No Pantanal, alunos investigam fake news após boatos na comunidade - PORVIR
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No Pantanal, alunos de escola ribeirinha mapeiam notícias falsas após boatos na comunidade

Em uma escola acessada apenas por barco, no Pantanal sul-mato-grossense, estudantes dos anos iniciais investigam imagens viralizadas, entrevistam funcionários e aprendem, na prática, a checar informações em um território recém-conectado à internet

por Renata Domingos Opimi ilustração relógio 11 de fevereiro de 2026

O projeto “Verdade ou Fake News?” nasceu da necessidade de trabalhar o senso crítico de crianças que vivem em comunidades ribeirinhas do Pantanal sul-mato-grossense, em um contexto marcado por transformações recentes no acesso à informação. 

Desenvolvido na Escola Municipal Rural de Ensino Integral Polo Paraguai Mirim, Extensão Jatobazinho, em Corumbá (MS), o trabalho envolveu 30 estudantes dos anos iniciais do ensino fundamental, do 3º ao 5º ano, com idades entre 9 e 12 anos, organizados em turmas multisseriadas na modalidade de educação do campo. 

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A escola localiza-se na região do Castelo, a 100 quilômetros do Porto Geral de Corumbá, com acesso exclusivamente por via fluvial, e atende majoritariamente crianças que vivem às margens do Rio Paraguai. 

Os alunos estudam em regime de semi-internato: saem de seus portos, nas cidades vizinhas, na segunda-feira pela manhã, passam toda a semana na escola e retornam para casa no sábado. Assim como eu, a maior parte dos funcionários vem de Corumbá. Também voltamos para casa apenas no fim de semana.

Vivo essa rotina há dois anos por escolha. Ainda durante o curso de pedagogia, já sabia que queria atuar em uma escola das águas. Participei do processo seletivo, conquistei o terceiro lugar e escolhi a Escola Jatobazinho, reconhecida pelo trabalho desenvolvido em parceria com o Instituto Acaia Pantanal.

Durante muito tempo, o acesso à informação nessas comunidades foi limitado. Nos últimos anos, esse cenário começou a mudar com a instalação de placas solares e a chegada da internet via satélite. A ampliação do acesso abriu novas possibilidades de aprendizagem, pesquisa e comunicação, mas também expôs a comunidade à circulação de boatos, desinformação e notícias falsas. 

Um episódio recente, em que uma família deixou de vacinar os filhos após ouvir relatos falsos sobre os riscos da vacina, evidenciou o impacto concreto da desinformação na comunidade e reforçou a urgência de um trabalho pedagógico voltado à educação midiática e à checagem de informações.

Da “conversa fiada” à desinformação vacinal

A inspiração para o projeto surgiu durante uma formação promovida pelo Instituto Acaia Pantanal, realizada em São Paulo, quando conheci o Acaia Ateliê Escola. Um mural que apresentava notícias acompanhadas de justificativas sobre sua veracidade despertou a ideia de adaptar a proposta para a realidade local. 

A primeira experiência ocorreu com crianças de 4 a 7 anos, sob o título “Verdade ou Conversa Fiada?”, envolvendo escuta de histórias, investigação junto à comunidade escolar e produção de registros. O envolvimento das crianças e os resultados obtidos motivaram a ampliação da proposta para os estudantes mais velhos, dando origem ao projeto “Verdade ou Fake News?”, com foco na análise de imagens viralizadas nas redes sociais.

O projeto foi desenvolvido no âmbito da Atividade Eletiva da Oficina de Comunicação e Tecnologia, com a participação de duas turmas multisseriadas do 3º ao 5º ano, organizadas em grupos identificados como preá e tatu-canastra, nomes de animais do Pantanal escolhidos para valorizar a relação da escola com a região. As aulas foram conduzidas por mim e pela professora residente, Kenia Kemily Rodrigues Souto, ao longo de três semanas, totalizando seis encontros. 

Desde o início, o objetivo central foi desenvolver o senso crítico dos estudantes diante das informações que circulam nas mídias digitais, estimulando a capacidade de identificar, investigar e verificar a veracidade de imagens e notícias por meio do uso consciente das tecnologias.

O cotidiano nas escolas das águas

A escola faz parte do conjunto das chamadas “escolas das águas”, unidades que funcionam em áreas rurais de difícil acesso no Pantanal Sul e cuja rotina é diretamente atravessada pelos ciclos dos rios Paraguai e Taquari. Ao todo, são 11 escolas que atendem crianças ribeirinhas, assentadas, filhos de pescadores e peões.

A unidade onde atuo funciona dentro de uma fazenda, às margens da Baía Vermelha, em uma Área de Preservação Ambiental (APA). Ela é mantida por meio de uma parceria entre a Prefeitura Municipal de Corumbá e o Instituto Acaia Pantanal, organização que fundou a escola na região em 2008 e desenvolve diversas ações socioambientais na zona rural do município.

Atualmente, atendemos crianças das regiões do Castelo, Maracangalha, Paiaguás, Paraguai Mirim, São Francisco e Serra do Amolar.

O que o Papa e Gabriel Medina ensinam sobre o olhar

A proposta pedagógica adotada teve como base as metodologias ativas, especialmente a Aprendizagem Baseada em Problemas, valorizando a experiência, a investigação e o protagonismo dos estudantes. O trabalho começou com rodas de conversa sobre fake news e uso responsável da internet, criando um espaço de escuta e troca de ideias. 

Em seguida, realizamos a análise coletiva de imagens reais e adulteradas, incluindo conteúdos manipulados por inteligência artificial, com o objetivo de provocar questionamentos e curiosidade.

Foram selecionadas três imagens de naturezas distintas. A primeira mostrava um hotel em formato de navio localizado no alto de um penhasco, na Coreia do Sul, o Sun Cruise Resort and Yacht, que, apesar da aparência, está em terra firme. 

A segunda era uma imagem falsa do Papa Francisco usando um casaco volumoso, criada por inteligência artificial e amplamente compartilhada nas redes sociais, inclusive reproduzida por veículos de comunicação. 

A terceira era a fotografia do surfista brasileiro Gabriel Medina suspenso no ar, ao lado da prancha, com o dedo apontando para o número 1, após uma onda avaliada com nota 9,90 nos Jogos Olímpicos de Paris. 

Clique na foto para ver a galeria de imagens:

Os exemplos permitiram discutir como imagens podem induzir a interpretações equivocadas, mas também como registros reais constroem narrativas, símbolos e emoções.

Como a escola não dispõe de celulares ou tablets para uso pedagógico, as imagens foram previamente selecionadas e impressas. Organizados em trios, os estudantes realizaram uma pesquisa de campo, entrevistando dez funcionários da escola para investigar se consideravam as imagens verdadeiras ou falsas. As crianças conduziram todo o processo de forma autônoma, sem interferência das educadoras, formulando perguntas, registrando respostas e elaborando hipóteses. 

As imagens que mais surpreenderam foram a do resort da Coreia do Sul e a fotografia de Gabriel Medina, que muitos alunos acreditavam ser falsas, enquanto a imagem do surfista era reconhecida como verdadeira pela equipe adulta, em razão do maior acesso às mídias digitais.

A ciência de investigar fontes e organizar dados

Na sequência, os alunos foram à sala de informática para verificar a autenticidade das imagens na internet. Esse momento exigiu a descrição detalhada do que observavam, a formulação de hipóteses e a escolha criteriosa de palavras-chave para as buscas no Google, além da comparação entre diferentes fontes para confirmar a veracidade das informações. O processo reforçou a importância da leitura crítica de imagens e da avaliação da confiabilidade das fontes.

Com os dados coletados, os estudantes realizaram inicialmente a tabulação manual das respostas e, posteriormente, utilizaram o Planilhas Google para organizar as informações e produzir gráficos de barras, colunas e setores. O gráfico, intitulado “As pessoas da escola sabem reconhecer se uma foto é verdade ou fake?”, apresentava as variáveis “acertaram” e “erraram”. Os resultados mostraram que a comunidade escolar, em sua maioria, conseguia reconhecer a veracidade das imagens analisadas.

Clique na foto e confira a galeria de imagens:

Os gráficos foram reproduzidos em cartolinas e expostos em um mural coletivo, que passou a ser atualizado ao longo do bimestre. O mural se transformou em um espaço permanente de socialização do conhecimento produzido, funcionando como um espaço de divulgação científica dentro da escola e promovendo diálogo, curiosidade e reflexão sobre o impacto das fake news na comunidade. 

Os funcionários entrevistados demonstraram entusiasmo em participar das pesquisas, interrompendo momentaneamente suas atividades para responder às perguntas e se mostrando especialmente curiosos diante de algumas imagens, como a do resort da Coreia do Sul.

Além de ampliar o senso crítico e a capacidade investigativa das crianças, o projeto contribuiu para o desenvolvimento de competências digitais, como a busca e seleção de informações, a resolução de problemas e o uso do computador. Muitos alunos, embora familiarizados com celulares fora do ambiente escolar, apresentavam dificuldades com ferramentas digitais mais complexas. A iniciativa também aproximou os setores pedagógico e operacional da escola, reforçando a compreensão de que todos são educadores.

Resultados alcançados

Em 2025, foi possível perceber que a semente da pesquisa havia germinado. Outros educadores passaram a desenvolver projetos investigativos inspirados na proposta, como o projeto “Verdade ou História de Pescador”, conduzido pelo professor Daniel na Atividade Eletiva. Nessa experiência, funcionários da escola — Lucila Arruda, ribeirinha e cozinheira, e Pedro Picolomini, indígena guató e piloteiro — foram convidados a contar dois causos cada, um verdadeiro e outro inventado. Cabia aos alunos analisar as narrativas e opinar sobre sua veracidade, culminando na produção de um novo mural com a revelação das respostas.

O projeto “Verdade ou Fake News?” demonstrou que trabalhar a educação midiática desde os anos iniciais, especialmente em contextos do campo e de comunidades tradicionais, é uma estratégia fundamental para formar sujeitos críticos, capazes de questionar, investigar e tomar decisões informadas em uma realidade marcada pela circulação acelerada de informações falsas.

É muito enriquecedor trabalhar com crianças ribeirinhas. Vivemos numa troca constante em que, ora sou professora, ora aprendiz. A cada semana, aprendo novos saberes tradicionais com elas e com suas famílias. Hoje sei sentir a direção do vento: quando sopra do sul, o frio chega e o rio fica mais agitado; quando vem do norte, as águas seguem mais tranquilas. Também aprendi que, quando a inhuma, ave aquática de grande porte, canta, pode haver onça por perto.

Não é fácil deixar meu lar todas as segundas-feiras e enfrentar duas horas de navegação até a escola. Mas é justamente a diferença que a educação faz na vida dessas crianças que me motiva a entrar no barco e seguir viagem, semana após semana.


Renata Domingos Opimi

É professora desde 2021, quando se formou em Letras e atuou no ensino médio. Posteriormente, cursou Pedagogia e passou a atuar como pedagoga. Atualmente, trabalha na Prefeitura Municipal de Corumbá (MS) e no Instituto Acaia Pantanal.

TAGS

competências para o século 21, educação midiática, ensino fundamental

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