: precisa construir referências coletivas para agir.
Porque o pertencimento também se constrói assim: quando estudantes, famílias e profissionais sabem que existe uma instituição preparada para reconhecer desigualdades, enfrentar o racismo e proteger quem faz parte dela. Garantir essa estrutura é uma responsabilidade que começa, necessariamente, nas escolhas da gestão.

