“Participar do Grupo de Vivências foi uma das experiências mais importantes que eu já tive. Nunca imaginei que a escola me daria um lugar onde eu me sentiria acolhida de verdade, um espaço onde eu pudesse me expressar sem medo e ser quem eu sou.”

Ao ouvir o depoimento de uma aluna do 2º ano do ensino médio, percebi a dimensão do que o Grupo de Vivências LGBTQIAPN+ passou a representar dentro da Escola Estadual Sônia Maria Alexandre Pereira, em São José dos Campos (SP). Sempre acreditei que a escola deve ser um espaço de acolhimento e respeito.

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Quando eu era aluna, não existia nenhuma iniciativa parecida, e isso me incomodava. Eu queria mudar essa realidade e fazer da escola um lugar onde todos se sentissem pertencentes, respeitados e representados. Com esse propósito criei, junto com a colega Camila Quedas Soares Pupin, o Grupo de Vivências LGBTQIAPN+, um encontro semanal aberto a alunos, professores e funcionários, criado como um ponto de encontro e de escuta.

Estudante desenha em cartolina branca
Atividade do Grupo de Vivências LGBTQIAPN+ Crédito: Arquivo pessoal

De onde veio a ideia

Atuo há um ano e meio como professora da rede pública estadual, lecionando história, geografia, filosofia, sociologia e geopolítica no ensino médio. Acredito que criar uma conexão com os estudantes é o primeiro passo para estabelecer relações entre ensino e aprendizagem.

Logo no primeiro dia de aula, costumo contar algumas coisas sobre mim, entre elas que sou bissexual e que prezo pelo respeito e pela empatia dentro da sala de aula. Essa abertura inicial costuma gerar confiança e faz com que estudantes da comunidade LGBTQIAPN+ se sintam à vontade para se aproximar e conversar comigo.

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Com o tempo, percebi que muitos alunos manifestavam o desejo de dividir suas vivências, mas não encontravam um ambiente de apoio. As conversas do dia a dia foram se transformando em relatos, desabafos e pedidos por mais acolhimento. Entendi, então, o quanto a escola ainda precisava avançar na construção de um lugar realmente seguro e respeitoso para todos.

No ano anterior à criação do grupo, já observando essas necessidades e sentindo-as também em mim, propus uma atividade sobre gênero e sexualidade. Organizei uma roda de conversa e, durante aquele encontro, ouvi relatos muito sinceros e dolorosos sobre experiências de preconceito, tanto na escola quanto nas famílias, além de falas carregadas de estereótipos e desinformação. Essa vivência me marcou profundamente e me fez compreender que era preciso criar um lugar de escuta permanente.

Estudantes reunidos na sala de leitura
Pesquisas e debates do Grupo de Vivências LGBTQIAPN+ acontecem na sala de leitura Crédito: Arquivo pessoal

Desenvolvimento

O primeiro passo foi ouvir os próprios estudantes. No início, percorremos as salas convidando alunos e professores a participarem. Como o projeto é aberto e por adesão, ele não está restrito a uma única turma. Atualmente, doze alunos participam regularmente, além de outros que aparecem de forma ocasional.

Durante esse chamado, enfrentamos resistência e comentários preconceituosos, como “vish, que viadagem”, “credo” e “o mundo está perdido mesmo”. Em uma das turmas, um aluno perguntou, em tom de provocação, se o grupo falaria sobre Deus. Expliquei que a proposta não tinha objetivos religiosos, e ele reagiu com desdém. Esses episódios mostram, de forma ainda mais clara, o quanto o grupo era necessário.

Em seguida, realizamos um mapeamento das demandas e expectativas dos participantes para entender o que realmente os movia e preocupava. A principal questão levantada era relacionada ao contexto familiar: muitos queriam expressar suas dores e encontrar apoio em outros que viviam situações semelhantes. 

Outras temáticas também surgiram, como o preconceito na escola, a transfobia dentro da própria comunidade, a autoaceitação, a autoestima, as representações LGBTQIAPN+ na cultura pop, os lugares inseguros, as infecções sexualmente transmissíveis e o processo de transição hormonal. Esse mapeamento é contínuo e se renova a cada encontro, conforme os alunos trazem novas experiências e temas de interesse.

Escolhemos a Sala de Leitura como espaço de acolhimento. Organizamos o ambiente com cartazes, livros, produções artísticas e mensagens de apoio, criando uma atmosfera de segurança e respeito.

Questão de gênero é questão da escola

A fim de apoiar as conversas sobre identidade de gênero e orientação sexual em sala de aula, o Porvir ouviu professores e especialistas para disponibilizar uma curadoria com materiais para o planejamento pedagógico. Confira!

Rodas de conversa, oficinas e criatividade

Nossos encontros acontecem uma vez por semana, geralmente durante o intervalo do almoço. As rodas de conversa se tornaram o coração do grupo. 

Os temas surgem tanto dos alunos quanto das professoras responsáveis. As reuniões duram cerca de quarenta minutos, tempo suficiente para promover o diálogo e o acolhimento, mesmo dentro da rotina escolar. Cada encontro é guiado pela escuta ativa, pela empatia e pelo respeito. Desde o início, minha intenção não era conduzir uma aula tradicional, mas criar um espaço horizontal, onde todos pudessem falar e ser ouvidos.

Com o tempo, passamos a incluir oficinas artísticas, como pintura, colagem, teatro e música, como formas de expressão. Essas atividades ajudaram os alunos a traduzirem suas vivências em arte e a ressignificarem experiências de dor, resistência e orgulho. Muitos gostam de desenhar, pintar e criar, por isso fazia sentido incorporar essas linguagens ao grupo.

Além das oficinas, realizamos análises críticas de filmes, séries, músicas e livros com representações LGBTQIAPN+. Esses momentos de reflexão coletiva apoiam a educação midiática: conversamos sobre como a mídia pode tanto reforçar estereótipos quanto abrir caminhos para novas formas de se reconhecer e existir.

Entre os materiais trabalhados, estão os livros da série “Heartstopper”, de Alice Oseman, que retratam com sensibilidade o amor entre dois adolescentes e abordam temas como amizade, identidade e aceitação. A leitura despertou empatia e identificação entre os alunos, servindo como ponto de partida para conversas sobre afetividade e respeito.

Outro título é “Se eu fosse pura”, de Amara Moira, escritora e doutora em literatura. Ela compartilha suas experiências como mulher trans discutindo gênero, corpo e preconceito a partir de uma perspectiva sincera e poética.

Também lemos “Não recomendado”, do cantor e escritor Caio Prado, obra que mistura letras, crônicas e reflexões sobre vivências LGBTQIAPN+, questionando os padrões e reafirmando a potência da liberdade e do amor em suas múltiplas formas.

Optamos por uma abordagem interdisciplinar, envolvendo as áreas de Ciências Humanas (história, geografia, sociologia e filosofia) e língua portuguesa, de modo que o projeto dialogasse com o currículo e com as competências da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), como a análise da diversidade social (EM13CHS001), a valorização dos direitos humanos (EM13CHS103) e a reflexão crítica sobre a mídia (EM13CHS503).

As leituras e os debates ampliaram o repertório cultural do grupo e reforçaram o sentido do projeto como um espaço de escuta, acolhimento e formação crítica.

Exposição “Presente com Orgulho”

Um dos momentos mais marcantes do Grupo de Vivências LGBTQIAPN+ foi a criação da exposição “Presente com Orgulho”, idealizada e construída coletivamente por estudantes e professoras. A mostra transformou os corredores da escola, convertendo um mero lugar de passagem em um ambiente de reflexão e celebração.

A primeira parte da exposição abordou as diferentes formas de violência que atingem a comunidade LGBTQIAPN+, evidenciando o impacto do preconceito, da exclusão e da violência física e simbólica. 

Para essa etapa, realizamos uma pesquisa em jornais de grande circulação sobre casos de violência e utilizamos também dados e levantamentos produzidos pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), o que deu base e credibilidade ao trabalho. 

Uma grande bandeira azul, rosa e branca estampava a frase: “O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo.” O dado, retirado dos levantamentos da ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), evidenciava a gravidade da violência de gênero no país. De acordo com o Dossiê ANTRA 2024, o Brasil segue, pelo 16º ano consecutivo, na liderança mundial de assassinatos de pessoas trans e travestis, com 257 mortes registradas em 2023 — o que equivale a um caso a cada 34 horas.

A presença desses dados na mostra teve o propósito de sensibilizar a comunidade escolar para a urgência de promover o respeito, a empatia e a defesa dos direitos humanos, articulando informação, arte e conscientização.

As conquistas e histórias de luta da comunidade estavam no foco da segunda etapa, apresentando personalidades que abriram caminhos para a visibilidade e o respeito. As produções reuniam textos, cartazes, desenhos e colagens que celebravam o orgulho e a resistência.

Entre os homenageados, os cantores Jão, Cássia Ellier, Glória Groove, Ludmila, Sam Smith, Lara Raj (KATSEYE), Ney Matogrosso, Pabllo Vittar, Demi Lovato e Carol Biazin; as atrizes Alice Braga, Nanda Costa, Hunter Schafer, Laverne Cox e Elliot Page; os personagens Sailor Uranus (anime Sailor Moon), Amity Blight e Luz Noceda (Série The Owl House) e Garnet (personagem da série Steven Universe); os ativistas Marsha P. Johnson, Erika Hilton, Harvey Milk; o escritor Oscar Wilde e a pintora Frida Kahlo.

Foi emocionante ver os alunos apresentando suas produções para colegas e professores, compartilhando histórias e se reconhecendo nas narrativas expostas. A exposição não apenas sensibilizou toda a comunidade escolar, mas também reafirmou o direito de cada pessoa existir plenamente, com dignidade e orgulho.

Abertura para a comunidade

A boa repercussão do projeto nos levou a abrir o grupo para a comunidade. Convidamos ativistas, artistas e especialistas para participarem das rodas de conversa, ampliando os olhares e fortalecendo a integração entre escola e sociedade.

Uma parceria essencial foi realizada com a UBS (Unidade Básica de Saúde) do bairro, que visitou o grupo para esclarecer dúvidas sobre infecções sexualmente transmissíveis, transição hormonal e cuidados com a saúde. Essa aproximação também possibilitou uma nova parceria com uma advogada que faz parte da comunidade LGBTQIAPN+ e atua na área de direitos civis. Ela conversou com os alunos sobre questões legais envolvendo casos de preconceito e documentação para pessoas trans.

Cada convidado trazia novas perspectivas e reforçava a importância de uma educação pautada nos direitos humanos, na diversidade e na empatia.

Uma grande bandeira azul, rosa e branca estampava a frase: “O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo.”
Destaque da exposição “Presente com orgulho”

Obstáculos a superar

Enfrentamos desafios importantes ao longo do caminho. A LGBTfobia ainda é uma realidade; é preciso muito diálogo para desconstruir estigmas e construir confiança. Outro obstáculo foi o tempo: como os encontros aconteciam durante o intervalo do almoço, era necessário um esforço coletivo de organização e comprometimento.

Sinto que nem todos os docentes compreenderam completamente a importância desse espaço para os alunos. Nenhum se opôs ou expressou críticas preconceituosas, mas a maioria também não se envolveu ativamente, com exceção da professora da Sala de Leitura, minha grande parceira, Camila Pupin. O convite à participação veio durante uma reunião de equipe, mas a adesão efetiva se deu de forma tímida.

Mesmo assim, a cada semana, o grupo crescia e se tornava mais forte. O respeito e o sentimento de pertencimento começaram a se espalhar pela escola, transformando o clima institucional e mostrando que o acolhimento também é uma poderosa ferramenta pedagógica.

Destaque da exposição: bandeira LGBT cobre uma das janelas da escola
Bandeiras, pesquisas e homenagens à grandes nomes das artes tomaram conta dos corredores da escola

Impactos e aprendizados

Os resultados foram surpreendentes. Vi alunos mais confiantes, participativos e empáticos. Muitos relataram que passaram a se sentir representados e ouvidos pela primeira vez. O grupo também inspirou outros professores a incluir temas relacionados à diversidade em suas aulas e projetos. 

O Grupo de Vivências LGBTQIAPN+ me ensina que educar é, antes de tudo, escutar. É criar espaços onde cada estudante possa existir plenamente, sem medo e sem disfarces. Hoje, quando vejo a escola mais aberta, sensível e acolhedora, tenho a certeza de que estamos no caminho certo.

O feedback dos alunos é minha principal ferramenta de avaliação. O objetivo do grupo nunca foi quantitativo, mas qualitativo, e os avanços se revelam nos gestos do cotidiano. Um exemplo marcante foi o dia em que, pela primeira vez, um aluno trans teve coragem de corrigir uma pessoa que o chamou pelo pronome errado.

Trazer apoio externo e manter a constância das atividades foram acertos importantes, que ajudaram a consolidar o grupo.

Nosso grupo segue ativo, crescendo e se transformando junto com a comunidade escolar. Sigo aprendendo todos os dias com cada voz que se levanta para dizer: “eu existo, e a escola também é meu lugar.”

Formada em História pela Univap (Universidade do Vale do Paraíba, em São Paulo), atuou em projetos socioambientais com pesquisa cultural e educação não formal em museus. Há um ano e meio é professora da rede pública estadual de São Paulo, lecionando...

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