Como a tecnologia pode ser parceira da leitura na hora de alfabetizar - PORVIR
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Inovações em Educação

Como a tecnologia pode ser parceira da leitura na hora de alfabetizar

Múltiplas plataformas e ferramentas tecnológicas servem de apoio aos educadores, pois permitem que sejam trabalhados diferentes gostos, de maneira mais personalizada

Parceria com Árvore

por Ruam Oliveira ilustração relógio 14 de outubro de 2021

O jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu certa vez um microconto sobre um menino que nunca tinha visto o mar. Ao se deparar com a imensidão das ondas pela primeira vez, a criança pediu ao pai: “Me ensina a ver”, tamanho era o espanto.

Ler o mundo requer que, por vezes, o educador ou educadora faça esse papel de ajudar os estudantes a ver. No contexto de alfabetização, com cada vez mais possibilidades de leituras – seja em texto, em vídeo ou áudio – avaliar o progresso passa por compreender os sentidos. Tudo isso sem deixar de observar o papel da tecnologia.

Múltiplas plataformas e ferramentas tecnológicas servem de apoio aos educadores, pois permitem que sejam trabalhados diferentes gostos, de maneira mais personalizada – também quando se pensa em leitura. “A tecnologia potencializa, permite que o professor acompanhe com mais clareza os processos. A questão da democratização do acesso também é fundamental. Quando se democratiza o acesso à tecnologia, se permite que o aluno faça escolhas”, diz Kamilla Martins, coordenadora de consultoria pedagógica na Árvore.


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Nessa possibilidade de poder escolher e descobrir o que se gosta de ler, por exemplo, Kamilla aponta que não é possível alfabetizar sem, ao mesmo tempo, dar sentido ao que está sendo lido.

Aprender a ler é aprender a ver. É sempre importante observar a leitura a partir dessa perspectiva mais ampla, que não se relaciona unicamente à leitura de texto, mas às diferentes formas de ler a vida, as relações e as interações. Existem mensagens que são passadas por meio de imagens, de vídeos e de músicas. Uma capa de um livro também transmite uma informação, e é uma leitura possível.

“Toda vez que eu leio algo, não estou lendo somente o que está escrito, eu leio o que está escrito em relação a várias outras leituras que foram feitas por aquela pessoa que compôs o texto e várias outras leituras que eu também fiz ao longo da minha vida”, afirma Kamilla. “A gente lê aquilo que temos dentro de nós mesmos.”

Todo ser humano que nasce em centros urbanos está inserido dentro de uma sociedade letrada e, portanto, não deve ser considerado como algo vazio ou sem conteúdo. Até mesmo quando se pensa na gama de leituras possíveis, ler menos texto não significa necessariamente que não existe leitura nenhuma.

O que jovens e adolescentes veem nas redes sociais, por exemplo, também é um tipo de leitura. Estando nas redes envolve, portanto, tecnologia, o que leva a um outro tipo de alfabetização: a midiática.

O letramento midiático passou a ser cada vez mais importante no cotidiano escolar devido ao aumento da quantidade de informações que circulam na internet e ao avanço dos meios de comunicação. Compreender, ter uma postura crítica e racional a respeito desse material é o que a alfabetização midiática propõe, além de ser uma forma de educação civilizatória.

Alfabetização aliada à tecnologia 

É preciso ensinar a ver. Para usar uma definição, Kamilla aponta que alfabetização seria o processo de inserção do indivíduo no mundo. Não se trata somente de ensinar os códigos, ou seja, que esse símbolo “A” representa uma letra e que, junto deste “B” forma uma sílaba. Os códigos são extremamente importantes, mas representam apenas uma parcela de todo o processo complexo de alfabetização. “Nessa perspectiva, ela [a alfabetização] assume um caráter crítico do mundo.”

Alfabetizar atualmente não depende apenas de recursos analógicos. As escolas devem estar abertas às possibilidades de uso de leitura em plataformas digitais, como o caso da própria Árvore. “A tecnologia tem sido um recurso riquíssimo, trazendo para a prática alfabetizadora, materiais coloridos, interativos, divertidos e principalmente do interesse desta geração que já nasceu em meio a este mundo tecnológico. Existem muitos sites e aplicativos com jogos que estimulam habilidades ligadas à aquisição da leitura e da escrita”, afirma a professora Sabrina dos Santos Rocha, coordenadora pedagógica na Secretaria Municipal de Educação de Tramandaí (RS).

A criança que vive em um meio letrado, tem maior facilidade em desenvolver as habilidades necessárias para a leitura e para a escrita.

Para Sabrina, se atualmente é possível trabalhar a leitura com o apoio da tecnologia, por que não usá-la? “Aqui no município temos professores alfabetizadores maravilhosos, que em meio à pandemia, se destacaram criando canais no YouTube, produzindo seus próprios vídeos de alfabetização. Outros aprenderam a criar seus próprios jogos pedagógicos em sites, para poderem jogar de forma online nas aulas síncronas durante o período de aulas remotas”, conta.

Onde Sabrina leciona, a leitura é trabalhada desde o início da alfabetização. Eles utilizam rótulos de produtos, nomes de marcas conhecidas, imagens e placas ao redor da escola. São diferentes estratégias de iniciação à leitura, todas desde o início da escolaridade.

“A criança que vive em um meio letrado, tem maior facilidade em desenvolver as habilidades necessárias para a leitura e para a escrita. Além disso, crianças pequenas que convivem com adultos que leem para elas, desenvolvem a curiosidade, a imaginação e o gosto pela leitura. Hoje, além de aproveitar o deleite de ler um bom livro físico, contamos com a facilidade de ter na palma das mãos diversas obras literárias digitais”, reflete.

Produção de sentidos

O progresso da leitura está, de certa forma, na maneira como ela é apresentada. Está também na intencionalidade da inclusão de leitura em sala de aula, mesmo dentro do escopo de alfabetização. Nesse processo, Kamilla considera que é importante trabalhar não só a capacidade de ler e compreender, como também de produzir. Isso também é alfabetizar.

Em outras palavras, fala-se muito sobre a leitura dentro do processo de alfabetização e menos sobre a escrita, ou seja, na autoria. Isso pode acontecer, por exemplo, pedindo para que a criança faça um reconto ou reflita sobre determinada narrativa e conte de que forma ela pode se conectar com a sua vida.

“É fundamental no processo de alfabetização estimular essa resposta criativa. Mesmo se a criança não der uma resposta que a gente queira ouvir. A partir dessa resposta criativa, a gente também está estimulando a autoria, e acho que isso torna o processo da alfabetização assim, de modo geral, também muito rico”, aponta Kamilla.

Assim como a experiência de ver o mar fez com que o menino pedisse ajuda ao pai, o processo de tornar-se criativo, compreender o mundo e ter uma leitura mais ampla da vida, requer que educadores e educadoras estejam cientes, ativos e abertos a usar diferentes ferramentas – tecnológicas, inclusive.

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TAGS

aplicativos, competências para o século 21, educação infantil, tecnologia

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