Projeto une estudantes e mulheres da comunidade pela obra de Carolina - PORVIR
Crédito: Arquivo Pessoal

Diário de Inovações

Projeto une estudantes e mulheres da comunidade pela literatura de Carolina de Jesus

Projeto escolar com estudantes do 9º ano usa a obra de Carolina Maria de Jesus para transformar a literatura em prática de escuta sobre mulheres, trabalho e dignidade

por Shirlei Rodrigues Pelizzaro ilustração relógio 30 de janeiro de 2026

Na comunidade onde leciono, muitas mulheres saem de casa ainda de madrugada. Percorrem longas distâncias para trabalhar, quase sempre como empregadas domésticas. Muitas são mães solo e convivem com a informalidade e a ausência de direitos trabalhistas. São mulheres que sustentam casas, histórias e afetos, mas raramente aparecem nos livros, nos discursos ou nas políticas públicas. 

Ao observar esse cotidiano, criei o projeto “Carolinas”, com o objetivo de conscientizar os estudantes sobre situações de subalternidade e estimular a empatia e a solidariedade. Para isso, recorri à literatura, à música e ao cinema como linguagens centrais do processo, que possibilitaram reflexões críticas sobre desigualdades, racismo e a omissão de programas sociais que afetam, sobretudo, mulheres pobres, pretas e periféricas.

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Trajetória

Desenvolvido ao longo de aproximadamente 70 aulas, entre março e novembro, com turmas do 9º ano do ensino fundamental da Escola Municipal professora Cynthia Cliquet Luciano, em São Sebastião (SP), o projeto foi estruturado como uma sequência didática de longa duração nas minhas aulas de língua portuguesa. Contei também com a colaboração da professora de artes, Luana Fida (Clique aqui para acessar o plano de aula).

Começamos o projeto com uma pergunta: quem são as mulheres que cuidam de tudo e quase nunca são cuidadas? A partir dela, organizamos o percurso que articulou literatura, análise linguística, oralidade, produção escrita, pesquisa de campo e linguagens artísticas, como cinema, teatro e artes visuais. Tudo devidamente alinhado às habilidades da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) previstas para o segmento.

Grupo de estudantes sentados em círculo em uma biblioteca escolar
Crédito: Arquivo Pessoal Projeto reconectou estudantes à sua comunidade pelo legado de Carolina Maria de Jesus.

▶️ Conheça os demais projetos finalistas da 3ª edição do Prêmio Professor Porvir! E acompanhe nossas redes: publicaremos os selecionados até a última semana de fevereiro!

Escuta inicial

A sequência didática partiu de uma roda de conversa guiada por perguntas que conectam o tema da invisibilidade social das mulheres à vida dos estudantes: vocês conhecem mulheres da comunidade que desenvolvem ações sociais? Quais leis são voltadas às mulheres? Como acontece a representatividade política no município? Qual a importância das creches? E qual é o papel das mulheres indígenas na sociedade?

Em seguida, projetei imagens de mulheres negras e indígenas escritoras, como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Geni Guimarães, Aline Rochedo Pachamama, Cristine Takuá. Com as fotos, provoquei os alunos a refletir sobre quais profissões imaginavam que elas exerciam. O objetivo era explicitar estereótipos e iniciar a leitura crítica de mundo antes da leitura dos textos.

Também apresentei alguns pontos da legislação que protegem as mulheres, como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio e a Lei do Stalking (perseguição obsessiva), conversando também sobre suas respectivas relatoras.

Análise de discursos

Em 8 de março, Dia Internacional das Mulheres e data simbólica para a discussão de gênero, recebemos a professora e coreógrafa Michele Nunes, mulher negra que desenvolve um projeto social de dança na comunidade. Na ocasião, ela compartilhou um pouco de sua trajetória, o que ajudou os estudantes a reconhecerem continuidades entre vida, trabalho e desigualdade.

Professora em pé fala com estudantes sentados em biblioteca escolar
Crédito: Arquivo Pessoal O Projeto Carolinas combate a invisibilidade social ao questionar quais mulheres sustentam a comunidade e por que suas histórias raramente são contadas.

Em seguida, passamos a estudar a vida e obra da escritora mineira Conceição Evaristo. Com a leitura do conto “Maria”, presente no livro “Olhos d’Água”, abordamos duas habilidades da BNCC em especial: a EF69LP44, voltada à identificação de valores sociais, culturais e humanos em textos literários, considerando autoria e contexto histórico; e EF89LP33, que trata da leitura autônoma e da compreensão de diferentes gêneros literários, com expressão de interpretações, avaliações e preferências dos estudantes.

A análise foi ampliada com a discussão de uma fake news sobre o linchamento de uma mulher negra no Guarujá (cidade do litoral paulista), permitindo relacionar ficção com situações reais envolvendo violência simbólica, desinformação e responsabilização social.

Também lemos um artigo de opinião sobre a PEC da escala 6×1, proposta pela deputada federal Érika Hilton. Expliquei aos estudantes que uma PEC é uma Proposta de Emenda à Constituição e que, nesse caso, a discussão envolve a revisão da jornada de trabalho, questionando o modelo de seis dias trabalhados para um de descanso.

As leituras foram acompanhadas de atividades de compreensão e interpretação, além de reflexões sobre como a sobrecarga de trabalho afeta a saúde física e mental das mulheres, especialmente aquelas que acumulam trabalho remunerado, tarefas domésticas e cuidado com a família.

O curta-metragem “Vida Maria” e as canções “Maria, Maria” (Milton Nascimento e Fernando Brant) e “Maria da Vila Matilde” (de Douglas Germano, interpretada por Elza Soares) foram incorporados a esta etapa como textos multissemióticos. A partir deles, realizamos reflexões orientadas e um novo debate a partir de registros escritos, com exemplos de mães e avós que foram impedidas de estudar ou tiveram que migrar dos seus territórios em busca de oportunidades. Esta etapa estimulou o olhar crítico de diferentes linguagens e o reconhecimento de ciclos de violência que atravessam gerações.

A escrita como registro histórico

A apresentação da trajetória de Carolina Maria de Jesus marcou um novo momento da sequência didática. O nome do projeto, em sua homenagem, surgiu a partir das evidências de que muitas mulheres da comunidade vivenciam realidades semelhantes às vividas e retratadas por Carolina em sua obra. 

A leitura de “Quarto de Despejo”, livro do gênero diário que consagrou a autora nacional e internacionalmente, acontecia todas as sextas-feiras. Após as leituras, os estudantes se reuniam para momentos de escuta, troca e debate.

O trabalho com o diário possibilitou explorar a narrativa em primeira pessoa, a linguagem direta e o texto como documento histórico, situando a obra no contexto da urbanização de São Paulo e da história da população negra. Essa abordagem dialoga diretamente com a Lei 10.639/03, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileira na educação básica.

Ao longo do processo, os estudantes também produziram registros espontâneos sobre seus sentimentos e impressões diante da história de Carolina, exercitando a escrita autoral e ampliando as possibilidades de expressão, identificação e reflexão crítica.

Grupo de adolescentes lê livros ilustrados juntos em mesa redonda
Crédito: Arquivo Pesoal Alunos debatem relações de trabalho femininas e desenvolvem memórias em primeira pessoa a partir de relatos reais.

Pesquisa de campo

Carolina também nos inspirou a entrevistar mulheres da comunidade que atuam como empregadas domésticas. A atividade envolveu o planejamento coletivo do roteiro, o estudo do gênero entrevista, considerando quem seriam, quais temas deveriam ser abordados e como garantir a escuta respeitosa. 

Os estudantes também editaram os materiais produzidos, organizando falas, contextualizando os depoimentos e construindo um encerramento da produção textual, exercitando a habilidade de planejar, realizar e editar entrevistas orais previstas na BNCC (EF89LP13).

Também debatemos as violências e relações de trabalho vivenciadas pelas mulheres, assim como exemplos de respeito e valorização de seus contratantes. A partir desses relatos, os estudantes produziram textos de memória em primeira pessoa, exercitando empatia, coesão, coerência e revisão coletiva.

Três adolescentes leem juntos o livro infantil “Taynôh”
Crédito: Arquivo Pessoal Taynôh explora as raízes dos povos originários e a conexão com a floresta com uma narrativa sobre memória, identidade e o tempo presente.

Diálogo intercultural

A sequência avançou com o estudo de autorias indígenas contemporâneas, como as escritoras Aline Rochedo Pachamama (Churiah Puri) e Cristine Takuá e a artista visual Daiara Tukano. Além das leituras comparadas entre textos indígenas e não indígenas, rodas de conversa e pesquisas, abordamos as experiências anteriores das turmas, que tinham visitado a Aldeia Indígena Rio Silveiras, aqui mesmo na cidade de São Sebastião, e assistido a produções audiovisuais com protagonismo indígena, como o filme “Para’i”.

Esse percurso resultou na exposição “Sabedoria Ancestral”, na galeria de arte Cândido Portinari, dentro da escola. A mostra reuniu pesquisas, pinturas e reflexões que valorizam os saberes ancestrais e a diversidade das vozes dos povos originários, com homenagem especial a Aline Rochedo Pachamama, primeira indígena a fundar uma editora voltada às línguas indígenas e à reparação linguística e territorial por meio dos livros.

Debate público

Em parceria com a Associação Rosas Negras, formada por mulheres negras da comunidade e atuante na promoção de ações antirracistas, de acolhimento social e assistencial, fortalecemos o diálogo entre a escola e o território.

Como parte dessa articulação, assistimos ao documentário “Doméstica”, dirigido por Gabriel Mascaro, e realizamos uma roda de conversa com a participação do professor de História, Edvanaldo Serafim, aprofundando o debate a partir das experiências retratadas no filme.

A discussão teve como eixo o dia 13 de maio de 1888, data em que a Lei Áurea foi assinada por Princesa Isabel, problematizando seus impactos históricos e sociais para a população negra. O debate crítico sobre o processo da escravização manteve o foco nas experiências das mulheres negras e nas permanências das desigualdades no pós-abolição.

Três jovens atuam em cena de atendimento médico no palco
Crédito: Arquivo Pessoal A adaptação teatral de “O Sonho de Bitita” destaca o talento autoral dos estudantes na criação de cenários, figurinos e atuação.

Expressões artísticas

Como produto final, organizamos um caderno coletivo com os textos de memória produzidos pelos estudantes. Em agosto, durante a Festa da Leitura da escola, montamos uma exposição em homenagem à trajetória de Carolina Maria de Jesus, com curtas-metragens, fotografias, objetos, jogos e produções artísticas.

O projeto extrapolou os limites da sala de aula por meio do trabalho desenvolvido no Grupo de Teatro Baobá, idealizado e dirigido por mim, que desde 2022 promove montagens com temática antirracista. Os estudantes participaram das atividades no contraturno escolar e, neste ano, diante do envolvimento profundo com a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus, decidimos levá-la ao palco com a adaptação da peça de teatro “O Sonho de Bitita”.

Os figurinos e os cenários foram concebidos e produzidos pelos próprios estudantes, fortalecendo o caráter autoral e coletivo do processo. O roteiro e a direção contaram com a minha participação. A apresentação ocorreu no Teatro Municipal da cidade e foi reconhecida com o prêmio de Melhor Peça na categoria Ensino Fundamental II no FestiArt, reforçando o impacto artístico e pedagógico da experiência.

Assista a íntegra da peça “O Sonho de Bitita”

Impactos e aprendizagens

Os resultados obtidos para os estudantes foram o desenvolvimento do pensamento crítico, a consciência das desigualdades sociais vivenciadas por mulheres e suas consequências, a importância de lutar por direitos trabalhistas e de não se calar diante das violências vivenciadas, muitas vezes, por mulheres da própria família.

Os estudantes compreenderam a importância da literatura e da escrita como instrumentos de denúncia social e de registro histórico. Reconheceram, também, que em suas próprias comunidades existem muitas mulheres como Carolina Maria de Jesus: mulheres que criam seus filhos sozinhas, lutam pelo acesso à educação e seguem trabalhando, mesmo em condições adversas e sem acolhimento social.

Além disso, tiveram acesso à autoria de mulheres pretas que, apesar das restrições de acesso à escolarização formal, tornaram-se grandes artistas e escritoras. Aos poucos, foram encorajados a acreditar em seus potenciais e em seus sonhos.


Shirlei Rodrigues Pelizzaro

Professora e produtora cultural. Formada em Letras, é especialista em Literatura Infantojuvenil e Educação Indígena. Atua como professora de Língua Portuguesa e Literatura na rede municipal de São Sebastião e desenvolve projetos voltados à temática étnico-racial com adolescentes da região. Ativista do Movimento Negro desde a juventude, é cofundadora da Associação Rosas Negras, que promove ações antirracistas por meio da educação e da cultura, além do acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Também atua como mediadora e curadora em feiras literárias. Atualmente, é membro do Conselho Municipal de Educação de São Sebastião e coordenadora do roteiro indígena Aproximado Mundo e Pensamentos, idealizado pela educadora indígena Cristine Takuá, que promove uma imersão em conhecimentos ancestrais em uma Escola Viva no território Guarani do Rio Silveiras.

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3ª edição - Prêmio Professor Porvir, educação antirracista, ensino fundamental

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