6 princípios que fazem da educação na Finlândia um sucesso - PORVIR
Crédito: Riku Isohella/Velhot Photography Oy

Inovações em Educação

6 princípios que fazem da educação na Finlândia um sucesso

Do currículo à avaliação, professora detalha a cultura educacional finlandesa

por Maria Muuri ilustração relógio 6 de setembro de 2018

Eu trabalhei como professora de educação infantil e de ensino fundamental aqui na Finlândia por mais de uma década, e passei cinco anos como vice-diretora também. Nosso sistema educacional é amplamente considerado um dos melhores, se não o melhor do mundo. Alguns podem presumir que isso se deve ao fato de pagarmos mais aos nossos professores, mas, de acordo com números recentes, a Finlândia não está nem entre os 10 países que pagam salário mais alto para seus professores.

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Então, o que torna as escolas finlandesas consistentemente excelentes? Uma reforma curricular adotada pela Agência Nacional Finlandesa para a Educação em 2016 estabeleceu objetivos-chave que penso serem reflexos claros da abordagem finlandesa à educação: aumentar a participação dos alunos, aumentar a significância da aprendizagem e permitir que todos os alunos se sintam bem-sucedidos em seu aprendizado acadêmico e socioemocional. Os alunos estabelecem metas, resolvem problemas e avaliam seu aprendizado com base em metas estabelecidas. Os princípios que orientam o desenvolvimento do sistema educacional da Finlândia enfatizam a escola como uma comunidade de aprendizagem. Esses princípios incluem o seguinte:

Habilidades transversais

O novo currículo enfatiza as competências transversais na instrução. O que são habilidades transversais? São coisas como aprender a aprender, competência cultural, interação e autoexpressão. Eles se concentram em cuidar de si mesmo e gerenciar a vida cotidiana, mas também abrangem a competência com tecnologia e a vida profissional. Há também uma ênfase na construção de habilidades ativas que os alunos vão precisar para o resto de suas vidas, como empreendedorismo, participação, envolvimento e criação de um futuro sustentável.

Uma sociedade em mudança exige habilidades e competências cada vez mais transversais, por isso professores de cada disciplina devem promovê-las. Quando eu era professora, fiz isso atribuindo tarefas bem abertas aos alunos, com a ideia de que provavelmente haveria mais de uma resposta correta.

Apoio governamental

Para promover seu currículo nas escolas, a Agência Nacional de Educação da Finlândia está sempre buscando novas ferramentas que apóiem o ensino da melhor maneira possível. A agência identificou a realidade aumentada como uma poderosa tecnologia emergente e ajudou a desenvolver um programa de impressão em Realidade Aumentada e 3D (onde eu trabalho) especificamente criado para apoiar o novo currículo e desenvolver uma cultura escolar positiva.

Outro sucesso é a Universidade de Turku e sua empresa, a Universidade da Finlândia, que vendeu seu programa educacional anti-bullying baseado em pesquisa KiVa para 17 países ao redor do mundo. O fato de o governo ter participado desses projetos desde o início significa que a tecnologia foi projetada para apoiar a missão educacional nacional, por isso os professores não precisam olhar para uma ferramenta de tecnologia que receberam e se perguntar: “Como eu vou usar isso?

6 princípios que fazem da educação na Finlândia um sucesso - Meninas lendo na Escola Kirkkojärvi, na cidade de EspooCrédito: Riku Isohella/Velhot Photography Oy

Aprendizagem multidisciplinar

A cada ano letivo, todas as escolas devem ter pelo menos um tema, projeto ou curso claramente definido que combine o conteúdo de diferentes disciplinas e lide com o tema selecionado na perspectiva de vários assuntos. Estes são chamados módulos de aprendizagem multidisciplinar. As escolas planejam e implementam os módulos de aprendizagem multidisciplinares, e os temas e a duração podem variar de acordo com as necessidades e interesses locais. Os alunos participam no planeamento dos módulos e os professores asseguram que, ao longo deste processo, os alunos de vários níveis trabalham em conjunto.

Diferenciação

Todos os estudantes têm suas individualidades, por isso não podemos ensiná-los todos da mesma maneira. Os professores precisam diferenciar suas aulas, o que implica que geralmente há pelo menos cinco níveis diferentes de tarefas na mesma classe ao mesmo tempo.

Isso também significa que cada aluno tem seus próprios objetivos específicos que são acordados todos os anos junto com o professor, aluno e pais. Fazemos questão de ter alunos de diferentes históricos de vida trabalhando juntos. Como professora, acredito que sempre há algo que você pode aprender com alguém diferente de você.

Diversidade na avaliação dos alunos

Enquanto os professores americanos têm que lidar com testes punitivos de alto risco, o novo currículo finlandês enfatiza a diversidade nos métodos de avaliação, bem como a avaliação que orienta e promove o aprendizado. Informações sobre o progresso acadêmico de cada aluno devem ser dadas ao aluno e aos responsáveis com frequência. O retorno avaliativo também é fornecido de outras maneiras que não relatórios ou certificados. A autoavaliação e a avaliação entre pares desempenham um papel importante na avaliação e na habilidade de aprender a aprender.

Nas escolas elementares, não temos modelos para avaliação. Temos discussões de avaliação com pais e alunos pelo menos uma vez por ano, mas muitos têm o hábito de tê-los duas vezes. Estabelecemos metas e discutimos o processo de aprendizagem, e a avaliação é sempre baseada nos pontos fortes dos alunos.

Um papel ativo para estudantes

A ideia simples aqui é que os professores devem falar menos e deixar o aluno fazer mais. Os professores facilitam o ensino, enquanto os alunos estabelecem metas, refletem e resolvem problemas da vida real. Também estimulamos a curiosidade dos alunos estudando em ambientes fora da sala de aula, como o pátio da escola, a floresta, uma biblioteca ou até mesmo um shopping center.

Todos esses princípios são fundamentais para a educação finlandesa, mas o mais importante é que nosso sistema nacional é dedicado a ajudar todos os estudantes a crescer como seres humanos.


TAGS

aprendizagem baseada em projetos, aprendizagem colaborativa, autonomia, avaliação, competências para o século 21, educação infantil, educação integral, educação mão na massa, ensino fundamental, formação continuada, personalização, socioemocionais, tecnologia, uso do território

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Guilherme Alves Ferrante

Aqui no Brasil creio que esse método jamais daria certo, o povo finlandês é de sua natureza resiliente.

Marcio Alexandre Martins

acho que está tendo uma visão pessimista, pois nosso povo é extremamente resiliente, vivemos a mais de 3 décadas em crise sociais e educacionais, tendo a obrigação de se adaptar para sobreviver, acredito que não daria certo os pontos que comentam na questão de diferenciação, pois temos 40 alunos em cada sala e um professor.

Francisco Souza Aguiar

Concordo com vc, Márcio. O Brasileiro e qualquer povo, é capaz de grandes realizações. Mas precisamos começar a mudança, escolhendo melhor nossos representantes e participando ativamente da vida de nossas cidades, a começar da nossa rua.

VALERIA DA SILVA GARCIA

Acredito sim, q com boa educação o céu é o limite. Somos bradileiros, somos resilientes. Quando nos unirmos em uma educação em q ñ prevaleça a diferença, estaremos preparados para adentrar ecompetir c diversas cultura, classe social. Eu acredito na educação e só c ela e por ela q seremos livres e respeitados.

Bruna

Concordo com sua colocação quanto aos pontos impeditivos para o sucesso da educação brasileira, até porque enquanto projeto as escolas de tempo integral se aproximam muito do que foi feito na reforma educacional finlandesa. Falta apenas os políticos assumirem a educação como prioridade para permitir o melhor desenvolvimento e não ficarmos apenas no discurso ideal.

Rosaires Lima Moura

Para mim, o número alto de alunos é o maior desafio.

Francisco Souza Aguiar

Guilherme, eu imagino ser possível a implantação do Modelo Finlandês ou qualquer outro sistema educacional que funcione. O que precisamos é de muita vontade, determinação e trabalho, para mudar. E isso leva tempo.

heber

Em nossa cultura brasileira acredito que somos, sim, resilientes. O grande problema é a buracratização que é confundida com a falta do Estado. Entretanto, estamos apenas colocando a culpa em alguém maior, o Estado, para sentirmos melhor e apontar o dedo para o grande vilão, claro que o estado tem uma grande relevância, visto que nossa educação é pública. Porém, a educação será mudada do micro para o macro, isto é, pequenas ações irá mudar a educação, começando com o insentivo para nossos filhos

heber

iria continuar minha fala, mas fui limitado pelo site (número estipulado de letras). Ademais gostei mt do artigo e da possibilidade do bate papo

Paulo César

Péssimoooo site. Não deixa a gente ler a matéria.

João Seboso

Como não bocó ?

Francisco Souza Aguiar

Paulo César, deve ter havido algum problema no seu acesso. Eu consegui ler toda a reportagem sobre o sistema Educacional na Finlândia, que foi o que desejava ver. Um belo depoimento da Professora Maria Muuri

Francisco Souza Aguiar

A Educação não pode ser objeto de disputa política partidária ou ideológica e sim, ser a Politica que fomenta o desenvolvimento de uma Nação.

Sandro Molina Ruiz Dias

E mesmo apesar desse sedutor e único método de ensino, no Ranking do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) de 2019, a Finlândia está em 7º lugar, ficando atrás da China, Estônia e Canadá, cujos métodos são os TRADICIONAIS, ou seja, aprendizagem por repetição e memorização, sala de aula, quadro branco, professor explicando a matéria, disciplinas regulares, rigorosidade, competitividade, provas, reprovação e ensino voltado para o mercado de trabalho etc. Não se iludam!

Anaid Macaringue

O sistema é novo, desde 2016! Vamos ver daqui a 15 anos para tirar conclusões

rivanadasilvarochaduarte

Penso que todas essas mudanças não aconteceram, simplesmente por que era fruto do desejo da comunidade.Deve ter havido um fator condicionante e impulsionante dessa mudança de cenário, alguma troca no campo político que não ficou bem explícito, mesmo sendo um país que possui seriedade no cumprimento das leis. È o que falta no Brasil, rigor no cumprimento das politicas publicas e em seu monitoramento!

Léo Ferreira

Muito interessante as informações da matéria. Acho de grande importância o sucesso que a Finlândia vem conquistando em relação à educação de seu país, pois está conseguindo uma transformação de forma democrática, método esse, muito mais difícil, já que usa a via do convencimento e da conscientização das pessoas. É muito mais fácil ter os resultado que se quer pela força e autoridade, mas o caminho democrático, mesmo sendo mais mais penoso, tem um valor infinitamente maior.

vanessa

O problema do Brasil é querer importar modelos de ensino de outros países, que possuem outras realidades totalmente diferentes da nossa. A moda agora é o método de ensino da Finlândia, ensino híbrido, etc…. enfim… temos que pensar em modelos voltados para nossa realidade, mas como nossos pedagogos são preguiçosos é complicado.

Marluzia

Muito importante a cultura educacional finlandesa.

Marcelo

Vontade de morar e trabalhar na Filândia!!

ADAILSON

Os finlandeses possuem um forte sentimento de identidade nacional, ou seja, são pessoas patriotas. Este sentimento tem as suas raízes na história do país – especificamente, no que diz respeito à dignidade das suas realizações durante as guerras e às suas conquistas meritórias na área de esportes. As palavras tem o devido valor, sempre que alguém fala algo, a verdade é a regra, a mentira é exceção. O Brasil precisa de uma mudança de cultura, com princípios e valores bem estabelecidos.

Epaminondas

O modelo finlandes é passivel de ser seguido e talvez melhorado em qualquer lugar que esteja disposto a colocar a educação como chave primordial para uma nação ser realmente soberana e seus cidadãos respeitados integralmente. O que temos no Brasil são modelos de educação que prioriza o valor das notas atribuidas a cada estudante, o vitimismo como base de uma decadencia moral e academica, o desrespeito com a classe de professores e a maquina de governo que abraça a ideia de menos educação é melho

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